«É um tumor». Primeiro estranhei a notícia. Depois veio a palavra cancro à cabeça, e tudo piorou. O peso da palavra é substantivamente maior, ainda que sejam uma só coisa. Logo comecei a desfiar a argumentação médica para o que há de vir. Diagnóstico, perspetivas, biópsia, cirurgia, tratamentos, tudo a encavalitar-se em velocidade estonteante, irrefreável, e o tumor ocupa o espaço empurrando para o lado tudo o resto: trabalho, contas, o vizinho barulhento, mais um empate do Benfica, o empregado carrancudo ou o café frio, passa a ser tudo igual e esquecível. E chega um vazio inerte, inelutável, que não sei escrever.
Como aprendi com quem lida de perto com «isto», eu não combato ou venço um cancro, essa é uma mera tentativa ilusória de comando. O sacana veio mais manso do que uma perdiz, mas voou muito mais alto até onde nem imaginamos. Em silêncio, de fininho, como um adolescente ébrio a entrar de madrugada às escondidas, o cancro castigou-me sem ninguém dar conta, instalou-se, e cresceu até que as análises de rotina puseram a boca no trombone.
A bomba da notícia ainda anda a deixar estilhaços num raio vasto, derrubou-me meia dúzia de vezes e fez-me perder, não no sentido bélico da relação, mas o lado racional que é fundamental para tratarmos do futuro, juntos: eu, «ele», os médicos, a minha mulher, a minha família e os meus amigos. Se, por um lado, decidi ir ao cemitério fazer não sei bem o quê, em meia hora de silêncio desabafado, em frente à campa do meu pai, por outro abracei os meus enteados com a certeza premente de que a travessia tem de ser feita com amor. Não pode ser de outra forma. E eu, que pouco me dou a esoterismos e mindsets, deixei entrar amor às carradas, tão fortes que chego a julgar duvidoso o seu merecimento.
O cancro não se conta a toda a gente, pensei, e não é por vergonha, antes porque simplesmente não soube lidar com a informação durante demasiados dias. Sem consciência, fechei-me num egoísmo estranho que nunca tive antes, uma espécie de clausura apenas partilhável com a minha mulher, para depois passar a proteger os outros, todos os que não têm cancro e gostam de mim. É como se preocupar-me comigo fosse coisa secundária. E lá chegava a noite (sempre a noite!) a deitar gasolina para a fogueira. Preferi quase sempre chorar às escondidas, a revolta superior às dores, o medo na conta certa do desconhecido, e quando claudiquei foi para ter colo e para me suportar nas horas capituladas do desespero.
Ainda assim, com a arrogância de achar que sou preciso, sei que ando a ser valente; sinto-o quando o corpo me anda mais fraco, e eu tento mais uma e outra vez contrariar a tendência. Às dores dou-lhes o abraço da Vanda, que tudo serena, e elas adormecem. Às da alma ofereço o que escrevo e crio, como esta crónica, as visitas dos amigos, os jantares no terraço, os passeios esforçados pela minha linda vila regressando a casa.
Os vieses da doença desarmam qualquer um num par de dias; quando acordo numa cama de hospital sem um bocado físico que desconjuntou o puzzle que era o meu corpo, percebo que nasce a dor imensa da tangibilidade. É difícil chocar de frente com ela ainda antes dos 50. Não é natural, é uma bizarria sem cabimento. Sou tão vulnerável, pensei a dada altura enquanto ouvia o meu vizinho do lado gemendo de dor; tão vulnerável quanto a perdiz que não se apercebe do caçador matreiro atrás da moita. É duro, não temos armas de peso, são desiguais; somos sempre a perdiz que não consegue levantar voo.
A biópsia veio confirmar a gravidade. Apesar disso, a cirurgia correu bem. Os tratamentos começam em breve. O que vejo lá à frente é esperança, ignorante, esparvoada de tão infantil que pode ser, mas põe-me um sorriso e, para já, isso basta-me. Os meus estão por perto, e ando a aproveitar a baixa para resoluções de vida. Dizem que ajuda em tempos adversos. Curioso como me arrumo por estes dias. E fico feliz com as pequenas decisões. E volta a bastar-me. E quando o cérebro se complica, penso qualquer coisa como isto: importante é, daqui por um ano de tratamentos, contar-vos todos os passos em frente que dei no cancro e na vida, com roupas leves de linho e um chapéu Borsalino, ao género Bogart, que eu ando a adiar na minha vida. É o tempo.










