Em 1944, no primeiro volume da revista “Arquivo de Beja”, publica-se o regulamento que estabelece a proteção do património arqueológico, histórico e artístico do concelho. A proposta, apresentada à Câmara Municipal pelo seu presidente, Dr. Leonel Pedro Banha da Silva, em 21 de agosto de 1942, foi aprovada e entrou imediatamente em vigor.
A leitura desse documento revela uma visão estratégica e surpreendentemente moderna do património. Num tempo em que pouco se conhecia, mas muito se intuía, sobre o estado de conservação dos vestígios arqueológicos de Beja, esta proposta traduz uma consciência patrimonial que ultrapassa em muito o pensamento comum da época.
O texto reconhece os edifícios monumentais e os documentos arqueológicos e artísticos não apenas como objetos de estudo ou de progresso local, mas como parte integrante do património espiritual da comunidade, um legado que cabia a todos conservar e defender. Por detrás desta proposta encontrava-se o incansável arqueólogo, natural de Viana do Castelo, Abel Viana, cuja ação e dedicação foram determinantes na afirmação de uma consciência patrimonial em Beja e na valorização dos seus vestígios arqueológicos.
Essa simplicidade de formulação encerra uma profundidade conceptual que o tempo viria a confirmar. Antecipando noções hoje centrais, como a relação indissociável entre património material e imaterial ou a importância do espírito do lugar, Banha da Silva e Abel Viana estabeleciam as bases de uma política de preservação que só décadas mais tarde ganharia expressão formal nas práticas patrimoniais nacionais.
O seu entendimento do património como um todo orgânico, compreendendo pedras e memórias, de monumentos e significados, demonstra uma antecipação rara das preocupações que viriam a marcar as políticas patrimoniais contemporâneas. E, estamos em crer, que muito influenciaram o plano de salvaguarda e recuperação do centro histórico de Beja, de 1981, também ele pioneiro no seu entendimento e estratégia.
À luz do conhecimento atual, a relevância dessa visão é ainda mais evidente. Hoje sabemos que no centro urbano de Beja se encontra ainda bem conservada a parte sagrada do fórum da cidade de Pax Iulia, onde se conservam as fundações de dois templos, e que esta praça principal da cidade romana evoluiu num espaço de culto do aglomerado pré-romano. Estes vestígios, testemunhos materiais de uma longa continuidade de ocupação e de sacralidade do espaço, dão corpo aquilo que a proposta de 1942 já intuía: a existência de um património profundamente enraizado, portador da identidade histórica e espiritual da cidade.
A propósito do momento de fundação da cidade romana de Pax Iulia, convém esclarecer que, excluindo os textos dos autores que entre os séculos XVI e XVII se debruçaram sobre as antiguidades da cidade de Beja (Frei Amador de Arrais, Vasco Freire, Félix Caetano da Silva, Frei Manuel do Cenáculo, entre outros), e que convictamente defendem, embora sem argumentos concretos, uma fundação anterior aos romanos, as teses académicas e os textos científicos apresentados até ao final da década de 80 se baseavam na certeza de que Pax Iulia havia sido uma fundação nova ex-nihilo.
DA TEORIA ARQUIEOLÓGICA, À EVIDÊNCIA MATERIAL
O facto de não haver menção convincente a vestígios pré-romanos surgidos nas diferentes sondagens que, ao longo dos tempos, se fizeram na cidade e a denominação latina sem qualquer indicador de topónimo anterior sustentavam essa tese. Pensava-se, até há pouco tempo, que a importância de Beja advinha do facto de ter sido uma cidade fundada pelos romanos (em local onde, antes deles, ninguém tinha construído povoação), com o nome de Pax Iulia, com o estatuto decolonia civium Romanorum e com a capitalidade do vasto Conventus Pacensis.
As escavações, com carácter e método científico, que desde os anos 90 do século XX se fazem em Beja, vieram demonstrar que bem antes dos romanos já o planalto onde encontramos Beja havia sido ocupado, por homens e por deuses, que no interior de uma muralha levantaram suas moradas. Na Rua do Sembrano, na Praça de Armas do Castelo, no Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo, reconhecem-se fartos testemunhos do aglomerado, cujo momento de instalação terá ocorrido no final do séc. VII a. C.
Não sabemos que nome teria o aglomerado quando os romanos firmaram o topónimo Pax Iulia; todavia, apesar dos trabalhos que apontam para Medellín, em Espanha, a localização de Conistorgis, mantemos como hipótese ser possível que fosse aqui a capital dos Conii.
Os trabalhos arqueológicos realizados no centro da cidade, pela equipa do projeto “Arqueologia das Cidades de Beja”, do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências da Universidade de Coimbra, permitiram analisar contextos e revelar edifícios mostrando, finalmente, que, apesar da dificuldade, é possível argumentar sobre a dinâmica de evolução da cidade na longa duração e entender as distintas estratégias empreendidas no processo de fábrica urbana, que teceu e conformou a malha da cidade atual.

O ESPAÇO SAGRADO DO FÓRUM
Ao contrário do que a historiografia afirmava, sustentada na informação de Estrabão, de que Pax Iulia teria sido a colónia fundada ao mesmo tempo de Emerita Augusta e de Caesaraugusta, a arqueologia informa que a origem da cidade romana em Beja foi anterior ao reinado de Augusto. Confirmado está que a instalação das primeiras infraestruturas que haveriam de transformar o antigo oppidum numa capital de civitas, não há hoje dúvidas de que a cidade romana remonta aos tempos do governo de Júlio César na província da ulterior, em 61 a. C.
