Diz que o barrocal algarvio lhe moldou o caráter. “Temos uma forma de encarar a vida mais alegre e despreocupada porque habituámo-nos às agruras da serra e, por outro lado, conhecemos as dificuldades da vida da atividade marítima”. A educação dos pais pelo exemplo, “no encarar a vida risonhamente” e desdramatizar o que de menos bom acontece, passou-lhe essa herança coletiva.
José d’Encarnação nasceu em Corotelo, São Brás de Alportel. Quando na década de 40 foi necessário trabalhar a pedra para a construção civil na zona da grande Lisboa, o pai, que dominava o ofício nas pedreiras dos Funchais, foi recrutado e a família mudou-se para a zona ocidental de Cascais. Tinha quatro anos.
Do tempo que passou no Algarve não guarda recordações. É já em Birre, nesse tempo “uma aldeia em que toda a gente se conhecia e sabia uns dos outros”, que as memórias surgem claras. “Não tenho recordações más, nem especialmente boas da infância. Era uma vida de vizinhos, todos brincávamos uns com os outros sem problemas”, comenta.
Estudou numa escola particular construída numa espécie de “monte alentejano-ribatejano” mandado construir por um proprietário de Santarém que para ali foi viver em modos senhoriais. A mãe trabalhava a dias, o pai na pedreira, e sonhavam com um curso de Económicas e Financeiras, que era de muito prestígio à época, para o filho. Tinha nove anos quando nasceu o irmão.
O percurso que tornou o historiador José d’Encarnação uma referência na Epigrafia romana começou nos Salesianos do Estoril, onde estudou depois do ensino primário, graças à iniciativa da professora que conseguiu que pessoas “de alguma categoria social de Cascais” se comprometessem a pagar-lhe os estudos.
Na turma, era o melhor aluno com outro colega, numa alternância mensal em que um superava o outro. “No aproveitamento tinha um rival. Mais tarde, tive a grata surpresa de saber que era a mãe dele que me pagava os estudos. Foi muito curioso”. Já em matéria de comportamento, confessa que “nunca” foi “muito bem-comportado”.
Os Salesianos perceberam que podia ir longe nos estudos e convenceram-no a continuar nas suas escolas, onde passou parte da juventude: dos 13 aos 19 anos. “É um período vivido em colégios internos e, por conseguinte, onde tive uma grande formação do ponto de vista físico, espiritual e social”. No último ano foi enviado para umaescola em Aveleda, Bragança, “que dependia dos serviços tutelares de menores”.
Ser professor numa escola de correção foi uma experiência exigente, mas “extraordinariamente enriquecedora”. Lecionava a disciplina de Português, e “estava encarregado” dos jovens entre os 12 e os 14 anos em regime de prisão.
O interesse pela Epigrafia
Fez o curso de História na Faculdade de Letras de Lisboa, entre 1964 e 1969, e nesse ano voltou aos Salesianos do Estoril para lecionar. “Passei a ser colega dos meus professores. Foi também uma experiência assaz curiosa”. Lecionava Português e História, e foi um dos docentes que iniciou a cadeira de História e Geografia de Portugal, criada pela primeira vez e cujo interesse residia “na forma de fazer com que os estudantes olhassem para a realidade do seu ambiente, da sua envolvência”.
Para isso, um dia deu-lhes como trabalho colecionarem “rótulos de tudo o que tinham em casa” para que “começassem a saber onde eram feitas” as coisas, criando “um álbum do panorama das atividades económicas portuguesas”. Explica que isso também lhe “moldou a personalidade”, para depois se “dedicar ao património”.
Mais tarde fez-se professor do ensino superior em Coimbra, sem ter sido esse o objetivo que o moveu até ali. “Pensava continuar nos Salesianos do Estoril, pois era perto de casa, sentia-me bem, era o meu ambiente”. A oportunidade surge depois de 25 de Abril de 1974, quando Jorge de Alarcão, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, decide que a cadeira de Epigrafia “se deveria introduzir no curso de Arqueologia entretanto criado, que era mais uma pré-especialização”, explica José d’Encarnação.

