O cânhamo que une palestinianos e israelitas no Baixo Alentejo

Uma empresa formada por palestinianos e israelitas já construiu duas fábricas no Baixo Alentejo para produzir blocos de cânhamo. A ideia é explorar o potencial da planta como matéria-prima, contribuindo para a descarbonização da construção civil. Júlia Serrão (texto)

A fábrica-piloto instalada em Colos, concelho de Odemira, começou a fabricar os primeiros ecoblocos em novembro de 2021, que depois de certificados começaram a impor-se como alternativa sustentável aos materiais usados na construção convencional. A Cânhamor, empresa detentora do fabrico, tem como objetivo contribuir para descarbonização do sector da construção e do ciclo de vida dos edifícios.

Muito mais leve que o cimento, com diferentes espessuras, os ecoblocos podem ser aplicados “tanto em construções novas como em projetos de reabilitação, atuando como soluções de isolamentos ou complemento de paredes existentes”, explica Frederico Barreiro, diretor comercial da empresa, sublinhando tratar-se da primeira fábrica na Península Ibérica “dedicada à produção de blocos de cânhamo para construção e também a primeira no mundo a integrar todo o processo, desde o tratamento do cânhamo até à produção dos blocos”.

A marca está presente na Península Ibérica, “com obras e clientes em Portugal e Espanha”. Mas outros países estão a “prestar atenção” ao trabalho e às “vantagens dos blocos” ecológicos, que têm como matéria-prima o cânhamo, demonstrando “o potencial internacional” deste recurso, “e uma crescente sensibilização para soluções construtivas mais sustentáveis”.

Frederico Barreiro fala de “uma aceitação crescente desta solução”, notando que também as leis e regulamentos, que estão a ser implementadas no sector da construção, “acabam por obrigar arquitetos, engenheiros e construtores a procurarem alternativas mais eficientes e sustentáveis”, sendo que os ecoblocos respondem a essa necessidade. Mais do que um bloco, trata-se de “uma solução de parede completa que se sustenta em três pilares fundamentais: performance, economia e sustentabilidade”.

O empresário garante que esta solução permite uma “elevada eficiência térmica”, para maior conforto no interior dos espaços e considerável poupança de energia. A resistência ao fogo até 240 minutos, sem emitir gases tóxicos, é outra vantagem. Uma vez que se trata de “um sistema fácil e rápido de aplicar, com um preço competitivo quando comparado com a construção convencional, reduz tempo e custo de obras”. Por fim, ao serem produzidos de matérias-primas naturais, estes blocos “são um produto carbono negativo, contribuindo para reduzir a pegada ambiental” no sector da construção.

O cânhamo é uma planta da espécie Cannabis sativa, muito parecida com a canábis usada para fins recreativos, mas a sua composição química é muito diferente: baixos níveis de THC (a principal substância psicoativa) e uma maior concentração de canabidiol, elemento que neutraliza os efeitos psicoativos.

Durante séculos, foi cultivado em Portugal para produzir cordas e velas duráveis e resistentes ao sal para navios, estando a sua cultura associada à história dos Descobrimentos. Conta-se na página de internet da Cânhamor que, em 1500, D. João IV tornou obrigatório o seu cultivo, de forma a “aumentar a produção e utilizar no restauro de navios após a guerra com Espanha”. Depois, a cultura foi praticamente esquecida.

Agora, cultivar cânhamo para a indústria de construção pode ser uma outra aposta para a agricultura no Alentejo, com a empresa a incentivar os agricultores locais, através de apoio técnico, no acompanhamento do processo de cultivo, e compromisso de compra da produção. “Desta forma, garantimos escoamento e segurança para quem aposta no cânhamo, enquanto fortalecemos a base de matéria-prima nacional”, frisa Frederico Barreiro.

O diretor comercial explica que a empresa procura “estabelecer terrenos e parcerias num raio máximo de 50 quilómetros”, com vista a reduzir transportes e emissões associadas. O objetivo é “criar uma verdadeira economia circular, em que a produção local se transforma em matéria-prima para os ecoblocos, gerando valor para a região e para os agricultores envolvidos”.

Mas nem sempre é possível reunir todas as condições. Até agora, compraram cânhamo a agricultores das zonas de Serpa, Beja, Ferreira do Alentejo e Alvalade do Sado. “O nosso objetivo é ter palha, para depois termos a fibra do cânhamo e também as aparas ou madeira, que é com elas que produzimos os blocos para a construção civil”, esclarece.

Nuno Faustino, da Federação de Agricultores do Baixo Alentejo, ligado ao projeto da Cânhamor, inicialmente como consultor e agora também como membro dos corpos sociais, explica que a cultura do cânhamo está circunscrita às zonas de regadio, que estejam no perímetro de rega do Alqueva, que ó caso de Beja e Serpa. “No concelho de Ourique, o mais próximo que temos é a área da Torre Vã, na zona de Alvalade, o perímetro de regra da Barragem do Monte da Rocha, onde, com grande pena nossa, não houve cultura este ano”.

Segundo este dirigente agrícola, a cultura do cânhamo industrial tem um potencial “muito interessante”, pois tendo “um ciclo curto e utilizando pouca água, pode ser mais uma alternativa” na região, nomeadamente ao milho sempre que este estiver com preços de mercado menos aliciantes. Além disso, é uma cultura “melhorada dos solos, pela particularidade do seu sistema radicular ir buscar os nutrientes e a água a profundidade substancial”, beneficiando a produtividade de outras culturas que vierem a seguir.

De qualquer forma, Nuno Faustino diz trata-se de uma cultura nova, pelo que “há falta de know-how para produzir”, o que constitui um “aspeto para a resistência” dos agricultores e dificulta a sua disseminação.

Mesmo assim, a empresa assegura ter uma política muita seletiva de agricultores. “Queremos bons profissionais, pois estamos a falar de uma cultura que ainda está a surgir e que é muito exigente em termos de algumas práticas agronómicas”, nota Nuno Faustino, para dar conta que 80 por cento do seu sucesso é definido pela sementeira.

A escolha do Alentejo para instalar a fábrica prende-se com a ligação dos proprietários à região – os palestinianos Khalid Mansour e Azmi Afifi, e os israelitas Elad Kaspin e Omer Bem Zvio –, que querem contribuir para o seu desenvolvimento. Mas também pelas condições que o território oferece, e que se traduz, aponta o diretor comercial, em extensas áreas agrícolas para cultivo de cânhamo e espaço para instalação industrial. “Conseguimos aliar a paixão pela região ao objetivo de criar impacto económico, social e ambiental positivo”.

Segunda unidade em Garvão

A empresa abriu em 2025 uma segunda unidade fabril, agora em Garvão, concelho de Ourique, que pretende aumentar a produção de blocos. “É, atualmente, a maior do mundo, com capacidade para produzir blocos suficientes para construção de cerca de 250 casas por mês”, refere Frederico Barreiro, revelando que a empresa está “focada em consolidar esta capacidade produtiva e responder ao mercado ibérico” que tem revelado “elevada recetividade aos ecoblocos e às suas vantagens”. Segundo garante, “o crescimento tem sido muito positivo e estamos a trabalhar para dar resposta de forma consistente e sustentada”.

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