“O Alentejo tende a abrigar uma visão do tempo e do espaço mais paulatina”

Júlio Machado Vaz é um empático sedutor. Cativa pela forma desempoeirada com que fala sobre tudo, sem reservas e com amável didactologia. O Porto e o Alentejo tornaram-se perto para nos deliciarmos com uma conversa franca. Em tempos inférteis de saúde mental, falemos sobre ela, sem amarras e dramatismos. Amanhã será melhor se hoje se investir. Carlos Leitão (texto) e Ricardo Castelo (fotografia)

Em tempos coniventes com as questões da saúde mental, convidámos um reputado médico das respetivas patologias a prescrever-nos esclarecimentos e a mitigar as demais inquietações. Sumidade da poda, o professor Júlio Machado Vaz disse “sim” e logo se aprestou a fazer a ponte entre o Porto e o Alentejo que, mesmo ilustrado, não lhe fica assim tão distante: “Somos demasiado pequenos e endogâmicos para diferenças essenciais, mas diria que o Alentejo, pela vastidão da sua paisagem e pelo clima, tende a abrigar uma visão do tempo e do espaço mais paulatina do que a nortenha, filha do minifúndio”.

Ainda assim são tempos inabituais, e um psiquiatra não deixa de olhar para esta sociedade “com inegável curiosidade profissional”. Júlio Machado Vaz prefere a simplicidade no trato e nas palavras; de qualquer forma, o médico e o cidadão têm de ser separados para que a análise seja séria: “Seguramente o cidadão é muito mais sanguíneo, está-se nas tintas para eventuais explicações psicológicas ou sociológicas, sofre de uma ‘doença’ típica dos nossos tempos, reagir mais do que agir de forma meditada”.

E qual a razão para isso continuar a ser dessa maneira? “Ainda há resistência em procurar ajuda, principalmente por parte dos homens, mas a situação melhorou”.

Mas quando falamos acerca da atualidade, põe o dedo na ferida que nos anda a sangrar dias inteiros: “Quando vejo cartazes a incitar ao ódio pergunto-me em que mundo – e não só em que país – viverão os meus netos. As promessas de empatia e solidariedade, que tanto ouvimos aquando da pandemia, foram esquecidas, só as fazemos com as costas encostadas à parede. Uma vez a salvo reaparece o feroz individualismo que carateriza uma socie- dade capitalista de consumo”.

Muitas vezes não percebemos a dificuldade que temos em enfrentar, em dar o peito, em arribar. Talvez seja mesmo esse um traço identitário desta coisa de ser português; mas, afinal, que pessimismo é este que parece transcender-nos, enquanto povo?: “Não creio que sejamos os únicos, o horizonte é sombrio a nível global, talvez tenhamos tendência para um maior conformismo e para as chamadas revoltas de café; basta compararmo-nos com nuestros hermanos. Para que entendamos, estamos entre a medicina e a antropologia, não se excluem, são complementares”.

No caso do Alentejo, as razões são facilmente identificáveis, daí não serem surpreendentes; por exemplo, as taxas de suicídio que há demasiados anos castigam a região: “Deve-se a problemas laborais, ao envelhecimento das populações com a migração dos mais jovens para os grandes centros e à solidão, sem esque- cer fatores individuais e conjunturais”.

Trazemos a verdade aos ombros (e dói a tanta gente), mas a própria tipologia do Alentejo, a vastidão, o horizonte, o espaço, o vazio, pode ser ela própria uma ajuda adicional para tratar desequilíbrios emocionais ou psíquicos: “Tudo o que contribua para nos pacificar nesta era de frenesim pode ter valor terapêutico, mas não podemos deixar ao acaso a responsabilidade desses momentos, devemos procurá-los ativamente e interrogar o espelho – se posso ou não abrandar”.

Quem nunca fez a pergunta a si mesmo? A resposta está na efetivação de tudo o que se fala em relação à saúde mental e, por consequência, não podemos perder mais tempo: “Falar é uma coisa, proporcionar respostas às populações é outra, e o SNS está longe de as ter em tempo útil, empurrando as pessoas para o privado, que é caro. A saúde mental tem de ser uma preocupação desde tenra idade, o que implica todo um trabalho de mudança de mentalidades; a queixa psicológica não tem, no espírito das pessoas, a mesma respeitabilidade da queixa física. Há também efeito de género, com os homens sempre mais renitentes em pedir ajuda”.