O concurso abriu e Jorge de Alarcão convidou-o a concorrer, uma vez que a dissertação da sua licenciatura em História era sobre “Divindades Indígenas”, no âmbito da Epigrafia, e tinha currículo nesse domínio.
Seguiu o curso normal, como assistente, e em 1991 já como catedrático. Revela que, dois anos após ser assistente, começou a pensar no doutoramento. “Como havia uma grande relação entre Coimbra e Bordéus, porque estavam a fazer escavações na cidade romana de Conímbriga, Jorge de Alarcão pensou que eu podia ir estagiar em Bordéus para fazer o doutoramento em Epigrafia. E assim foi, acabei por estar lá um ano a preparar a minha tese de doutoramento”.
O que o atrai na Epigrafia é o facto de se tratar de uma “linguagem cifrada” e, por isso, ter “todo o fascínio do segredo que está por detrás dela” – o que quer dizer, porque é que houve uma pessoa que decidiu deixar aquela “mensagem escrita na pedra”, em determinado momento, e porquê com aquelas palavras e paginações? “Tudo isto é realmente fascinante”, desabafa.
A tese de licenciatura em Epigrafia, sob orientação de Fernando de Almeida, da Faculdade de Letras de Lisboa, tinha-lhe sido sugerida pelo próprio professor, uma vez que José d’Encarnação dominava o Latim – cadeira a que tirara 20 valores, quando se preparara autonomamente para fazer o antigo 7.º ano. A escolha das divindades indígenas para tema da tese também tem uma história que gosta de contar.
Aconteceu quando um colega sacerdote lhe deu conta de terem encontrado “uma pedra com letras” ao abrirem um cabouco na Quinta dos Salesianos, em Manique, pedindo-lhe que fosse lá ver. “Verifiquei que se tratava de uma divindade indígena, e que tendo sido tirada da terra naquela altura seria algo perfeitamente inédito. Vim mais tarde a saber que não era inédita e que tinha uma história para contar”.
Segredos de Beja romana
Com outras áreas de interesse como a História da Antiguidade Clássica, o Património Cultural e a Museologia (entre 1972 e 1973, fez o Curso de Conservador de Museus), é a Epigrafia Romana e a Epigrafia em geral com que mais se tem ocupado, dando o mote a muitas das suas obras.
Uma das últimas, de 2024, chama-se “Segredos da Beja Romana”. José d’Encarnação lembra que a sua tese de doutoramento, publicada em 1984, foi precisamente sobre as inscrições do sul de Portugal, levando-o a percorrer o Alentejo e a descobrir, e publicar, mais de 700 inscrições. Já depois de aposentado, embora continue a estudar as inscrições que vão sendo encontradas, teve “a ideia de tornar a Epigrafia acessível ao público”. E Beja vai ser novamente objeto de análise, com publicações na imprensa regional.
“Selecionava inscrições da cidade, que tem um espólio riquíssimo porque era uma das cidades mais importantes da Lusitânia, e comecei a explicá-las ao público em geral”. Em “Segredos da Beja Romana” reuniu 30 desses textos, com a vantagem de ter a colaboração de Luís Madeira que, lendo o texto, “acabava por engendrar uma ilustração que mais facilmente fizesse penetrar no leitor o significado do que estava escrito”.
Continua com “a mesma preocupação” de tornar a Epigrafia acessível ao público, estando atualmente a desenvolver uma campanha para “dar a conhecer inscrições, não necessariamente romanas, que nunca foram objeto de estudo e que constituem um património das várias localidades”.
Com carteira profissional de jornalista, José d’Encarnação tem uma colaboração assídua com o jornal eletrónico “Duas Linhas”, onde recentemente publicou a história de uma inscrição da área de Pinhel, de 1570, que ninguém conseguiu ler, nem ele, até ter a ideia sublime de a virar ao contrário. “Então, não é que a inscrição tinha sido gravada diante de um espelho!”, conclui.












