«O património não pode ser lembrado apenas quando acontece uma desgraça»

O novo presidente do Grupo Cidade, Rui Pimentel, defende uma estratégia mais consistente para a conservação do património histórico de Estremoz, alertando para a degradação de vários espaços e para a necessidade de mobilizar instituições e cidadãos na proteção de um legado que considera ter condições para ser classificado como Património da Humanidade.

Ana Luísa Delgado (texto)

Arquiteto, cartoonista e ilustrador, Rui Pimentel alerta para os riscos de degradação do património e defende uma intervenção mais preventiva na sua conservação. O recém-eleito presidente do Grupo Cidade – Cidadãos pela Defesa do Património de Estremoz lembra que «o património precisa de manutenção contínua».

Que significado tem para si dar continuidade ao trabalho de uma associação que se tem afirmado como uma das principais vozes na defesa do património de Estremoz?

É uma honra, naturalmente. Mas devo dizer que a minha ligação a estas funções surge após o falecimento do antigo presidente, Pedro Nunes da Silva, que era uma pessoa profundamente envolvida com o Grupo Cidade. Ele era, de facto, a alma desta associação. Para mim é não só uma honra, mas também uma grande responsabilidade — e até com alguma dificuldade assumida — continuar o trabalho dele, porque não sinto que tenha a mesma força ou a mesma capacidade que ele tinha. Consideramos que o trabalho que desenvolveu foi extraordinário e que a associação tem desempenhado um papel cultural relevante nesta cidade. Por isso, nós, que continuamos ligados ao Grupo Cidade, não queremos deixar apagar a chama que ele acendeu. Estamos a tentar prosseguir esse caminho de forma mais coletiva. Não porque ele não confiasse nos outros associados, mas porque era uma pessoa extremamente envolvida e central neste projeto. Agora estamos a tentar, em conjunto, dar continuidade ao trabalho que iniciou.

O Grupo Cidade tem acompanhado de perto vários temas relacionados com o património local. Na sua opinião, qual é hoje o principal desafio na preservação do património histórico de Estremoz?

Estremoz tem muitos desafios. Eu próprio sou de fora da cidade — nasci em Lisboa e vivi lá muitos anos antes de vir residir para cá — e tenho uma certa distância que me permite olhar para Estremoz de outra forma. Acho que Estremoz é uma pequena pérola no Alentejo. Tem tantas condições como outras cidades à nossa volta que foram classificadas pela Unesco como Património da Humanidade e poderia perfeitamente integrar esse grupo de cidades com património de grande relevância. No entanto, apesar dessa riqueza patrimonial, penso que Estremoz está um pouco maltratada. Há vários lugares onde o património não é cuidado como devia. Dou apenas um exemplo: o bairro de Santiago.

Porquê?

É um bairro extraordinário do ponto de vista da estrutura e do urbanismo, mas está muito degradado e deveria ser mais bem cuidado. Há várias formas de encarar o trabalho em defesa do património. Aliás, o próprio Grupo Cidade nasceu um pouco por causa disso, quando surgiu o problema da Casa do Alcaide-Mor, que estava ao abandono e acabou por ser integrada num projeto de recuperação. Na nossa opinião, a forma como essa casa foi recuperada não foi a melhor. Por isso, mantemo-nos atentos ao que se passa na cidade. Um dos exemplos mais recentes é a questão das muralhas, que para nós é um tema muito importante e que deveria ser resolvido rapidamente. Sabemos que a Câmara de Estremoz não tem capacidade financeira para resolver tudo ao mesmo tempo, mas também acreditamos que é possível mobilizar as instituições para procurar financiamento onde ele existe. Há fundos disponíveis para cuidar do património e é preciso saber utilizá-los. No caso das muralhas, a situação é um pouco escandalosa. Neste momento, uma parte da cidade está vedada e já não é possível sair pela Porta de Évora para aceder à estrada nacional. É uma situação que deveria ser resolvida com urgência.

Que leitura faz do que aconteceu, designadamente a derrocada do revelim da Porta de Évora, e que medidas deveriam ser tomadas agora?

