«O segredo é a alma do negócio». Os serões das flores em Campo Maior

Os serões em Campo Maior têm sido passados a criar flores de papel, pelas habilidosas mãos de dezenas de mulheres, espalhadas por diversas casas, e até uma antiga padaria do falecido empresário Rui Nabeiro acolhe a produção, a preparar o regresso das Festas do Povo, entre 8 e 16 de agosto.

Hugo Teixeira/Lusa (texto) e Nuno Veiga/Lusa (fotografia)

Esta fábrica de flores, que conta com mais de quatro mil moradores voluntários envolvidos, prepara as Festas do Povo de Campo Maior, que estarão de regresso este ano, entre os dias 8 e 16 de agosto.

As festividades são conhecidas por apresentarem dezenas de ruas da vila engalanadas com milhares de flores de papel, feitas à mão pela população, enchendo de cor a localidade junto à raia com Espanha.

Realizadas por vontade popular, as festas decorreram pela última vez em 2015, tendo sido reconhecidas, em 2021, como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Para a edição agendada para 2026, uma antiga padaria que pertenceu ao empresário Rui Nabeiro (1931-2023), natural de Campo Maior, acolhe todas as noites, desde o início do ano, mulheres pertencentes a duas ruas, que se reúnem para produzir flores.

Mas sem misturas, ou seja, com o espaço dividido em dois, para não haver divulgação entre o grupo de cada rua dos temas que vão abordar, pois «o segredo é a alma do negócio».

Entre o corte de um papel e uma tesourada numa cartolina, sem um minuto a perder, Filomena Correia, de 68 anos, lamenta nesta altura a falta de mão-de-obra, mas acima de tudo o desinteresse das novas gerações em aprenderem esta arte.

«A rua tem muita gente que podia estar aqui a fazer [flores de papel] e tem sido pouca gente. É pena, porque a festa é de todos, não é? E era para estar aqui mais gente e não está», argumenta.

Já Maria José Silveira, que é cabeça de rua (uma espécie de capitão de equipa), recorda que há 60 anos que produz flores e insiste na falta de mão-de-obra, apesar da ajuda do Município e da Associação das Festas do Povo de Campo Maior, promotora do evento, para a realização da iniciativa.

«Não sei se, daqui por uns anos», as festas vão continuar, deixa em aberto, acrescentando: «Com muita pena minha, que sempre gostei muito, mas não sei se isto não está com tendência a acabar, porque é uma grande responsabilidade».

Do que depender da sua filha, Ana Silveira, não há dúvida de que a tradição é para manter, embora lamente a falta de «capacidade de sacrifício» de alguns habitantes, como dos jovens.

Ana Silveira realça a dificuldade em convencer os mais novos a colaborar, principalmente aqueles que «nunca viveram numa rua que foi enfeitada» e que não querem abdicar da vida pessoal em proveito de um trabalho com base no voluntariado.

Na sala ao lado na antiga padaria, Fátima Vitorino, também ela cabeça de rua, destaca a responsabilidade resultante da classificação pela Unesco, considerando que a distinção surgiu com aquilo que é «a essência» de Campo Maior, nomeadamente «o trabalho voluntário de todo um povo».

«Passamos aqui dias inteiros, noites, e é uma grande responsabilidade este ano demonstrar aquilo que é a essência de Campo Maior, o que é a força dos campomaiorenses e que sim, que conseguimos pôr de pé 100 ruas» enfeitadas de flores, vinca.

Na parte histórica da vila, zona onde as festas tiveram início, o serão é igualmente atarefado. E não falta animação, com as voluntárias a cantarem as «saias» de Campo Maior, música tradicional da região, acompanhada por uma pandeireta.

«Cantamos de vez em quando, as que sabem cantar, é claro. Temos o nosso lanchezinho perto das 23h00, as nossas limonadas, os licores, bolos, arroz doce. Temos tido muitos miminhos durante o serão», conta Ana Juromento, de 76 anos.

Mas nem só as mulheres constroem as Festas do Povo. Os homens têm um papel importante na produção de materiais mais pesados, nos adereços e na noite da enramação, ou seja, na colocação dos adereços e flores na rua, na véspera do início dos festejos.

José Manuel é um desses muitos voluntários, apesar de reconhecer que, mesmo com a ajuda dos homens, são as senhoras que mandam no acabamento das ruas. «A nossa [função] será a parte da estrutura em si da rua, das entradas, mas a beleza final é das senhoras. As senhoras é que vão dar o toque final da rua», diz.

Enquanto as festas não começam, o trabalho é diário e árduo, não há tempo a perder. E, em cada casa, o espaço já escasseia. Por todo o lado, estão armazenadas milhares de flores de papel e adereços que prometem, novamente, «fazer florir» mais de 100 ruas de Campo Maior, em agosto.

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