Um imigrante senegalês ouvido pelo coletivo de juízes alegou que recebia 35 euros se trabalhasse oito horas por dia, mas, se não trabalhasse, por exemplo devido às más condições climatéricas, não recebia nada. Ao final do mês, o seu ordenado rondava os 500 euros.
Na segunda sessão do julgamento de 22 pessoas e 12 empresas por alegada exploração de trabalhadores imigrantes no Alentejo, que começou esta manhã e foi retomada no período da tarde, foram ouvidas as primeiras testemunhas do processo.
Entre elas dois militares da GNR do Posto Territorial de Cuba, segundo os quais, antes da operação da PJ, quando os imigrantes viviam na vila, duas vítimas foram despejadas da casa onde viviam.
Um dos militares disse ainda que havia imigrantes a viver em condições desumanas e precárias e que alguns até apareceram no posto da GNR a queixarem-se com fome e a pedir comida, tendo a Guarda identificado depois a casa onde moravam como estando sobrelotada e com condições miseráveis.
Inspetores da Polícia Judiciária relataram, por sua vez, que efetuaram vigilâncias a deslocações de imigrantes no âmbito da “Operação Espelho” e fizeram uma busca a uma casa de trabalhadores em Serpa sem condições de habitabilidade.
A verificação dos roteiros de transporte de trabalhadores, das horas de partida e chegada às casas onde ficavam alojados, as viaturas em que eram transportados e quem as conduzia foram alguns dos fatores que os inspetores observaram. Cuba, Faro do Alentejo, localidade daquele concelho, e Serpa foram algumas das povoações alvo das vigilâncias.
Os dois inspetores participaram, já depois da “Operação Espelho”, mas no âmbito do mesmo inquérito, meses depois, numa busca a uma residência de trabalhadores estrangeiros em Serpa, em que referiram ter encontrado 10 a 12 imigrantes.
Segundo indicaram, estes trabalhadores teriam chegado “há pouco tempo ao Alentejo”, sendo que até haveria mais gente a residir na casa: “Quando chegámos, havia camas que já não estavam ocupadas e o que nos disseram é que já tinham saído para os campos”.
A casa apresentava “más condições” e todas as divisões, com exceção da cozinha e das duas casas de banho, estavam “adaptadas a quartos”, com “colchões no chão, beliches, azulejos partidos, janelas com vidros partidos”, disse um dos elementos da PJ. “Isolamento não havia, a casa estava muito suja, com condições abaixo do mínimo aceitável”, acrescentou.
O outro inspetor relatou um cenário idêntico, numa casa “com colchões no chão, não muito asseada, casas de banho bastante sujas”.
Neste processo, cujo julgamento começou na passada segunda-feira, quase todos os arguidos singulares respondem por 16 crimes de tráfico de pessoas – um deles está pronunciado por 19 -, um de associação criminosa, um de auxílio à imigração ilegal, outro de associação de auxílio à imigração ilegal e um de branqueamento de capitais.
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: Arquivo/D.R.











