Trata-se do «último capítulo» da «trilogia da Reboleira» do realizador luso-suíço e da sua quarta longa-metragem. O filme «mistura comédia, drama e thriller» e «explora as relações de poder num bairro problemático nos arredores de Lisboa durante as operações de demolição», refere a sinopse distribuída pela organização.
A ação arranca com um assalto que «termina da pior forma»: segundo o mesmo texto, «um carro despista-se no coração do bairro, o assaltante é preso e os 180 mil euros roubados desaparecem sem deixar rasto». Com a polícia a cercar a zona, «instala-se uma verdadeira caça ao tesouro», em que «todos acreditam saber onde está o dinheiro e todos querem encontrá-lo primeiro».
Entre as personagens estão PC, «o líder do bairro», que «envia o jovem Chandi para se infiltrar junto de KP e descobrir o paradeiro do dinheiro»; Machine, que «prepara um golpe para roubar Máfia, um traficante apaixonado por automóveis antigos»; e Xana, que «tenta libertar-se do marido violento, acabado de sair da prisão».
«À medida que as alianças mudam e a tensão aumenta, as histórias cruzam-se numa sucessão de encontros inesperados, traições, humor e violência», acrescenta a sinopse, que remata com o boato que dá título ao filme: «há quem garanta ter visto um jacaré a vaguear pelas ruas da Reboleira».
Para Basil da Cunha, «O Jacaré» é também uma despedida da Reboleira, território que filma há mais de 15 anos e que, ao longo desse tempo, se tornou elemento central da sua obra. Numa nota de intenção divulgada pela produtora Thera Production, o realizador explica que o bairro nunca foi apenas cenário, mas «o coração dos filmes», que acabaram igualmente por se tornar memória daquele lugar.
Perante o desaparecimento progressivo da Reboleira — devido às demolições —, o realizador sentiu necessidade de reunir novamente habitantes e intérpretes com quem trabalhou ao longo dos anos, numa espécie de «última dança», opção que conduziu naturalmente à construção de um filme coral.
Basil da Cunha reconhece ainda em «O Jacaré» uma nostalgia ligada à sua própria formação como espectador, marcada pelo cinema dos anos 1990, procurando recuperar uma energia «pop, luminosa», atravessada pela comédia e por uma ideia de liberdade.
Essa escolha estética corresponde também a uma posição sobre a forma como as periferias são habitualmente representadas no cinema. Em entrevista ao BUALA, Basil da Cunha defende que «temos o direito a outro tipo de cinema» e rejeita a ideia de que estes territórios tenham necessariamente de surgir associados a um olhar pesado, pedagógico ou exclusivamente centrado na denúncia social.
O realizador assume referências ao cinema americano, aos filmes de ação e à comédia, sem considerar que isso retire dimensão política ao trabalho: pelo contrário, entende que transformar as personagens do bairro em protagonistas e «heróis de cinema», em vez de as reduzir à condição de vítimas, constitui já uma opção política. «O Jacaré» funciona, assim, simultaneamente como celebração e memória de uma comunidade em transformação, uma «despedida, mas em forma de celebração», nas palavras do realizador, que prefere guardar a luz, o humor e os momentos felizes de um mundo que está a desaparecer.