Não tenho um cargo político, por isso não posso falar nessa qualidade. Mas parece-me que o que aconteceu é um sinal preocupante do estado a que chegou parte do nosso património. Estruturas como as muralhas são muito antigas e precisam de manutenção contínua. Não podemos assumir que estão de pé e que, por isso, não é necessário fazer mais nada. O património precisa de ser cuidado ao longo do tempo. O que aconteceu mostra que talvez não se tenha ido suficientemente longe na preservação dessas estruturas. A partir de agora, os responsáveis políticos têm de encontrar soluções. Há vários problemas envolvidos. Um deles é a centralização do país, mas também é verdade que os poderes locais têm de saber mobilizar os poderes centrais e procurar financiamento para tratar deste património. Ou, se necessário, exigir que o poder central assuma mais responsabilidades nesta área.

Ou seja, a manutenção do património fortificado da cidade é um problema estrutural?

Acho que sim. Ainda assim, também é verdade que alguma coisa tem sido feita. Mas penso que, se Estremoz não é hoje Património da Humanidade — como Elvas ou Évora — isso não se deve ao facto de o seu património ser menos relevante. Tem mais a ver com o facto de não se ter cuidado suficientemente bem desse património ao longo do tempo.

No concelho existe também a situação do Castelo de Veiros, com a derrocada de um troço de muralha em dezembro de 2022 e outro neste inverno.

Não conheço em profundidade a situação do Castelo de Veiros, por isso não posso falar com grande detalhe. Mas o princípio é sempre o mesmo: o património precisa de manutenção contínua. Não se pode agir apenas quando acontece uma desgraça. É necessário cuidar dele ao longo do tempo. E, como já referi, os responsáveis políticos têm de saber procurar financiamento onde ele exista para garantir as obras e a manutenção necessárias.

Acha que existe uma falta de estratégia preventiva para assegurar a conservação do património histórico?

Penso que sim. Falta, de facto, uma estratégia. Também não quero fazer uma crítica excessiva à Câmara de Estremoz, porque tenho consciência de que muitas das derrocadas recentes podem estar relacionadas com fatores muito específicos. Estamos a entrar numa nova era em que as alterações climáticas trazem novos desafios. No entanto, muitas vezes as câmaras municipais parecem mais interessadas em investir em festas e eventos — que são populares e visíveis — do que em canalizar esses recursos para a conservação do património. Não estou a dizer que a cultura ou os eventos não sejam importantes. As autarquias também têm um papel nessa área. Mas muitas vezes essas acabam por ser as prioridades, quando aquilo que nos preocupa diariamente é a preservação do património que define a identidade da cidade.

Há outro tema que também tem sido debatido: o projeto para transformar a antiga Casa das Fardas numa unidade hoteleira. Tem acompanhado o caso?

Não conheço todos os detalhes do processo. Sei que houve um concurso e que um projeto foi selecionado para transformar aquele espaço numa unidade hoteleira. Em princípio, não tenho nada contra este tipo de soluções. A adaptação de edifícios históricos a novas utilizações pode ser uma forma eficaz de garantir a sua conservação. No caso da Casa das Fardas, tal como está atualmente, é um edifício sem utilização e que acaba por não servir ninguém. A questão fundamental é perceber como essa adaptação vai ser feita. Nós tínhamos, por exemplo, uma proposta diferente para aquele espaço. O paiol que está anexo à Casa das Fardas poderia ser transformado num centro interpretativo dedicado às muralhas e ao sistema defensivo de Estremoz. Isso seria particularmente interessante, porque Estremoz foi uma praça militar muito importante, praticamente o quartel-general do Alto Alentejo durante as Guerras da Restauração e, mais tarde, durante a Guerra Civil. Todo o sistema defensivo da cidade — as muralhas e as fortificações — tem características muito próprias e merecia ser melhor explicado ao público. Um centro interpretativo poderia funcionar como uma espécie de museu que ajudasse a compreender a importância desse sistema defensivo.

A opção foi outra.

Bom, quando a Casa das Fardas foi colocada a concurso no programa Revive, o paiol acabou por ser incluído no mesmo projeto. Não vemos muito bem que utilização poderá ter aquele espaço, até porque se trata de um edifício com características muito específicas. Não se podem simplesmente abrir janelas num paiol sem o descaracterizar completamente. Por isso, estamos a aguardar para perceber melhor que projeto será apresentado.

Na sua opinião, projetos turísticos deste tipo podem contribuir para valorizar o património ou existe o risco de descaracterização dos edifícios históricos?

