Onde José Saramago viu labaredas na pedra e cigarras que não voavam

Na segunda paragem a propósito dos 45 anos da primeira edição de «Viagem a Portugal», chegamos a Évora-Monte. José Saramago não ficou desapontado — antes intrigado com umas labaredas esculpidas em pedra e espantado «de que nogueira e cigarras não levantassem voo e se lançassem pelos céus fora, cantando».

Luís Godinho (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Cumprida a jornada em Estremoz, José Saramago dirige-se a Évora-Monte, vila que cabe num relance mas guarda séculos de história densa. «Está perto e vem a propósito». Desde logo, por ter sido aí que D. Miguel se rendeu ao irmão D. Pedro, «como na escola se aprende», pondo fim à guerra civil entre absolutistas e liberais que assolou o país entre julho de 1832 — aquando do desembarque das tropas liberais próximo do Porto — e maio de 1834.

Com foral desde 1248 e antiga sede de concelho, Évora-Monte seria assim paragem obrigatória para Saramago na sua «Viagem a Portugal», livro escrito por encomenda do Círculo de Leitores cuja primeira edição ocorreu há 45 anos.

Ao olhar do viajante não escapou um pormenor: «Em vez de ser negociada a paz, no ambiente militar, à primeira vista adequado, do castelo e do seu Paço de Homenagem, foi numa casita térrea, ao entrar da porta maior das muralhas, que se reuniram os duques da Terceira e Saldanha, do lado dos liberais, e o general Azevedo Lemos, comandante dos absolutistas, sob o benevolente olhar e opinião de John Grant, secretário da Legação Britânica em Lisboa». Afinal de contas, «os amigos, como se costuma dizer, são para as ocasiões».

À data, o Paço encontrava-se «restaurado de cima a baixo», com o pitoresco dos trabalhos finais a ficar registado na prosa daquele que, sete anos depois, seria distinguido com o Nobel da Literatura: «Três guardas republicanos, que lá fora têm o jipe em que vieram, abrem roços na parede para meter instalação elétrica, enquanto trocam graças e valentemente assobiam. Deixá-los, é da idade, a mocidade é assim.»

No monumento, propriamente dito, reconhece José Saramago alguma «inspiração italiana», com um corpo central de formato quadrado e esquinas com cubelos circulares. «Dentro» — assinala — «o efeito é magnífico, com grossas colunas sustentando as abóbadas dos três andares, todas diferentes, tanto as abóbadas como as colunas, e as salas comunicando abertamente com os cubelos. O ambiente é, realmente, renascentista, próprio para reuniões e festas de estilo.»

Reparou no pormenor das labaredas, a que já iremos. Mas por não o ter sabido, ou por não lhe ter interessado, não referiu que ali se refugiou D. Jaime, 4.º duque de Bragança, em 1512, depois de ter assassinado a sua primeira mulher, D. Leonor de Mendoza, a golpes de punhal, no Paço Ducal de Vila Viçosa.

O motivo alegado foi a suspeita de adultério, nunca comprovada. O episódio foi registado por cronistas como Damião de Góis e Garcia de Resende, que o mencionam com contenção, e que séculos depois inspiraria o poeta brasileiro Gonçalves Dias a escrever «Leonor de Mendonça», uma peça de teatro em três atos.

Reza a história que D. Jaime, o primeiro de seu nome, casara com a filha do duque de Medina Sidónia em 1502, num matrimónio acertado por conveniências políticas, como era usual à época. Dez anos depois, «induzido por falsas aparências» — ou interessado em ver-se livre da mulher —, apanhou-a na companhia de um jovem escudeiro. «Mar de sangue correrá entre ambos», gritou o duque na peça do escritor brasileiro, que não por acaso apelida o jovem escudeiro de Alcoforado.

Deste caso, Saramago nada diz. Mas, enquanto os guardas «falam de fitas que viram ou estão para ver», repara nas labaredas esculpidas na base das colunas do piso térreo. «Labaredas, porquê? Que lume era este, ateado na pedra, em Évora-Monte?»

Tenta visitar a igreja matriz, que se encontra fechada, o mesmo sucedendo com a de São Pedro, reconstruída na segunda metade do século XVI depois de o primitivo templo ter sido destruído pelo terramoto de 1531. Não entrou em São Pedro, apesar dos esforços. «Ausentara-se a mulher da chave, seis cães, pacíficos, guardavam-lhe o monte, e apesar de o viajante ter esperado mais do que a conta, falando aos cães e bocejando com eles, chave não apareceu.» Não pôde assim percorrer as três naves da igreja, «espaço austero que conjuga a escassez de iluminação com um vocabulário estilístico em que impera a ausência de decoração, limitada a diminutos apontamentos vegetalistas nas arestas chanfradas dos pilares», segundo a descrição dos técnicos do Património Cultural.

Passou José Saramago pelo antigo edifício da Câmara de Évora-Monte — o concelho foi extinto em 1855, duas décadas depois da assinatura da Convenção — sem que lhe despertasse interesse de maior, ao contrário da nogueira por trás da igreja matriz, «onde cantavam vinte ou trinta cigarras ao mesmo tempo, de tal maneira que se ouvia apenas um único som, e não o zangarreio alternado do costume». E registou o viajante o seu espanto «de que nogueira e cigarras não levantassem voo e se lançassem pelos céus fora, cantando. À nogueira, pelo menos, muito houve de custar-lhe segurar as raízes».

O jornalista Luís Godinho e o fotógrafo Cabrita Nascimento percorrem os roteiros de José Saramago no Alentejo, 45 anos depois da publicação de «Viagem a Portugal». Citações de Saramago retiradas da 28.ª edição, Porto Editora, dezembro de 2022

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