Pedro d’Orey Manuel: “Agricultura nacional tem futuro e atrai jovens”

Pedro d’Orey Manoel, natural de Lisboa, licenciou-se em Agronomia e após casar rumou ao Alentejo, onde há mais de 30 anos é agricultor, atividade que divide com uma ativa participação no movimento associativo do sector, integrando os órgãos sociais do Agrupamento de Defesa Sanitária (ADS) de Estremoz. Florival Pinto (texto)

Para quem está na agricultura há 30 anos, o que é que mudou neste tempo? 

Mudou muita coisa, por exemplo em termos de eficiência e de sustentabilidade. Nós utilizávamos no milho, que faço regadio já há muitos anos, cerca de 12 mil metros cúbicos por hectare e neste momento utilizamos entre seis e sete mil metros cúbicos, quer dizer, passámos para metade. Em termos de adubos, utilizávamos aproximadamente 300 a 400 quilos de adubo no total, neste momento utilizámos 100 ou 200 quilos – passámos para um terço dos ‘inputs’ -, fazíamos dois ou três tratamentos com inseticidas, neste momento fazemos um ou nenhum e, portanto, o que fazemos é completamente diferente. Em termos tecnológicos, regamos exatamente aquilo que o milho precisa, temos sondas de rega que indicam a quantidade de água existente no solo e a que o milho precisa. Eu faço cerca de duas regas por semana, quando antigamente regava todos os dias porque achava que o milho estava sempre com sede.

Essas novas tecnologias vieram facilitar a vida do agricultor, também em termos de custos, ainda que sem prejuízo para a qualidade do produto final que é disponibilizado aos consumidores…

Exatamente, sem prejuízo para a qualidade do produto final e melhorando a rentabilidade do agricultor, porque eu neste momento consigo, com a mesma produtividade em quilos por hectare ou com alguma melhoria na produtividade e com muito menos ‘inputs’, ganhar o mesmo dinheiro ou ganhar um bocadinho mais. E, portanto, tenho uma rentabilidade maior por dois motivos: porque o milho produz mais e, por outro lado, eu gasto muito menos a produzir a mesma quantidade de milho. No caso dos cereais, por exemplo, eu posso produzir um pouco menos em termos de quilos por hectare, só que gasto um terço daquilo que gastava.

O Alentejo foi durante uma parte do século passado considerado o celeiro da nação, depois deixámos de produzir cereais em Portugal. Acha que isso foi uma boa opção?

Não, não me parece que tenha sido uma boa opção. A Associação Nacional de Produtores de Cereais, cuja direção integro, juntamente com o Governo, apoiou uma ação de apoio à produção nacional de cereais. Junto das grandes superfícies temos algumas linhas de apoio à produção nacional, com pão produzido com cereais do Alentejo. Estamos a tentar dinamizar, no fundo, a produção de cereais do Alentejo. Não é fácil, porque algumas zonas de grande produção de cereais foram transformadas em zonas de culturas permanentes, mas estamos a tentar dinamizar essa produção e a tentar que se volte a produzir cereais.

Ainda vamos a tempo?

Ainda, acho que sim. Não vamos a tempo de voltar a ser o celeiro que éramos, em termos de quantidades produzidas, mas ainda podemos aumentar de forma significativa o que produzimos neste momento, que é uma quantidade residual. E, portanto, acho que podemos ainda vir a produzir uma quantidade significativa, não podendo, de maneira nenhuma, produzir tudo aquilo que consumimos, mas podemos ainda fazer face a uma percentagem significativa. Neste momento, nós chegamos a 10%, do total do consumo nacional, mas poderemos vir a produzir 30% ou 40% daquilo que consumimos. É vir a produzir duas ou três vezes mais. E isso pode ser significativo.

As opções que foram tomadas, sobretudo na área dos vários blocos de regra da Alqueva, foram as opções que mais defenderam o interesse nacional?

Foram as opções que mais defenderam o interesse nacional e o interesse dos agricultores em termos económicos e em termos de rentabilidade.

Mas em termos estratégicos, em termos geopolíticos?

Em termos estratégicos, neste momento, e a seguir a tudo aquilo que aconteceu a nível mundial, se calhar não foram as mais acertadas. Agora, temos é que pensar a nível do agricultor e a nível da exploração agrícola em termos de rentabilidade. Porque eu não posso pedir a um agricultor que deixe de fazer uma cultura que lhe rende um valor determinado por hectare para que passe a fazer uma cultura que tem uma rentabilidade de metade e não o compensar de outra maneira qualquer para ele poder fazer essa cultura que em termos estratégicos para o país é muito importante. Portanto, eu tenho que compensar o agricultor, de alguma maneira.

E essa compensação não tem existido, mesmo no âmbito da PAC?

Não tem, não tem. Essa compensação não existe porque em termos de PAC, a Política Agrícola Comum é europeia e, portanto, pensa a nível europeu, não pensa a nível nacional. E se a nível nacional quero ter uma autonomia em termos de cereais de 30%, de 40% ou de 50%, de auto-aprovisionamento, a Comissão Europeia não pensa em termos nacionais. E em termos europeus temos e a Europa não vai compensar Portugal.

