Os Magano e o Alentejo que transportam, de Safara a Almada

São três. Outros se juntaram «A Caminho de Casa». Os Magano trazem Safara no coração e a lembrança dos avós, da mesa familiar onde se cantavam as modas que inspiraram Sofia, Nuno e Francisco a criarem uma banda que vem com muito mais do que música. Trazem a história da sua família, e a de tantas outras. Alentejo puro.

Carlos Leitão (texto)

O João e a Rosa saíram de Safara rumo a Almada. Este é um início de história comum a tantos casais que procuraram na cidade o que a aldeia não tinha para dar. Neste caso, o João — que cantava, e bem, no grupo coral de Safara — deu as mãos à Rosa e construíram uma família.

Com a sabedoria do tempo, os netos Nuno e Sofia Ramos trataram de imortalizar as memórias das modas cantadas em família, e em 2018 criaram os Magano. «Eu sou a mais nova da geração da minha família. As minhas memórias são mais curtas do que as do meu irmão ou da minha prima. Certamente a gastronomia é algo que ficou assimilado. Aprendi com a minha avó a fazer gaspacho à moda dela e é algo de que me orgulho muito. O cante, de uma forma muito urbana, também ficou assimilado. O meu avô cantava no grupo coral, e quando existiam convívios familiares lembro-me de estarmos à mesa a cantar modas. E o pão. O pão alentejano. Devo ter um pouco de pão alentejano a correr-me nas veias».

Sofia Ramos fala sempre apaixonadamente do avô João e de como a apetência para as modas se entranhou nos netos. Francisco Brito, o seu namorado, completa o trio de maganos. Sem raízes a sul, cedo se encantou pela música alentejana, e Sofia garante a isenção no que toca ao trabalho: «Damo-nos muito bem os três. Eu e o meu irmão temos uma conexão natural a cantar, não precisamos de pensar onde o outro vai respirar. O Francisco é um músico bestial e tem um gosto gigante pelo repertório tradicional, talvez porque normalmente vem de um lugar de poucas pretensões. Quando estamos a tocar não somos namorados, isso não vem para a banda. Fazer isto em família tem sempre riscos, mas sabemos tirar o melhor proveito da nossa relação».

O novo disco «A Caminho de Casa» resulta das viagens entre Safara e Almada; Francisco, Nuno e Sofia convocaram amigos e convidados como João e Joana Espadinha, Edumundo, André Santos e André Sousa Machado, entre outros, e fizeram um disco sério, absolutamente enternecedor.

«Somos uma banda que se inspira no Alentejo para fazer música. Não sei se somos pop ou tradicional. Fazemos música de que gostamos e temos esse ponto de partida: o Alentejo, a família e Almada. Almada é a terra para onde os meus avós foram em busca de uma vida melhor e onde o resto da família permaneceu. Nós fazemos arranjos para modas tradicionais, mas também temos temas originais. É ingrato rotular tipos de música, parece-me limitador. Somos uma banda de música honesta. Procuramos ser originais e fugir de fórmulas musicais — é-nos natural —, e fazer música que nos satisfaça e em que acreditamos».

Num tempo marcado pela velocidade e também pela efemeridade dos acontecimentos, a música tem a rara virtude de nos fazer abrandar. Escutar, mais do que ouvir, e entender as suas mensagens torna-se, assim, cada vez mais importante.

A polémica de Israel no Festival da Canção é um exemplo disso: «Se, por exemplo, ignorarmos a realidade política do Alentejo estamos a ignorar a sua história. A política tem peso na história da minha família. Se a vida fosse boa no Alentejo, o meu avô não teria ido trabalhar para a Lisnave. Isto é política sem ser campanha política. Qualquer pessoa que estude História ou História de Arte vai perceber que nada é feito sem contexto. O Teatro do Absurdo surge no pós-Segunda Guerra Mundial porque depois de tanta destruição as pessoas estavam sem rumo».

Diz Sofia Ramos que «a arte é um espelho da vida e dos tempos. Para mim é estranho que um artista não tenha a necessidade de purgar os males do nosso tempo — e são muitos —, mas também acho que não tem de ser uma regra. Há pessoas que conseguem desligar e viver o seu mundo, sem referência ao que se está a passar, e isso também é legítimo. No final, acho que não se devem usar causas para proveito próprio, porque isso as desvaloriza».

Os Magano têm consigo a segurança da falibilidade, e isso faz com que não sucumbam às múltiplas tendências que por aí pululam. A sua música vem de uma raiz demasiado forte.

Como já foi dito, o facto de os alicerces familiares serem inquebráveis leva a que tudo se edifique apenas com amor genuíno à música e à criação: «A minha filha sabe quem são os avós que ela nunca conheceu, porque lhes falo deles com muita naturalidade. A avó Rosa está nas ‘nuvens’ que andam no ar, como diz a moda. Sempre ouvi muitas histórias dos antepassados da minha família e as raízes sempre foram muito lembradas. Eu acredito que temos de sentir que pertencemos a algum lugar — isso dá-nos o norte para correr o mundo sem nos sentirmos sozinhos. Gosto também de acreditar que as recordações e as ligações às nossas raízes são uma forma de manter os nossos antepassados vivos e de os honrar». 

Assim sendo, Sofia, o que acharia o avô João da música dos Magano? «Espero que ficasse orgulhoso. A minha avó ficou, e era uma mulher rígida nos afetos. Mesmo que ele não gostasse da música, espero que percebesse que isto é a nossa maneira de manter a memória dos nossos avós viva».

Sofia, Nuno e Francisco fazem o caminho bem feito, são unidos nas pretensões de fazer boa música para que os mais velhos se orgulhem e os mais novos a descubram. A ideia não é romper com nada, muito menos beliscar o fenómeno fulminante de artistas que chegam pela porta do cante: «Sei que no Alentejo tem sido feito trabalho de partilha e educação do cante. Fora dele, sinto que estas novas bandas têm o alcance que o cante nunca vai ter. Se é uma forma de as pessoas contactarem com o cante? É. Se a linguagem e os termos usados estão certos? Creio que não. E isso pode ser um caminho que leva à extinção do género original».

Quanto aos Magano, a receita é simples: «Nós só queremos fazer música em conjunto porque é algo que nos dá prazer e preenche. Gostávamos de tocar mais e chegar a mais pessoas. O nosso objetivo é continuarmos vivos a tocar em conjunto. Acho que atingimos várias faixas etárias. As crianças divertem-se com as nossas músicas. Os adultos relacionam-se muitas vezes com as histórias das canções, e os mais velhos sentem-se vistos».

Deste Alentejo do século XXI, guardam-se as viagens físicas e emocionais, e mesmo que Almada já não tenha a lonjura de anos idos, a distância existe: «Nunca vivemos no Alentejo. Não temos termo de comparação nem propriedade para perceber a diferença. Aquilo que vemos na aldeia dos nossos avós, Safara, é que continua tudo um bocado deserto. Ainda assim sinto que há malta mais nova a continuar na aldeia e arredores em vez de sair para a cidade». Talvez tenha de haver a lonjura e a saudade, fazer a estrada para as Festas de Santa Ana, ir com tempo para se saber o seu devido valor, à mesa de sempre de quando chegamos. Talvez seja isso estar «A Caminho de Casa».

Sofia Ramos responde a uma última pergunta: qual seria o ato mais arrojado — musicalmente falando — que os Magano poderiam fazer? A resposta é comovente e reveladora: «Gostava que gravássemos uma música com a Banda Filarmónica de Safara».

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