Parque eólico para Data Center de Sines preocupa Quercus

A Quercus diz-se preocupada com o Parque Eólico do Sudoeste, projeto que ocupará mais de mil hectares em Santiago do Cacém para abastecer o Data Center de Sines e que está em consulta pública até 18 de agosto, sem que, segundo a associação, tenha sido feita «uma verdadeira avaliação dos impactes ambientais.

Ana Luísa Delgado (texto)

Segundo a associação, o parque, promovido pela empresa Hyperion Renewables Sines, prevê a instalação de 23 aerogeradores, com potência unitária de 6,0 megawatts (MW), e uma produção anual estimada em cerca de 386,4 GWh, além de um sistema de armazenamento (BESS) com 61 contentores de baterias de lítio.

Para a Quercus, o documento em consulta pública «reconhece uma extensa lista de impactes negativos ao longo de todo o ciclo de vida do projeto», sistematicamente classificados como «pouco significativos», apesar da sua natureza e extensão.

Entre os impactes identificados, a associação destaca a «destruição de habitats protegidos», incluindo montados de sobro e azinho, charnecas secas europeias, medronhais e salgueirais junto a linhas de água, bem como a afetação de sobreiros e azinheiras, «espécies protegidas por lei, cujo abate é condicionado por decreto-lei».

A Quercus aponta ainda «perda de fauna, com destaque para avifauna e quirópteros (morcegos), por efeito de exclusão, perturbação e mortalidade, incluindo atropelamento e esmagamento durante a obra», a par de «interferência direta em linhas de água, com risco de assoreamento, aumento da turbidez e contaminação por derrames de óleos e combustíveis».

A associação acrescenta que o projeto afeta ainda áreas de Reserva Agrícola Nacional e Reserva Ecológica Nacional, ainda que «pequenas e localizadas», provoca «perda de solo e compactação, resultante da desmatação, decapagem e circulação de máquinas pesadas», e «poluição sonora com impacto direto na qualidade de vida das comunidades locais».

Quanto aos benefícios do projeto, a Quercus considera que a energia a produzir «dificilmente trará benefícios para a fatura energética das famílias portuguesas ou reforçará a rede elétrica nacional», isto apesar de o promotor invocar «a redução de custos energéticos, a diversificação da matriz energética nacional, a segurança de abastecimento e o cumprimento das metas europeias de redução de emissões».

Ainda que esteja prevista a possibilidade de disponibilização de excedentes para autoconsumo a comunidades de energia ou indústrias locais, a associação acredita que «o cenário mais provável é que esta central sirva única e exclusivamente para alimentar esta infraestrutura industrial», tendo em conta o elevado consumo energético dos data centers — que, segundo o promotor, poderá vir a representar 20% da eletricidade utilizada em Portugal quando o Data Center de Sines estiver na sua máxima capacidade operacional.

A Quercus considera «incompreensível» que um projeto desta envergadura não preveja, como contrapartida, «a redução significativa da fatura da energia para todos os munícipes» de Santiago do Cacém e Sines, os dois concelhos afetados, assim como outros apoios às comunidades locais.

Sublinhando não se opor «às energias renováveis», e reconhecendo o seu «papel indispensável na transição energética e na resposta à crise climática», a associação ambientalista sublinha que «o que está aqui em causa não é o princípio, é o modelo», defendendo que projetos desta escala não deveriam avançar «sem uma avaliação séria entre os impactes impostos ao território e os benefícios efetivamente devolvidos ao país».

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