Penso que, quando são bem feitos, estes projetos podem ser muito positivos. Temos em Estremoz um bom exemplo disso: a adaptação do castelo a pousada. Foi um projeto de qualidade que contribuiu para preservar o castelo e valorizar aquele espaço. Mostra que, quando existe cuidado e qualidade na intervenção, é possível conciliar utilização turística e conservação patrimonial. Portanto, não tenho nada contra este tipo de soluções. No entanto, também há casos em que isso não acontece. Um exemplo é a recuperação da Casa do Alcaide-Mor. Uma das críticas que fizemos foi precisamente a forma como a intervenção foi realizada. A conservação do património não pode limitar-se a preservar a fachada.

O que sucedeu?

No caso da Casa do Alcaide-Mor, o que aconteceu foi que o edifício foi praticamente demolido e depois reconstruído com uma estrutura de betão, onde encaixaram alguns elementos de mármore que eram mais visíveis e característicos. Mas o património não é apenas a aparência exterior. Também são os métodos construtivos, os materiais e as técnicas utilizadas. A Casa do Alcaide-Mor era uma estrutura medieval construída em pedra e argamassa. Não vejo razão para que não se tivesse preservado, tanto quanto possível, essa lógica construtiva original. Nesse caso, parece-me que houve mais uma reconstrução estética do que um verdadeiro trabalho de conservação.

Relativamente ao centro histórico de Estremoz, que enfrenta problemas de desertificação e degradação de alguns edifícios, que medidas considera prioritárias para revitalizar essa zona da cidade?

A revitalização do centro histórico não se resolve apenas com intervenções superficiais. Por exemplo, no bairro de Santiago há problemas profundos que precisam de ser enfrentados. Não basta pintar fachadas ou dar uma nova imagem estética à zona. Isso pode até ser positivo do ponto de vista turístico, mas não resolve o problema principal. O verdadeiro problema são as condições de vida das pessoas que ali habitam. Muitas casas estão em muito mau estado e algumas chegam mesmo a ruir. Ainda há pouco tempo caiu uma casa na Rua Direita. Além disso, há outras dificuldades. No bairro de Santiago praticamente não existe comércio e os moradores têm dificuldade em deslocar-se para fazer compras. Também não existem transportes públicos adequados para ligar essa zona ao resto da cidade. Portanto, estamos perante um conjunto de problemas sociais e urbanos que vão muito para além de uma simples operação de cosmética urbana.

O Grupo Cidade tem alguma estratégia para mobilizar mais cidadãos na defesa do património?

Todos os anos elaboramos um plano de atividades com várias iniciativas nesse sentido. Uma parte importante do nosso trabalho passa por alertar a população para os problemas relacionados com o património. Organizamos visitas guiadas, quase mensalmente promovemos conferências sobre temas ligados ao património e procuramos também desenvolver projetos de investigação. Neste momento estamos igualmente a procurar estabelecer parcerias com a Câmara para divulgar melhor o património da cidade, nomeadamente no âmbito das comemorações do centenário da elevação de Estremoz a cidade. Dar a conhecer o património é o primeiro passo para o defender.

Pode dizer-se que essa é uma das prioridades do seu mandato?

Sim. O objetivo principal da associação é precisamente esse: dar a conhecer o património aos cidadãos e também aos visitantes. Todas as nossas atividades têm esse propósito. Vamos continuar com as conferências, as visitas guiadas e também com projetos de investigação. No ano passado publicámos o primeiro volume de um levantamento sobre o património azulejar de Estremoz, que é extraordinariamente rico. Este ano será publicado o segundo volume desse trabalho, dedicado aos conventos e congregações religiosas da cidade, que possuem um património artístico muito relevante. A ideia é sempre a mesma: quanto mais as pessoas conhecerem o património que têm, mais capacidade terão para exigir a sua preservação.

Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos estremocenses sobre a importância de defender o património da cidade?

Gostaria que os estremocenses tivessem plena consciência do património extraordinário que possuem. Estremoz tem um património riquíssimo e muitas vezes as próprias pessoas não se apercebem da sua importância. O nosso trabalho passa precisamente por isso: dar a conhecer esse património para que os cidadãos percebam o verdadeiro tesouro que têm nas mãos e sintam também a responsabilidade de o proteger e valorizar.

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