Produção de trigo perdeu 91% das explorações em três décadas

O número de explorações de trigo em Portugal caiu 91% desde 1989, num processo de concentração da produção e aumento da dependência de importações, segundo um estudo do Ministério da Agricultura.

O setor do trigo em Portugal atravessa uma transformação estrutural profunda, marcada por uma redução drástica do número de explorações e pela crescente concentração da produção.

O retrato é traçado no estudo do «Observatório de Preços da Cadeia de Valor Agroalimentar», promovido pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração-Geral (GPP), que evidencia uma perda histórica de produtores.

Segundo o documento, «as explorações de trigo têm diminuído expressivamente ao longo dos últimos anos», sendo que «de 1989 a 2019 (último Recenseamento Geral Agrícola) existiu uma perda de 55 834 explorações produtoras de trigo, ou seja, 91% das existentes em 1989».

A evolução é clara: de 61 340 explorações em 1989, o número caiu para pouco mais de cinco mil em 2019, num processo contínuo de abandono da atividade agrícola ligada à cultura.

No Alentejo, apesar de a ocupação de trigo corresponder a 79% da área nacional, «apenas existem 23% das explorações» nesta região. Já no Norte, verifica-se o fenómeno inverso: 41% das explorações nacionais estão localizadas nesta região, no entanto, apenas são produzidos 9% do total nacional, «o que expressa a reduzida dimensão das explorações aí localizadas».

Este duplo movimento — menos explorações e maior concentração da produção — acompanha a evolução da área e da produção. O estudo refere que «a superfície de trigo teve um decréscimo de 43,3%, ao longo da última década», ao mesmo tempo que a produção se manteve relativamente estável, resultado de ganhos de produtividade.

A tendência de longo prazo é ainda mais evidente quando se observa a evolução da área semeada. O documento aponta que «a área semeada de trigo tem apresentado um decréscimo contínuo desde o início do milénio». A visão macro é esclarecedora: a área semeada de trigo em Portugal passou de 230 mil hectares em 2002 para pouco mais de 31 mil em 2022 e, nesta campanha, ficará pelos 10 mil hectares, um mínimo histórico.

Este retrato estrutural é acompanhado por uma forte dependência externa. O estudo sublinha que «a transformação e distribuição de produtos à base de trigo em Portugal tem uma dependência superior a 90% de importações», o que torna a produção nacional «pouco representativa». Só em 2022, o saldo da balança comercial foi negativo em 1,07 milhões de toneladas, o que se traduziu num saldo negativo de 407 milhões de euros.

O documento assinala ainda que, no início do milénio, «existiu uma importante produção de trigo duro que permitiu um elevado aprovisionamento de trigo duro nacional», cerca de 94% em 2003, sendo que atualmente não irá além dos 5% do consumo nacional. «A brusca redução», sublinha, «pode-se explicar pelo fim dos apoios ligados à produção de trigo duro no seguimento da Agenda 2000 que terminaram em 2005».

Os riscos são evidentes: «o trigo é um componente maioritário na dieta nacional, sendo o cereal mais consumido. A elevada dependência externa pode trazer vulnerabilidade na resposta ao consumo».

Já a avaliação das contas de cultura, na fase de produção, e a sua comparação com o custo de aquisição da matéria-prima pela indústria «permite identificar uma valorização da produção nacional face ao produto importado». «Essa valorização», refere, «é um reflexo claro da aposta na qualidade dos cereais nacionais que tem sido seguida pelo setor ao longo dos últimos anos, sendo evidente que Portugal não tem qualquer hipótese de competir em preço com outras geografias».

Nova estratégia para reforçar produção

No final do ano passado, o Governo anunciou uma nova estratégia para reforçar a produção nacional de cereais. A Estratégia +Cereais visa aumentar o nível de autoaprovisionamento, atualmente situado nos 19%, e contribuir para a redução do défice agroalimentar. Segundo o Executivo, «conflitos internacionais e gestão de surtos epidémicos exigem capacidade de resposta na produção alimentar», reforçando a necessidade de maior autonomia.

Entre as principais medidas anunciadas está a simplificação dos processos de licenciamento de infraestruturas hidráulicas, o aumento da capacidade de armazenamento de água e a melhoria da eficiência no uso de recursos hídricos e energéticos, em articulação com a Estratégia Nacional Água que Une.

O plano prevê ainda «aumentar o rendimento dos produtores» e dinamizar a produção de sementes certificadas e da genética nacional, procurando reforçar a competitividade do setor.

A aposta na inovação é outro dos eixos centrais, com o Ministério da Agricultura a destacar o recurso à biotecnologia para «impulsionar a resiliência agrícola» face às alterações climáticas, pragas e doenças, bem como a implementação de instrumentos de gestão de risco e o reforço da agricultura de precisão.

A estratégia inclui também medidas para promover práticas de gestão sustentável dos recursos naturais — água, solo e biodiversidade — e incentivar o uso de tecnologias digitais que permitam reduzir custos sem comprometer a sustentabilidade.

No plano estrutural, está prevista a criação de uma rede nacional agrometeorológica, o reforço das estruturas interprofissionais e a promoção da inovação e transferência de conhecimento. O Executivo pretende ainda valorizar a produção nacional, estabilizar o rendimento dos agricultores através de seguros e melhorar a transparência de mercado com a monitorização de stocks.

Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: D.R.

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