Olinda Gil: «Jacarandás em flor»

Crónica que precisou de ser publicada antes que os jacarandás perdessem a flor.

Olinda Pina Gil, escritora (texto)

Para mim os jacarandás são Lisboa, são passado. Na esplanada da minha faculdade havia jacarandás dos quais nos sentávamos à sombra. A sua flor era sinal da aproximação da época de exames, mas tudo parecia mais fácil no segundo semestre. Talvez fosse a primavera, os dias maiores e mais quentes, os passeios que dávamos até à Baixa e à Gulbenkian que compensavam as horas de estudo, que agora não eram apenas encerradas num quarto de estudante, ou na biblioteca, eram também na rua, nos jardins, nas esplanadas, o som do trânsito misturado com o dos pássaros que nos animava. Os jacarandás coloriam a cidade por todos os cantos, alegravam as ruas, pintavam os parques e os jardins.

Agora os jacarandás estão por todo o lado na vila. Saí de casa com a minha filha e fomos fotografá-los, juntar uma ação ao passeio, para que ela não os esquecesse. Quando é que os plantaram que eu nem dei por isso? Tenho um bocado a mania das árvores, sei na vila onde estão os limoeiros escondidos entre as laranjeiras, onde se encontram as nespereiras, as amendoeiras, os medronheiros e ainda há pouco tempo tinha descoberto as alfarrobeiras. Na escola há um sobreiro, pinheiros-mansos, as amoreiras na ermida, sempre com poucas folhas porque são alimento dos bichos-da-seda de inúmeras crianças.

Os jacarandás são armadilha de beleza e satisfação. Devem ter andado pequenos e tímidos durante anos e eu nem dei por eles, ou nem lhes dei importância, e este ano, talvez porque foi de muita chuva, e foram bem regados, estão enormes e exuberantes, sendo impossível não lhes dar atenção. Os jacarandás que foram meus em Lisboa estão agora no Alentejo.

Os jacarandás eram de Lisboa quando eu também era da cidade. Uma cidade que já não existe, em que não podes apreciar sozinho um poente nas Portas do Sol. Esta constatação fez-me sentir velha, porque aquilo que foi nosso e já não nos pertence ficou no passado. E Lisboa afasta-se cada vez mais de mim. São os turistas, as ruas cujo trânsito muda de sentido, agora os jacarandás que têm vindo a desaparecer.

As memórias da juventude têm um lugar sagrado, que não queremos ver conspurcado, como reduto de tempos áureos, símbolos que não queremos ver destruídos. Que Lisboa é esta que não conheço? Sem jacarandás na primavera? Talvez venha a duvidar que as minhas memórias sejam reais, por falta de pontos de referência. Não estou resiliente, não quero a mudança, já perdi a cidade, agora perco os jacarandás…

Depois descubro que eles me seguiram, mudaram de lugar.

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