Perfil de Clarisse Campos, da infância nos arrozais à liderança de Alcácer

Nasceu em 1963, quando ainda havia hospital em Alcácer do Sal, cresceu entre arrozais, caminhava quilómetros para ir à escola e guarda da infância a marca do trabalho rural e da entreajuda. Hoje, Clarisse Campos lidera a Câmara Municipal e assume como prioridades a habitação, a fixação de população e a melhoria das acessibilidades, num concelho que considera estar “numa encruzilhada de oportunidades”, mas a precisar de novo impulso de desenvolvimento. Luís Godinho (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Quando a bebé nasceu, a 5 de agosto de 1963, ainda Alcácer do Sal tinha hospital. Os pais, Augusto e Custódia, chamaram-lhe Clarisse. E a menina cresceu na simplicidade da vida em Foros de Albergaria. “Vivi lá até aos quatro anos, numa aldeia pequena, onde as pessoas se dedicavam à agricultura”. O pai era rendeiro e, por essa altura, já produzia arroz.

A casa ficava perto da escola – havia hospital em Alcácer e escola nos Foros! – e Clarisse Campos recorda-se de ir lá com frequência, mesmo sem ter ainda idade para aprender a juntar as letras. A primária, essa, haveria de frequentar em Fangarifau, uma pequena aldeia na freguesia de São Martinho, pois a família mudara-se para o Monte do Ramalhão.

“Fangarifau é uma povoação muito pequenina, entre as herdades do Ramalhão e da Palma e eu fazia muitos quilómetros a pé para ir à escola”, recorda a atual presidente da Câmara de Alcácer do Sal. Conversamos no seu gabinete, num dia chuvoso, quando o Sado já corria “cheio”, como que anunciando as cheias que dias depois inundariam a baixa da cidade e provocariam prejuízos avultados. Perante a adversidade, demonstrou capacidade de liderança e gestão da crise, superando a prova com distinção e ganhando projeção nacional.

Ia, pois, a pé para a escola. “Eram alguns quilómetros, não sei precisar quantos, mas ficava longe. A meio do dia, percorria metade do caminho entre a escola e a minha casa, e a minha mãe fazia a outra parte para me levar o almoço. Depois voltava para as aulas”.

Foram anos de liberdade?

A minha infância foi toda passada no campo, a apanhar cogumelos, a ver os pássaros, a percorrer os canteiros de arroz com o meu pai, a ver as senhoras na dureza dos trabalhos da monda e na plantação do arroz. Um trabalho muito difícil. Acompanhei essa fase e valorizo muito tudo o que é trabalho agrícola, os nossos agricultores, pois a vida da minha família foi essa. O meu pai foi agricultor até aos anos 90 do século passado, até pouco tempo antes de falecer.

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Embora longe de uma vida fácil, Clarisse Campos guarda “memórias muito agradáveis” desses tempos de infância. Não havia muitos miúdos pelos montes, mas a relação com as pessoas mais velhas era de grande proximidade. “Ensinavam-nos os trabalhos do campo, como se cultiva, aprendi a semear nas hortas, a tratar das galinhas. Sim, tive uma infância muito feliz”. A vinda para a (então) vila dá-se pouco depois da Revolução de Abril, tinha ela 11 anos.

Lembra-se desse dia?

Lembro pois. Em abril apanham-se as túberas e o meu pai, nessa manhã do dia 25, andava a apanhar túberas num altinho perto do monte, com um rádio por perto para ouvir as notícias. Claro que não percebia muito bem do que se tratava, mas recordo-me perfeitamente desse momento. Mudamos para Alcácer do Sal em se- tembro, quando comecei a frequentar o primeiro ano [do então denominado] ciclo preparatório.

Como é que acabou a licenciar-se em Relações Internacionais?

O culpado disso é um amigo meu, o embaixador José Augusto Duarte, nesta altura colocado em Madrid. Quando completei o 11.º ano fui estudar para Setúbal, pois aqui não havia a área de humanidades. Ia e vinha todos os dias, de autocarro. O que eu queria era ser professora de Inglês. Sucede que nessa altura, poucos anos depois do 25 de Abril, havia fases em que não tínhamos professores a algumas disciplinas, e quando cheguei a Setúbal percebi que os meus colegas estavam a um nível muito mais avançado. Conheci o José Augusto Duarte, mudei de área, ele começou-me a falar da importância e da qualidade do curso de Relações Internacionais, fui investigar e comecei a ficar motivada pelas disciplinas.

E entrou

Concorri para Relações Internacionais e para Comunicação Social. Entrei na primeira opção, no Instituto de Ciências Sociais e Políticas, fiz todo o curso com o José Augusto Duarte, depois ele seguiu a carreira diplomática, e a minha opção foi o ensino. Ainda fui professora durante vários anos, mas como não me consegui efetivar resolvi fazer uma pós-graduação em Ciências Documentais e tornei-me bibliotecária.

