Elvas foi o único concelho do Continente onde André Ventura obteve mais de metade dos votos expressos (50,85%) na segunda volta das presidenciais. Acresce que, nas últimas legislativas, o Chega foi igualmente o partido mais votado em Elvas, tendo, nas autárquicas, alcançado 25,87%, mais do dobro da média nacional, e sido o mais votado para a Assembleia Municipal (30,80%).
Nas presidenciais, e ao contrário do que aconteceu a nível nacional, o líder do Chega não superou o número de votos que o seu partido tinha somado nas últimas legislativas — ficou a 35 votos (4.795 versus 4.760) —, apesar de ter subido 10,99% em relação à primeira volta (3.976).
No que diz respeito às freguesias, Ventura venceu em cinco das oito (Santa Eulália, São Vicente e Ventosa, Caia, São Pedro e Ventosa, São Brás e São Lourenço, Barbacena e Vila Fernando), perdendo para Seguro em Assunção, Ajuda, Salvador e Santo Ildefonso, Vila Boim e na Terrugem.
A campanha eleitoral de André Ventura assentou, no essencial, nos temas habitualmente propagandeados pelo Chega: imigração, minorias étnicas, criminalidade e corrupção. Um dos «momentos» da campanha aconteceu quando membros da comunidade cigana conseguiram, em tribunal, que a candidatura fosse obrigada a retirar cartazes onde se lia que «os ciganos têm de cumprir a lei».
Segundo alguns estudos académicos disponíveis — ainda que não oficiais, uma vez que a lei impede o Estado português de recolher dados estatísticos com base na etnia, nomeadamente nos Censos —, estima-se que, em Elvas, esta comunidade tenha entre 700 e mil pessoas, o que poderá representar cerca de 3,5 a 5% da população total, uma das percentagens mais elevadas do país, já que a média nacional estimada se situa abaixo de 1%.
Já no que diz respeito à imigração, Elvas, com cerca de 10% da população enquadrada neste grupo, não foge ao contexto nacional. A maioria insere-se no escalão etário entre os 18 e os 34 anos e trabalha essencialmente na agricultura, sendo originária, sobretudo, do Brasil, Ucrânia, Cabo Verde e Índia, segundo os dados disponíveis.
Quanto à criminalidade, e segundo dados oficiais referentes a 2024, a cidade regista níveis relativamente baixos, semelhantes aos de cidades de média dimensão do interior, sem taxas elevadas de criminalidade violenta. A criminalidade geral em Portugal subiu 2,6% neste período, mas, em Elvas, trata-se sobretudo de pequenos furtos e infrações de trânsito.
No que diz respeito ao poder de compra, o concelho de Elvas apresenta um valor abaixo da média nacional (100), inferior a Portalegre, que acompanha a média, e a Évora e Beja, que se situam acima desse valor.
Rui Nabeiro, presidente da Associação Empresarial de Elvas, não encontra «nenhuma razão objetiva» para a vitória de André Ventura no concelho, confessando não saber «qual terá sido o intuito do eleitorado ao fazer essa escolha».
Por seu lado, Margarida Paiva, presidente da Comissão Concelhia do PSD e vereadora na Câmara Municipal de Elvas, aponta à «política local» como explicação: «Elvas desacreditou em tudo o que seja sinónimo de socialismo. O envelhecimento e empobrecimento do concelho, a falta de oportunidades e as escolhas da política social, por uns valorizadas, por outros esquecidas, levaram a esse desgaste.»
Também José Eduardo Gonçalves, líder da bancada do Chega na Assembleia Municipal de Elvas, justifica a vitória de André Ventura com o descontentamento da população e como resposta à «coligação de esquerda entre o PS e o movimento independente [liderado por Rondão Almeida], que não foi assumida durante a campanha e que, agora, pesou na hora de votar», considerando que «Elvas teve um comportamento normal; atípico foi o resto do país».
Já João Alves e Almeida, diretor do jornal “Linhas de Elvas”, afirma que «se se falar com a população constata-se que há muita gente descontente com a comunidade cigana e o estilo de vida que apresenta: carros de alta cilindrada e topo de gama; passam a vida no café a comer, beber e a deitar tudo fora».
A somar a isso, continua, «há os 30 anos de Rondão Almeida e de políticas que alimentaram estes sentimentos: bairros para esta comunidade; subsídio atrás de subsídio; apoio para isto e para aquilo; enquanto a classe média não tem apoio nenhum: a água e os esgotos estão caríssimos; não se fomenta a criação de empresas e as pessoas ou trabalham no Estado ou são empregados da autarquia».
