
O Chega tentou fazer aprovar uma descida do IVA no fabrico dos chocalhos. O PSD chumbou. Uma medida irrisória, considerou. Não é relevante muito quem apresentou a medida, mas importa quem a recusou e quem se absteve. Embora quem a apresentasse também não o fizesse apenas pela bondade da ideia.
Aliás, assim podemos ver a preocupação pelo património e as economias locais.
O atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, esteve há uns anos em Alcáçovas e prometeu não deixar morrer esta arte. Uma arte que já pode, de alguma forma, ser considerada extinta.
Mas o que aqui importa nem é tanto uma descida de IVA. É a total inoperância dos promotores nos últimos anos. Ou desde sempre. Para uns importa ter um selo, para selar e fortalecer um destino, a outros colocar uns logotipos na correspondência e nos cartazes. Mas mais do que isso, nada aconteceu. E não creio que se vá alterar. O fabrico de chocalhos segue o desígnio do mundo camponês… o fim.
Adivinha-se agora uma machadada final. Deve vir aí o Saber Fazer e os seus projetos de design e de turismo. A uns servirá de inspiração artística, entre um etnotráfico e o aprender técnicas para depois outros executarem em objetos belos e que para nada servem. A outros, uns berloques para vender a turistas que compram objetos de cortiça que mais não são que um revestimento de objetos de plástico.
Em 2010 havia mais de uma dezena de mestres-chocalheiros. Hoje, entre ativos e inativos, haverá menos, muito menos, de metade. Quando há uns anos nos pediram opinião sobre que estratégia nacional para o Património Cultural Imaterial, partilhei que importavam tomar dois caminhos: 1) Criar uma rede nacional e valorizar aqueles e aquelas que faziam acontecer, onde muitos deles nem sabiam o quanto o País lhe devia; 2) Criar uma política interministerial que convergisse num plano de salvaguarda sério, credível e sustentável. Economia. Perceber que os chocalhos são parte de outra esfera que não a do cante.
Da primeira medida nasceu a pífia ideia de dar umas plaquitas de acrílico a quem se inscreve no Inventário Nacional. Da segunda uma ideia de projeto-piloto saído de uma reunião de ministros para experimentar com o Fabrico dos Chocalhos. É procurar a resolução. Espremido, nada.
A candidatura foi feita para homenagear os novos e os velhos mestres chocalheiros portugueses, chamar a atenção para as paisagens sonoras e, o mais importante, para o saber fazer e como o declínio desta arte acompanhava o fim do património genético, das raças autóctones. Era, na filosofia e ética da candidatura, não um GPS dos rebanhos, mas antes um indicador do estado de saúde de algo que todos os dias vai desaparecendo: as ovelhas, as cabras.
Este caminho de uma pseudo arte é o mais fácil. Este caminho da turistificação é também jeitoso. Já o vimos no passado. Eu próprio trabalhei sobre o seu embrião, ou melhor, sobre as ruínas deste embrião, na Guarda. Coisas que nada mudaram e que procuraram esconder a insuficiência e a patetada de ações que nada são. Léxico com estrangeirismos e palavras caras. O Saber Fazer tem a sua génese entre a estetização do cobertor de Papa, o IEFP e as certificações coimbrãs para o artesanato.
Os chocalhos pertencem a um mundo que não tem que desaparecer: a pastorícia. É aí que nos devemos centrar. Mas tal implicaria agir de outra forma, com outra estratégia, mais complexa e mais difícil. E num tempo onde, pela primeira vez na nossa história, vamos perder a fileira da lã, este bem cultural, os chocalhos, era nuclear numa narrativa de gritar o quanto estamos a perder.
Trabalhei em muitas candidaturas, e esta, e o mundo a que pertence, foi a mais importante e deveria abrir para uma estratégia de contribuir para salvar o mundo e a sua diversidade. Num tempo de aberta crise e urgência climática, o fabrico de chocalhos deveria ser um GPS: o que fazer para salvar a Terra.
O som dos chocalhos é um alerta. O seu silêncio é a morte de uma paisagem. E a morte da paisagem é também a nossa morte. Mas esta narrativa não cabe nas grandes preocupações de quem nos manda ao nível local, regional e nacional.












Uma resposta
Bem sabemos que quem nos manda, a todos os níveis, não tem interesse em nada que seja promover os nossos costumes, em não deixar perder as nossas raízes e mantê-las bem vivas.
Os nossos políticos cada vez olham mais para o umbigo e não têm ponta por onde se pegue. O País está cada vez a ficar mais pobre a todos os níveis.
O mais grave é que, quem apresenta estratégias para manter o bem cultural que ainda existe neste País, é deixado para trás e nunca consegue avançar com as suas ideias. Está-se continuamente a chegar ao declínio do património cultural.
Haveria muito mais para dizer, mas fico por aqui.