Mas, mesmo na agropecuária, é fácil encontrar nas grandes superfícies borregos vindos da Grécia, carne de bovino da América do Sul. Os produtores nacionais não querem produzir o suficiente?

Os produtores nacionais querem produzir e produziram. Eu faço parte de um agrupamento de produtores de carne e os produtores nacionais produziram e havia carne nacional. Só que grande parte da carne nacional tem ido para exportação devido à qualidade que tem e à procura que tem a nível internacional. Nós continuamos a exportar para mercados como Israel, que estão a pagar melhor o borrego e os cabritos nacionais. Se esses mercados estão a pagar melhor, é a lei da oferta e da procura. É um bocadinho incongruente este mercado. Quer dizer, eu estou a exportar o produto nacional que é de qualidade e estou a importar, se calhar, um produto que é de menor qualidade.

Não será importante envolver as grandes cadeias de retalho, sensibilizá-los para remunerar melhor os nossos agricultores, mas ter produto nacional nas prateleiras?

Mas eles querem ter. Eles procuram ter. Só que depois o consumidor não está disponível para pagar o preço que esse produto nacional tem que ter para estar na prateleira do supermercado. E o consumidor muitas vezes vai à procura de um produto que pode ter uma qualidade um bocadinho inferior, mas que tem um preço que o consumidor prefere porque não tem capacidade para pagar o outro preço.

Pegando neste exemplo da Grécia, como é que os produtores gregos conseguem fazer todo o circuito – abater os animais e transportá-los para Portugal – e eles chegarem à prateleira mais barato do que os produzidos aqui à porta do supermercado?

Muitas vezes são, assim como os nossos colegas espanhóis, ajudas de governos regionais porque eles têm uma coisa que se chama regionalização. A nível regional eles conseguem dar ajudas aos produtores, para fazerem a exportação dos animais que nós não conseguimos aqui. Muitas vezes esses animais não vêm de países europeus, mas da Turquia ou de outros países de fora da Europa, que não têm as mesmas regulamentações em termos de produção que nós temos. E, muitas vezes, a carne de bovino que se vê nos supermercados é oriunda de países da América Latina que não têm, de todo, as mesmas exigências em termos de produção que nós temos. E têm uma produção em extensivo que nós não conseguimos ter aqui. Portanto, têm custos de produção muito mais baratos. E aí têm ajudas do governo que são completamente diferentes das nossas.

O que é preciso fazer para alterar este paradigma?

É muito difícil, com a globalização dos mercados, e agora com estas negociações que foram feitas do Mercosul, por exemplo, é muito difícil combater esses preços. Em termos de qualidade, nós temos um produto muito bom e que é valorizado nos países terceiros, fora da Europa, como é o caso do mercado de Israel, para onde estamos a exportar. Estão a sair barcos de 15 em 15 dias, com cinco, seis ou sete mil animais, para Israel, que continua a querer os animais portugueses pois são de muito boa qualidade. Enquanto houver esta procura, o mercado nacional vai ter preços como tem tido, e acaba por não chegar às prateleiras dos supermercados, que têm de ter alternativas para o consumidor com um produto mais barato, se calhar de qualidade um bocadinho inferior, mas que não é de má qualidade.

Com a sua experiência, é capaz de aconselhar hoje um jovem a entrar na agricultura?

Graças a Deus tenho dois filhos que estão na agricultura. Eu tenho essa sorte, e os meus filhos têm essa sorte de ter um pai que tem uma atividade agrícola e que tem uma exploração agrícola onde eles podem trabalhar. Em relação aos jovens agricultores, acho que é uma atividade que está cada vez mais a ser agarrada pelos jovens, e está cada vez mais bem vista, porque se até aqui era relativamente mal vista pelas pessoas, dizia-se que ia para a agricultura quem não sabia fazer mais nada, hoje em dia é uma atividade já bem vista, até economicamente, pela juventude. Vejo pelos cursos de Agronomia, que têm estado bastante concorridos e as vagas têm sido todas preenchidas. Parece-me que é uma atividade que tem futuro e que as pessoas já veem de outra forma.

Com as alterações em relação ao mercado dos Estados Unidos, teme que isso possa ter algum impacto nos agricultores nacionais. O que é preciso fazer para atenuar o efeito destas tarifas?

Eu acho que isso é uma coisa completamente imprevisível, mas é importante não responder às tarifas com mais tarifas. A Comissão Europeia respondeu, e bem, aguardar para ver o que é que se vai passar. E ir tomando medidas, percebendo como é que os mercados vão reagindo, e fazer coisas, digamos, paliativas. Portanto, não fazer uma resposta muito rápida e muito energética, mas fazer uma resposta, de alguma maneira para atenuar e remediar danos.

Os agricultores portugueses têm condições, neste momento, para encontrar mercados alternativos?

Acho que sim, porque temos um produto de qualidade. Não podemos concorrer em quantidade, mas podemos concorrer em mercados que tenham qualidade. E mercados de qualidade eu acho que há sempre. Essa procura pode ser feita e aí o Governo pode dar alguma ajuda em termos do AICEP, para ir à procura de mercados alternativos que estejam dispostos a pagar uma mais-valia pela qualidade.

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