«Vai ser um bocadinho mais de uma hora e tal. Vai ser um dia inteiro na estrada a fazer pequenos showcases, a tirar fotos com as pessoas, a partilhar histórias e a conversar um bocadinho também», disse David Mendonça, um dos elementos do grupo, em entrevista dos quatro Vizinhos.
A ideia foi recriarem a viagem entre Lisboa, «que é grande», e o Alentejo, «que ainda é maior», cantada em Pôr do Sol, um dos nove temas do álbum de estreia da banda. O percurso, num autocarro que será também palco, começa em Évora, cidade onde a banda nasceu, na Praça do Giraldo, às 10h00, e termina em Lisboa às 18h30, junto à entrada principal do Campo Pequeno.
Pelo caminho, a banda fará paragens em Montemor-o-Novo, em frente ao Cineteatro Curvo Semedo, às 12h00, e em Vendas Novas, junto ao Mercado Municipal, às 13h30. «Vai ser uma festa, porque os Vizinhos são uma festa e em todo o sítio onde vamos tentamos passar essa energia», prometeu David Mendonça.
A música na origem deste percurso, Pôr do Sol, conta com milhões de visualizações e audições nas várias plataformas digitais, e valeu aos Vizinhos o prémio de Canção do Ano da edição de 2026 dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa, a única categoria cujo vencedor é escolhido pelo público.
Antes de Pôr do Sol, David Mendonça, Francisco Cartaxo, Miguel Brites e Tomás Cartaxo, com idades entre os 21 e os 26 anos, eram apenas quatro amigos que a vida tinha juntado no Grupo Académico Seistetos da Universidade de Évora e que tinham decidido criar uma banda. Há pouco mais de um ano divulgaram a música, escrita em setembro de 2024 «num jantar boémio», e que em pouco tempo «começou a explodir em todo o lado», recordou Francisco Cartaxo.
David Mendonça acredita que o sucesso da banda, impulsionado por Pôr do Sol e depois com Pobre ex-Namorado e Casar é pra Esquecer, se deve muito à «verdade e sinceridade» que mostram às pessoas, sobretudo nos vídeos que vão partilhando nas redes sociais. Em 8 de dezembro de 2024, os Vizinhos partilharam o vídeo «Dia 01 a começar uma banda do zero até ao Coliseu». Desde então, todos os domingos publicam um novo vídeo — em 3 de maio deste ano saiu o do dia 74. «Tem sido um processo sincero, verdadeiro, e também tem sido um processo rápido», considerou David Mendonça.
O objetivo final — a chegada ao Coliseu — foi anunciado em novembro passado e concretiza-se nos dias 21 e 28 de novembro deste ano, nos Coliseus de Lisboa e do Porto, respetivamente. Subir a palco era algo a que já estavam habituados no Grupo Académico Seistetos, embora agora sintam «mais o peso da responsabilidade», salientou Miguel Brites. A maior diferença é que passaram «do palco da terrinha para os grandes palcos e os grandes festivais», juntou David Mendonça.
No caminho até aos grandes palcos, os Vizinhos destacam a importância de outros músicos alentejanos, como João Direitinho, dos Átoa — também o manager do grupo —, Luís Trigacheiro e Buba Espinho, representantes de uma nova geração que tem dado um cunho contemporâneo ao tradicional cante alentejano. Embora não sejam um grupo de cante, este género faz parte da história dos Vizinhos desde o Grupo Académico Seistetos.
«Todo o elemento que entra para esse grupo tem de aprender minimamente a cantar uma moda, como se diz lá no Alentejo, e o cante faz parte das nossas raízes», contou Francisco Cartaxo. O cante está presente nas canções dos Vizinhos nas harmonias, «mas não no estilo de música». «O nosso estilo pode ser considerado um estilo novo em Portugal, que é o pop alentejano», disse.
Bandolim, acordeão, baixo e guitarra são os instrumentos que fazem as músicas da banda, criadas com inspiração em grupos como Os Quatro e Meia — também criados em contexto académico, mas em Coimbra —, os Atitude 67, convidados no álbum, e o Grupo Menos é Mais, dois grupos brasileiros de pagode.
O «pop alentejano» tem conquistado várias gerações, e foi sobretudo nos concertos que a banda ganhou essa noção, ao ver na plateia netos com avós, filhos com pais. «Foi também um dos nossos objetivos desde o início, fazer música para toda a gente», disse Tomás Cartaxo.
Com apenas nove temas originais, o alinhamento dos concertos dos Vizinhos inclui também modas alentejanas, músicas do Grupo Académico Seistetos — nomeadamente as que gravaram em 2024 com os Átoa — e um tema de Os Quatro e Meia, homenagem que fazem «desde o início da banda».
Para os espetáculos nos Coliseus, não há nada preparado, mas há «muitas ideias» e a vontade de «dar tudo às pessoas». «Porque o sonho dos Vizinhos sempre foi ir até ao Coliseu», lembrou David Mendonça. A única certeza é que poderão «dar o fim à série de vídeos de começar uma banda de zero até encher o Coliseu». «Porque estamos a ver os números [de vendas de bilhetes] e está a correr muito bem», confidenciou Tomás Cartaxo.
O que virá depois também não sabem, mas Miguel Brites propõe que se inicie nova série, agora até chegarem a salas maiores ou ao estádio do Sporting, equipa pela qual os quatro torcem. Com pouco mais de um ano de carreira e muitos sonhos ainda por concretizar, os quatro amigos acreditam que daqui a 20 ou 30 anos continuarão a ser os Vizinhos — talvez com menos sucesso, mas isso só o tempo dirá.
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: Tiago Petinga/Lusa