A ocupação do planalto de Beja na Idade do Ferro é firmemente atestada por cerâmicas e estruturas construídas, de que se destaca a muralha, um edifício e materiais cerâmicos. Cerâmicas recolhidas em escavação recente no logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo, datadas de meados/ terceiro quartel do terceiro milénio a. C., apontam para que se recue a data da ocupação, pese embora até ao presente se conhecerem apenas raros fragmentos, entre eles um de cerâmica de tipo campaniforme decorada.
No ponto mais proeminente da cidade de Beja, com cabeceira no logradouro do Conservatório Regional de Música, destaca-se o edifício orientado SE/NO, de 15,30 metros de largura, medida no topo nordeste e, aparentemente, 18,3 metros de comprimento (não tendo sido permitido escavar para confirmar cabalmente). Construído sob forte alicerce de pedra (gabros e dioritos da região) de média e grande dimensão, sem qualquer ligante, separadas em fiadas por finas e discretas camadas de placas de xisto colocadas na horizontal. Foi objeto de evidentes obras de manutenção e conserva-se, no ponto mais elevado da fundação, em 2,5 metros de altura. Morfologicamente, apresenta cabeceira tripartida, definida por dois “compartimentos” rectangulares, enquadrando um espaço central aberto que se prolonga para sudoeste.
No quadro da apropriação do território e da implantação de estruturas de capitalidade que Roma implementará na região, e que inclui um conjunto de estruturas rurais de tipo villae (Pisões, Suratesta, S. Cucufate, Raposinha; Torre da Cardeira, Quintos, etc.), lícito se torna concluir que, se por um lado a instalação da civitas corresponde a uma nova ordem político-económica, por outro lado essa instalação não elimina formas de coexistência com o elemento anterior. Uma simbiose que, pela sua inerente complexidade, não deixará de produzir uma singular forma de organização e um peculiar processo de transformação do aglomerado indígena e do território.
Essa excecionalidade é bem visível no processo de reconfiguração do recinto sagrado do aglomerado antigo. Em posição paralela ao antigo templo de pedra, de modo a criar um cenário de monumentalidade, será construído, no século I a.C., um equipamento hidráulico composto por um tanque de 14,90 metros de comprimento, 7,80 metros de largura e 2,50 de altura, rematado na fachada SE por dois tanques quadrados, um parcialmente destruído e deslocado e outro intacto, mas revirado por colapso da estrutura de sustentação.
O tanque/reservatório, que poderia recolher até 163,296 metros cúbicos de água, tinha 2,40 metros de profundidade. Um canal, situado no fundo e ao centro da parede noroeste, ligava com uma canalização que segue orientada para noroeste sob o casario, cujo destino não foi possível apurar. Parcialmente destruído em 1943, apenas no local de implantação da sapata do reservatório de água, mantém paredes largas, construídas em opus caementitium de mistura de cal muito forte e pequenas pedras, internamente revestidas de uma argamassa fina e totalmente impermeável.
O fundo é revestido por um cimento feito de fragmentos de mármore grosseiramente triturados misturados com cal. Seria revestido por paredes de tijolo, e o acesso ao fundo fazia-se por uma escada situada no canto SE, feita por degraus de tijolo revestidos de opus signinum.
O tanque/reservatório conectava-se com os pequenos tanques através de canos de chumbo, como se encontra ainda a meio da parede do tanque intacto, e também por canos de telha, como também se observou no fundo, no canto NE, do mesmo tanque.
Se a proposta de dimensões do templo da Idade do Ferro estiver correta, o tanque/reservatório alinha a sua frontaria com a deste edifício e os dois pequenos tanques, que se desenvolvem na fachada, assumem uma vinculada intenção de criar uma frente monumental, onde deveria estar uma fonte, como sugere a parte já desenterrada.
A fonte, associada aos pequenos tanques, prolongaria o cenário decorativo da frente do templo, na qual estavam colocadas estátuas, conforme indica a escavação de um pedestal de estátua e de outros elementos de organização da fachada, datados de época romano-republicana, os quais vincam claramente a intenção de transformar o espaço sagrado antigo num espaço de grande monumentalidade, onde a presença da água assume destacado protagonismo. Este projeto de monumentalização, representado por este conjunto associado à água, criaria um conjunto cénico de grande impacto e beleza na praça central da cidade romano-republicana.
César, por certo em razão da importância dos benefícios que concedeu a Pax Iulia, viria a ser homenageado pelos pacenses, provavelmente no fórum, com o levantamento de uma estátua monumental a que poderia pertencer a cabeça que recentemente se identificou.
LEGADO PARA O FUTURO
Se a visão pioneira de Leonel Pedro Banha da Silva e Abel Viana tivesse sido plenamente observada e respeitada ao longo das décadas, o sítio arqueológico urbano, onde se cruzam o passado pré-romano, romano, tardo antigo e o património renascentista, com a casa da moeda do século XVI, não teria sofrido os danos que se verificaram nos anos recentes. Esses danos representam não apenas perdas materiais, mas também feridas na memória coletiva de Beja.
Os reconhecimentos crescentes do valor desse património arqueológico urbano exigem um compromisso renovado com a sua preservação. Aponte-se, assim, para que a lição visionária de 1942 sirva de inspiração para cuidar com sabedoria o que o tempo manteve e se usem as pedras do passado como alicerce de um futuro de bem viver.
A autora é arqueóloga e professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Doutorou-se pela Universidade de Coimbra defendendo a dissertação “A Cidade Romana de Beja. Percursos e debates acerca de Pax Iulia”, com a qual obteve o Grau de Doutor, com louvor e distinção, por unanimidade.













2 Responses
Obrigada por todo o estudo e empenho em conhecer melhor a história da nossa cidade de Beja!
Gosto tanto de saber e conhecer e a história da cidade!
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