População de lince-ibérico cresce, apesar de ameaças persistentes

O lince-ibérico consolida a sua recuperação em Portugal, após décadas à beira da extinção. Os resultados mais recentes reforçam a eficácia das medidas de conservação, mas especialistas alertam que a espécie permanece vulnerável e dependente de ações continuadas no terreno.

Júlia Serrão (texto)

Entre setembro e dezembro do ano passado, foram capturados 35 linces-ibéricos durante a campanha anual de monitorização no Vale do Guadiana. Como refere fonte do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), trata-se de «um número recorde» desde 2018, altura em que se iniciaram os trabalhos para avaliar a condição da população de linces-ibéricos a viver em liberdade no país.

As campanhas anuais têm como objetivo recolher «informação sanitária», que é a «principal base do esforço de conservação» da espécie. Os animais capturados são identificados e fotografados, submetidos a exames e vacinação, sendo ainda «recolhidas amostras para análises biológicas e genotipagem». Sempre que exequível, é-lhes colocado um colar emissor, através do qual é possível identificar eventuais problemas físicos atempadamente, ao mesmo tempo que são registados «comportamentos e deslocações», permitindo «mapear riscos reais no terreno». No final, os linces são devolvidos ao seu habitat natural.

Segundo o ICNF, 22 animais receberam os respetivos colares emissores naquela campanha, que foi a última integrada no projeto LIFE Lynxconnect, uma iniciativa que junta Espanha e Portugal.

O lince-ibérico foi a primeira espécie de felino a ser classificada como «criticamente em perigo», em 2001. Nesse ano foram observadas as últimas ‘pegadas’ da espécie em Portugal, numa zona de fronteira com Espanha — os investigadores pensam ter-se tratado «de um lince dispersante de populações em Espanha». Acredita-se que Portugal terá perdido populações estáveis durante a década de 80 do século XX.

«As últimas populações viáveis», no final do século, limitavam-se à Andaluzia, com cerca de 100 indivíduos divididos em dois grupos, encontrando-se em situação vulnerável. «A espécie sofrera um declínio muito acentuado e encontrava-se num vórtex de extinção», acrescenta a mesma fonte.

Desde então, foram implementadas ações concertadas, como o lançamento de um programa de reprodução em cativeiro. Com o objetivo de viabilizar a conservação da espécie em estado selvagem, este programa começou na Andaluzia, estendendo-se depois ao Alentejo e à região espanhola da Extremadura. Visa principalmente «estabelecer uma população em cativeiro de linces-ibéricos viável do ponto de vista sanitário, genético e demográfico, que permita o desenvolvimento de técnicas de reprodução natural e assistida; e preparar exemplares de lince-ibérico adequados do ponto de vista etológico e genético para ações de reintrodução em áreas de distribuição histórica da espécie».

Neste âmbito, o Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico, gerido pelo ICNF, entrou em funcionamento em outubro de 2009, contribuindo para «a recuperação das populações em liberdade, através da cria em cativeiro, preparação e solta de exemplares destinados à reintrodução».

Tudo começou na Herdade das Romeiras, em Mértola, em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana (PNVG), no dia 16 de dezembro de 2014, com a libertação do primeiro casal de lince-ibérico criado em cativeiro em Portugal — Jacarandá e Katmandu — no âmbito do projeto de conservação para recuperar os territórios históricos da espécie. Nesse ano foram libertados 10 animais e, no seguinte, nascia a primeira cria na natureza — filha de Jacarandá — na mesma área protegida. Atualmente, serão mais de 350 animais a viver em estado selvagem, com subnúcleos populacionais em Mértola, Serpa e Alcoutim.

Em 2024, quase 20 anos depois do arranque do programa que reproduz o lince-ibérico em cativeiro para reintrodução na natureza, a espécie deixou de ser considerada «em perigo de extinção» a nível ibérico, passando a ser classificada como «vulnerável» na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Em 2025, nasceram 62 crias de lince-ibérico nos centros de reprodução de Portugal e Espanha, o número mais elevado de sempre.

