Num mundo cada vez mais afastado daquilo que deveria ser, salvam-se honrosas exceções que ainda perpetuam o legado dos melhores. É assim em todas as áreas, e o jornalismo é um bom exemplo de como deixar marca, se nos alinharmos com uma tão bizarra verticalidade.
O apelido Tovar está na memória de milhões de pessoas, amantes ou não do desporto. Rui foi um decano vivo da mestra arte dos escribas e dos comunicadores, e que bom é sentir que o seu filho, Rui Miguel Tovar, mantém a fasquia bem lá em cima, em todos os aspetos. A cara, as feições e a voz, tudo nele é correspondência direta ao seu pai. Sobretudo, um cavalheiro.
E, a avaliar pelo amor com que se refere a ele, Rui Miguel Tovar não podia ser outra coisa que não um bom ser humano. Recentemente, o jornalista nascido em Lisboa a 16 de fevereiro de 1977 trocou a capital pelo Alentejo, mais concretamente Porto Covo: «São sempre as pessoas, as do ‘alto’, como eu costumo dizer, com categoria, seres humanos, portanto. Foram elas que aqui me prenderam. Paz, tranquilidade, areia, mar, e sempre as tais pessoas do alto. O que faz falta aqui é uma pastelaria a sério, de fabrico caseiro, estilo a dos galegos, em Sines.»
Se os jogadores da seleção nacional aqui estagiassem, o desfecho seria nefasto para a sua performance, afiança: «É a minha convicção. Se a seleção praticasse a arte dos mergulhos na praia do Banho, não sairia da água a tempo de jogar.» T
alvez, Rui, mas há algo mais que o segurou em Porto Covo, ensinamentos mais ou menos palpáveis capazes de moldar uma vida inteira: «O aperto de mão, o abraço e a atenção. Sempre que entro numa sala, adoro cumprimentar pessoalmente toda a gente, ou receber as pessoas com um cumprimento. A ‘culpa’ é dele, do meu pai, porque era a sua forma de agir em qualquer sala ou até na rua.» Tanto Alentejo.
A meninice de Rui foi vivida de perto com o pai e com a vivência jornalística, mas o que sonhou ser antes de definir ainda cedo a paixão pelo jornalismo e pela comunicação? «Tive muitas fases: ser amigo do ET, depois ser Super-Homem, e finalmente ser jornalista de imprensa escrita. Agora sou o Super-Homem da minha filha Ema e freelancer do jornalismo, longe de Lisboa (‘hoooome’, como diria o ET). E não venham buscar, se faz favor.»
Temos sempre a imagem de o percurso do nosso convidado estar muito ligado ao futebol do passado. É-lhe natural essa ligação às estórias passadas, por paixão ou lirismo. É comum que a conversa vá sempre ter ao seu pai e ao que acontecia naquele tempo. O saber enciclopédico de Rui Miguel Tovar faz o resto, o gosto por ir lá atrás ao imaginário dos que não viveram e, a par, da paixão dos que viveram cada momento. O que falta então aos dias de hoje? «O que falta? Fazer Ctrl + Alt + Del para reativar a paixão, só paixão, só isso.» E o que acharia o pai Tovar destes futebóis industrializados? «Quem viu e admirava Eusébio e Di Stéfano não pactuava com este negócio.»
Das centenas de experiências que ouviu contar ao seu pai, num tempo em que não havia internet nem telemóveis, pedimos a Rui Miguel Tovar que nos contasse um desses episódios: «Fez agora 40 anos, o jogo entre a Argentina e a Inglaterra no Mundial do México. Para mim é maravilhoso saber que o meu pai lá esteve a ver o golo com a mão de ‘Deus’ e o golo do século de um senhor chamado Diego Armando Maradona. Eu tenho muito orgulho nele por lá ter estado.»

Que deambulações e desenhos mentais fará o nosso convidado quando ouve, lê ou descobre o que se passou no passado nunca saberemos — aliás, cada um de nós faz as suas. Mas, e ele? Qual é a sua melhor história? «Tem a ver com o meu pai e a minha mãe. Foi o último jogo a que fomos juntos, um Hertha de Berlim (0) vs Borussia de Dortmund (1), ainda na versão de Jürgen Klopp, em fevereiro de 2012. Estávamos lá a passar uma semana de férias, e lembro-me de que a minha mãe estava muito espantada por o metro e o estádio estarem pintados de amarelo, as cores da equipa visitante. O Borussia fez-se representar em Berlim com a falange de apoio que toda a gente conhece e reconhece. Foi o último jogo que vimos juntos, e isso é, claro, especial.»
Pedimos a Rui Miguel Tovar que nos acompanhasse numa espécie de relato radiofónico de futebol que começou com Pelé a levar a bola para diante e a passá-la para Maradona; Cruyff está a pedi-la um pouco mais à frente. Avança, Rui: «Arsénio recebe com o peito, simula a desmarcação de Pedro na direita e dá de trivela para Diogo, encostado à esquerda. O seu cruzamento de primeira apanha Paulo a desviar ao segundo poste para o encosto artístico de Madalena. É o delírio da massa associativa, Zé Inácio promete uma tomatada para todos.» A magia dos amigos de Porto Covo a dar cartas na bola.
Mas, afinal, os jornalistas desportivos têm clube ou são só da seleção nacional? Desafiámo-lo a dizer qual é o seu, sem nos dizer o nome dele: «Ahhh, mas são verdes.» Para bom entendedor, meia palavra basta. Mas estamos em época de Campeonato do Mundo, e Portugal tem aqui uma boa oportunidade para fazer um brilharete, mas dado que o nosso convidado é um apaixonado pelo passado, quisemos um «11» histórico. «Um 11 de Portugal só com jogadores que vi jogar e já retirados: Rui Patrício; Miguel, Jorge Andrade, Ricardo Carvalho e Inácio; André, Carlos Manuel e Jaime Pacheco; Figo, Pauleta e Futre.» Não me parece mal, ainda que em minha opinião pudesse haver uma ou outra alteração.
Entre os encantos inebriantes de Porto Covo e Lisboa, Rui Miguel Tovar anda a criar raízes pelo Alentejo para que a sua pequena Ema cresça com o melhor dos dois lados. O jornalista que começou em 1995 no jornal Record e que se dividiu ao longo de uma carreira já notável por vários órgãos de informação e pelos tantos livros que escreveu, arrisco eu, é motivo de orgulho para uma terra que há muito se esqueceu de como se roem laranjas na falésia. É assim que Porto Covo, mais do que não se despovoar, dá vida a quem a quer viver em paz.