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É na universidade que, verdadeiramente, descobre o seu interesse pela causa pública e muito por culpa de um antigo ministro do Estado Novo, Adriano Moreira. “Foi um professor fabuloso, lecionava Ciência Política e Ideologias e, para além disso, abria-nos horizontes para a literatura, dava-nos mundo, cultura… foi o melhor professor que tive, com todo o respeito que enho pelos outros”.

A intervenção direta na política viria mais tarde. Antes, como vimos, houve o ensino, depois um período como bibliotecária. “Tive a felicidade de inaugurar uma biblioteca fantástica, que é a Biblioteca Municipal de Ferreira do Alentejo. E tenho de agradecer ao presidente atual, que era também presidente na altura, Luís Ameixa, a honra que me deu em inaugurar e ser diretora daquela casa durante muito anos”.

Em 2012 assume a coordenação da Biblioteca de Alcácer do Sal, mas dois anos depois, já com um Executivo da CDU em funções, é metida “na prateleira” e colocada no Arquivo Municipal.

Militante do Partido Socialista, desde o tempo em que ainda trabalhava em Fer- reira, Clarisse Campos tem ainda uma passagem pelo Centro de Emprego e For- mação Profissional do Alentejo Litoral, de que foi diretora, entre 2016 e 2019, ano em que é eleita deputada pelo Círculo Eleitoral de Setúbal. A opção pelo socialismo democrático surgiu de forma natural, e não exclusivamente por convicções ideológicas.

Num concelho que, desde o 25 de Abril, era dominado pela CDU, ter-lhe-ia sido mais fácil outra opção.

Isso não, nunca mesmo. Quando digo nunca é mesmo por razões pessoais. O meu pai era agricultor e durante o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC) ocuparam-nos uma herdade e sofremos muito com isso. Apesar de o meu pai não ser proprietário, mas rendeiro, ocuparam a herdade. No dia em que fiz 13 anos, o meu pai esteve preso o dia inteiro no monte, porque não quis assinar uns papéis a passar tudo o que era dele para a cooperativa. Esteve um dia inteiro lá fechado, sem comer, e nós à espera dele… isso marcou-nos muito, como é óbvio.

Daí surgiram ressentimentos?

Não, não nos trouxe ressentimento contra as pessoas, porque continuámos a conviver com elas. Tenho muitas pessoas amigas que são comunistas, outras de vários quadrantes políticos, mas obviamente que o PCP é um partido no qual eu seria incapaz de me inscrever.

Como é que surge a candidatura nas legislativas de 2019?

Bom, candidatei-me à Câmara de Alcácer do Sal, pela primeira vez, em 2017. Estive muito envolvida nas eleições diretas que conduziram António Costa à liderança do PS, envolvi-me muito nesse processo, que foi muito mobilizador e que enriqueceu o partido. Depois, surgiu esse convite e candidatei-me.

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Nessa eleição, ocupou a 12.ª posição na lista do PS por Setúbal. Os socialistas elegeram nove deputados por esse círculo eleitoral. Alguns, como Eduardo Cabrita, João Galamba ou Ricardo Mourinho Félix foram chamados a desempenhar funções governamentais. Clarisse Campos “viu-se” deputada e desse período, que se prolongaria até 2025, com outras legislativas pelo meio, confessa guardar boas memórias. “Sinto muito saudosismo quando vejo os trabalhos parlamentares na televisão. Foi uma honra poder lá estar, foi uma grande escola. Senti muito o peso da responsabilidade por desempenhar essas funções”.

Ainda assim, não teve dúvidas em abdicar de uma terceira candidatura, nas eleições antecipadas de 2025, para liderar a lista do PS à Câmara Municipal de Alcácer do Sal. “No trabalho autárquico” – sublinha – “uma pessoa consegue mais facilmente resolver os problemas, as questões da vida da comunidade. Temos impacto direto na nossa ação, a nossa decisão pode impactar de uma forma muito rápida na vida das pessoas”. Ao contrário do que sucede no Parlamento, onde o tempo entre a identificação dos problemas, a tomada de decisão e a sua aplicação se arrasta durante meses.

Veja-se, por exemplo, o caso da isenção de portagens nas autoestradas A6 e A2, para residentes e empresas com sede no Alentejo. “Fiz parte desse processo, fui também uma parte ativa, mas só em abril deste ano é que começará a funcionar”. Nos municípios, pelo contrário, as decisões têm efeitos de forma mais imediata.

Conhecido o resultado é mais fácil falar sobre isso, mas presumo que lhe tenha sido difícil decidir entre continuar no Parlamento ou avançar com a candidatura à presidência da Câmara.

A verdade é que essas decisões têm de ser ponderadas. Como lhe disse, a experiência como deputada foi muito importante, gostei muito desse trabalho, que também me permitiu alavancar a candidatura à Câmara, mas não foi difícil tomar a decisão. Gosto mais de colocar “a mão na massa”, como se costuma dizer. Olhe, tenho a sorte de gostar muito daquilo que faço a cada momento.