A ansiedade e a depressão ganharam a sua expressão atual com a pandemia, e nunca mais nos largaram: “Sim, em todas as faixas etárias, e por razões diferentes. Os mais velhos temendo a solidão, os mais novos o futuro”. Então torna-se fácil esta proliferação de influencers e coachers fazendo da moda o seu modo de vida; e a avaliar pela resposta de Júlio Machado Vaz, não é difícil deslindar o que por aí se anda a fazer: “Vejo isso com apreensão. Uma parte negligenciável da informação ao dispor é de muito má qualidade ou mesmo desonesta. É indispensável aumentar a capacidade de triagem da população”.

Só assim não somos levados a crer que a responsabilidade é de outros; a sua ausência traz-nos o egoísmo que nos anda a afastar do próximo, dos valores sociais, até da tolerância democrática: “Vivemos tempos de ignorância arrogante, todos somos especialistas em tudo e pouco disponíveis para ouvir quem sabe mais do que nós. Os resultados estão à vista nas redes sociais, ou na presidência dos Estados Unidos”.

Aqui chegados, qual o impacto do estigma social nas pessoas diagnosticadas, bem como nas suas famílias? “O impacto é variável, mas não é raro o isolamento social e até a depressão”. Não é, então, de estranhar que as pessoas continuem a confundir papeis; psicólogoe psiquiatra não são distinguíveis apenas porque um passa receitas e o outro não. “Quando me falam dessa dicotomia respondo sempre que mal vai a psiquiatria que se refugia na medicação e não escuta as pessoas, trai-se a si mesma. Infelizmente há quem o faça”.

A iminência da solidão é um dos problemas mais graves para quem se ocupa das patologias relacionadas com a saúde mental, mas não nos equivoquemos: o jogo é perigoso, mais quando acharmos que está tudo bem. “Se uma solidão é pacificada pode ser benéfica, mas, na maior parte das vezes, trata-se de estar sozinho, e não só, é diferente”. A realidade de hoje é o tabuleiro onde todos jogamos, mesmo se acharmos que não; direta ou indiretamente as nossas atitudes, ou a falta delas, têm resultados que o tempo há de trazer à luz do dia no imediatismo certo.

Júlio Machado Vaz acabou também por se tornar conhecido do grande público por meio da televisão e dos programas de sexo- logia. Ora, provocámo-lo perguntando-lhe se o sexo não poderá, porventura, ajudar também a resolver problemas. A resposta foi clara: “Temporariamente sim, mas também os cria”. Pois. O Alentejo tem encantos indisfarçáveis, mas não se creia em receitas milagrosas.

Em todo o caso, e falando de nascenças e afins, como seria Júlio Machado Vaz se tivesse nascido por terras alentejanas, em lugar do seu Porto? “Seria um homem mais relaxado, repimpado, seguramente jantaria mais vezes com amigos na Taberna do José Dias, em Évora, e iria mais vezes com ele à pesca”.

Pois bem, meu caro Júlio, as portas estão escancaradas para quando quiser, ainda que saiba noutras conversas que lhe ouvi nunca se despedir da invicta. Pode ser que um dia possamos vê-lo por estas paragens usufruindo do ócio e do merecido descanso. Será que nessas alturas o psiquiatra chega a libertar-se do homem? “Gosto de ouvir música, rebolar-me com os meus cães, e sentar-me à mesa com a tribo. O psiquiatra não emigra, mas enrosca-se dentro de mim e dormita, agradecido”.

Uma resposta

  1. Esse é o Júlio que eu conheci há 66 anos no nosso Porto. Temos a mesma idade e fomos vizinhos e companheiros. Excelente conversa. Se foi ilustrada com a voz da mãe Maria da Conceição (Maria Clara) em fundo, foi ouro sobre azul (embora o Júlio goste mais do vermelho 😂)

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