José António Contradanças vai no mesmo sentido, considerando que os resultados eleitorais das presidenciais «têm algumas explicações». Desde logo, «as ligadas aos incómodos causados pelos comportamentos da etnia cigana, à perceção de injustiça na atribuição de subsídios a quem não trabalha face aos salários de quem tem empregos precários e à perceção criada sobre a corrupção».
Mas, no caso concreto de Elvas, acrescenta, «tem forte peso o cisma político que se instalou no mandato autárquico iniciado em 2014». «Esse mesmo em que, passados 20 anos, Rondão Almeida deixou de ser presidente do Município por imperativos legais e tentou encontrar forma de continuar a presidir, tendo como testa de ferro (como soe dizer-se) Nuno Mocinha», escreve o ex-deputado municipal eleito pelo PS.
Margarida Paiva, questionada sobre o peso que o discurso anti-ciganos de Ventura possa ter tido no resultado final, refere que, «estranhamente», em Elvas, a campanha não exibiu esse cartaz. «O que apareceu aqui dizia respeito aos imigrantes não poderem viver de subsídios.»
Também José Eduardo Gonçalves desvaloriza essa dimensão, afirmando que esse não foi «o tema».
«Essa comunidade, como em todas as etnias, tem bons e maus. Desde a minha infância que me dou com membros dessa etnia, respeito-os e eles respeitam-me a mim. Acho que isso é uma falsa questão. A grande razão para as pessoas terem votado em André Ventura é, em primeiro lugar, ele ser como é; depois, em Elvas, todo o trabalho feito pelos autarcas do Chega, desde 12 de outubro, também contou e foi fundamental. Aliás, a votação para a Assembleia Municipal foi ganha pelo Chega e, depois, uma geringonça de esquerda deu a volta à situação. Isso revoltou as pessoas de Elvas por terem sido enganadas», conclui.
A este propósito, João Vintém, ex-vereador do PS em Elvas, considera ser «evidente» existir «uma comunidade cigana com algum significado», mas sublinha que «não é essa comunidade em si que cria problemas». «Isso é usado pelos extremistas, com o álibi do rendimento mínimo, que exploram bem, quando, na realidade, representa uma insignificância», acrescenta.
FALTAM PERSPETIVAS
O diretor do “Linhas de Elvas” aponta ainda outras razões para a situação atual. «A cidade não tem perspetivas. Existe, ainda, uma desvantagem — que já foi uma vantagem — de estarmos a 10 quilómetros de uma grande cidade [Badajoz]. Ou seja, muitas das mais-valias geradas em Elvas acabam gastas em Espanha: roupas, centro comercial, gás, combustíveis… tudo é mais barato do que cá. Isto é visto como culpa do sistema e cria descontentamento nas pessoas.»
João Alves e Almeida recorda que Elvas, enquanto cidade de fronteira e historicamente militar, «no tempo do absolutismo foi a única a render-se», o que lhe custou a perda do estatuto de capital de distrito em favor de Portalegre. «Teve consequências. Neste momento, sermos o único concelho do Continente com maioria alinhada com o Chega também vai prejudicar a cidade», conclui.
Na mesma linha, João Vintém acrescenta outros fatores: «A cidade, nos primeiros 20 anos de gestão socialista — dos quais eu também fiz parte —, desenvolveu-se e fez obra. A partir de 2014, com a cisão no PS entre Mocinha e Rondão, ambos passaram a privilegiar medidas úteis para ganhar votos, nem sempre coincidentes com uma estratégia de desenvolvimento. Mais tarde ou mais cedo, as pessoas percebem que se trata de uma lógica de manutenção no poder.»
O ex-autarca sublinha que a cidade tem uma localização «privilegiada», pela proximidade a Badajoz, «o que poderia ser melhor aproveitado, nomeadamente no turismo, sendo que Elvas é Património da Humanidade desde 2012, algo que não tem sido devidamente valorizado».
Acresce, diz, «a falta de uma estratégia clara na área da indústria e na fixação de empresas, o que tem levado as pessoas a desacreditarem em quem governa». Conclui que, nas últimas presidenciais, António José Seguro «não foi vítima dele próprio, mas das contingências locais», e alerta que, se nada mudar, «estão reunidas as condições para que Elvas seja o primeiro concelho no Alentejo a ser gerido pela extrema-direita nas próximas autárquicas».
Fotografia: Nuno Veiga/Lusa/Arquivo