Como assim?

Adorei ser professora. Depois, gostei muito de ser responsável pela Biblioteca de Ferreira do Alentejo – é como se fosse uma filha minha, está sempre no coração. Também da passagem pela Biblioteca de Alcácer do Sal, onde estive menos tempo… também gostei muito de ser dirigente no Centro de Emprego e Formação Profissional e da função de deputada.

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Em outubro do ano passado tornou-se presidente da Câmara, com o PS a conquistar uma maioria absoluta de 50,64% dos votos e a eleger três dos cinco vereadores. Com uma área de quase 1500 quilómetros quadrados, duas vezes maior do que a Ilha da Madeira, o concelho de Alcácer do Sal encontra-se numa “encruzilhada de várias vias de comunicação”, dispondo de uma “localização privilegiada”.

Como diz Clarisse Campos: “Tem tudo para dar certo”. Ainda assim, a perda populacional tem sido uma constante: o último Censo (2021) registou 11.112 habitantes, um decréscimo de 14,82% comparativamente com 2011 e de 22,22% desde o início do século. “Encontrei um concelho com fraco desenvolvimento económico, um concelho que não consegue fixar população, onde há muita coisa por fazer”.

Como é possível não conseguir fixar população tendo em conta, desde logo, a localização geográfica e a proximidade a Lisboa?

É o resultado de um desinvestimento muito grande na criação de emprego qualificado, de um desinvestimento na habitação, extensível a boa parte do país, mas nós aqui não conseguimos investir em habitação, não conseguimos fixar jovens, nem os nossos, nem outros que queiram vir para cá trabalhar.

A habitação será uma prioridade para este mandato?

Precisamos muito de criar habitação. Temos vários loteamentos de iniciativa municipal aos quais é necessário dar sequência e temos de encontrar soluções através de parcerias com privados e com cooperativas para podermos avançar para a construção de habitação a preço acessível. Pouco tempo antes das eleições, o Executivo anterior lançou um concurso para disponibilizar alguns lotes para jovens, mas alguns desses lotes nem sequer estavam infraestruturados, nem o valor pedido era atrativo. O que é que acontece? O jovem teria de comprar o terreno, e aqui era pedido à volta de 22 mil euros, depois teria de pagar o projeto e pedir um financiamento para a construção.

A sua proposta é diferente?

Queremos uma solução diferente, em que as casas ou estejam prontas e sejam vendidas a preços entre os 150 e os 200 mil euros, para permitir que os jovens recorram à banca e façam o crédito para adquirir a casa de uma forma mais simples. Haverá também a vertente de habitação para arrendamento acessível. O anterior Executivo fez uma Estratégia Local de Habitação pouco ambiciosa, que nós vamos agora reformular, porque incluiu apenas a componente da habitação social, nem sequer integrando a de algumas IPSS do concelho e que poderiam ter sido reabilitadas ao abrigo do PRR. E repare que temos muita habitação a ser construída no concelho.

Sobretudo na zona de costa?

Nem só, mas não é habitação acessível. São projetos bem-vindos, é uma aposta que fazem no nosso território, são investimentos que não rejeitamos, que pagam impostos, investimentos em condomínios, mas que a generalidade das nossas famílias, dos nossos jovens ou de quem queira vir para cá residir não consegue pagar.

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Entre as prioridades para os próximos quatro anos, Clarisse Campos inclui também a melhoria das acessibilidades, com a existência de “numerosas estradas nacionais e municipais a carecerem de manutenção e de reabilitação”. Neste capítulo, a autarca defende a necessidade de um trabalho “articulado” entre todos os municípios que integram a Comunidade Intermunicipal do Alentejo Litoral, a que também preside, para fazer uma “pressão muito forte” junto da Infraestruturas de Portugal e do Governo. “Nestes territórios tão vastos é essencial uma boa rede de estradas que permita a mobilida- de das pessoas”.

E depois, bom, depois há o comboio. Ou melhor, um concelho a ver passar o comboio. A existência de uma ligação direta permitiria encurtar para cerca de 40 minutos a ligação entre Alcácer do Sal e o centro de Lisboa, mas sucede que o comboio não para na estação de Alcácer do Sal, apenas no Pinhal Novo ou em Grândola, obrigando os passageiros a uma deslocação de, pelo menos, 23 quilómetros.

“A ferrovia tem de ser uma aposta nacional, no nosso caso o comboio é fundamental, até para podermos aumentar a nossa população e fixar gente, por que nos pode colocar rapidamente em Lisboa e esta proximidade seria uma grande vantagem. Temos estudado várias soluções, quero que este seja um trabalho articulado com empresas e investidores locais”. Também aqui a promessa da nova presidente é clara: “Vamos lutar”.

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