Apesar dos resultados animadores, as ameaças à espécie continuam. Em resposta escrita à «Alentejo Ilustrado», o ICNF diz que as maiores, atualmente, são «a perda de habitat e a fragmentação da paisagem, a escassez de coelho-bravo», que é a base da sua alimentação, «a mortalidade por causas não naturais», como «atropelamentos», e a baixa diversidade genética da espécie.

Explica que a destruição e fragmentação do habitat, causadas por «incêndios, urbanização, produção florestal e construção de infraestruturas», diminuem a área disponível e «isolam as populações», o que dificulta a reprodução, «aumenta o risco genético» e os fatores de mortalidade, nomeadamente por atropelamento. A diminuição de alimento disponível, sendo «o coelho-bravo a principal presa do lince-ibérico», é outro dos pontos críticos: «doenças como a mixomatose e a hemorrágica viral reduziram drasticamente as populações de coelho». Por fim, a reduzida «variabilidade genética de pequenas populações isoladas de lince-ibérico faz com que este seja bastante vulnerável a doenças». A leucemia felina, a toxoplasmose e a tuberculose bovina integram as ameaças à continuidade das suas populações.

A alteração da classificação de «perigo de extinção» para «vulnerável» não significa que «o risco tenha desaparecido, apenas que saiu da zona mais crítica», sublinha o ICNF, que aponta o seguimento dos «programas de conservação, a proteção do habitat, o aumento da abundância das presas e a mitigação dos atropelamentos» como determinantes para que a recuperação se mantenha nas «próximas décadas». «Um bom exemplo é a parceria estabelecida entre a aplicação Waze, o ICNF e a Infraestruturas de Portugal para alertar condutores sobre a presença de linces-ibéricos em zonas de risco no Alentejo e Algarve».

O sistema avisa, em tempo real, quando um animal se aproxima da estrada, diminuindo o risco de atropelamentos, que é «uma das maiores causas de mortalidade não natural do lince-ibérico». No futuro, sublinha, é também importante «continuar a apostar no reforço da diversidade genética do lince-ibérico», uma das grandes fragilidades da espécie.

O ICNF dá conta de que, em 2016, «uma equipa de 50 cientistas coordenada por José Antonio Godoy, da Estação Biológica de Doñana, conseguiu sequenciar o genoma do lince-ibérico e descobriu que este felino tem uma das menores diversidades genéticas» do mundo. «Os acasalamentos não controlados no meio natural levam à degradação genética, tornando-se essencial reforçar essa diversidade».

Segundo a mesma fonte, após a «fase crítica de recuperação», o objetivo agora é a salvação da espécie para a «sua viabilização a longo prazo». Isto é, o programa entra «numa nova etapa estratégica que passa por deixar de ser apenas uma espécie de seguro contra a extinção», para se tornar numa «ferramenta integrada de gestão populacional».

O futuro passa ainda por «monitorização genómica avançada, manutenção de um banco de recursos biológicos, investigação em doenças emergentes e modelação climática para prever alterações de habitat». O objetivo último, frisa, não é manter indeterminadamente «um grande programa de reprodução em cativeiro, mas reduzir gradualmente a dependência [dessa solução] à medida que as populações selvagens se tornam demograficamente estáveis, geneticamente viáveis e ecologicamente conectadas».

Na imagem principal, Ouriço, um lince fotografado no Parque Natural do Vale do Guadiana pelo fotojornalista Nuno Veiga, da agência Lusa

Uma resposta

  1. Uma reintrodução bem sucedida requer legislação para acabar com a caça, e deixarem os coelhos e lebres se reproduzirem . Isto é ecologia 101. Mas os nossos governantes e representantes politicos continuam a fomentar a ignorância do povo. Em Novembro pedi direito à não caça no meu terreno que está sob REN. No entanto ainda não recebi qualquer confirmação para obtenção do que é um meu direito.

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