Produzido em Almodôvar, o Pirr chega ao mercado pela «porta grande»

Pirr chega ao mercado após uma década de investimento e maturação da vinha, conquistando um «grande ouro» da Confraria dos Enófilos do Alentejo. O melhor branco de 2025 é de Almodôvar. Na Herdade dos Toucinhos há todo um percurso assente no tempo, no terroir e numa estratégia que aposta em vinhos de valor e identidade própria.

Luís Godinho (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

«Pirr» — é o enólogo Nuno Rodrigues quem o explica — «é uma homenagem à característica do terroir que nós aqui temos. É uma palavra galaico-celta que significa brisa suave. E nós, nesta propriedade aqui em Almodôvar, com alguma altitude e virados a norte, temos sempre esta brisa atlântica, que se sente quase todos os dias ao longo do ciclo vegetativo da vinha».

Pois Pirr ficou. E a entrada no mercado — está aí a primeira colheita — fez-se pela porta grande, com a obtenção do maior troféu da XII Gala «Melhores Vinhos do Alentejo», organizada pela Confraria dos Enófilos do Alentejo.

O melhor branco de 2025 é o Pirr Colheita 2023, vinho de excelente concentração aromática, muito fresco, equilibrado e com notas minerais. É feito maioritariamente com as castas Verdelho (40%) e Sauvignon Blanc (30%), a que se juntam Alvarinho (20%) e um pouco de Arinto (10%). Depois de selecionadas em parcelas específicas, as uvas são colhidas manualmente, com fermentação em tanques de aço inoxidável ao longo de aproximadamente 30 dias.

«Este troféu foi uma grande surpresa», conta o enólogo, que esteve presente na gala acompanhado pelos investidores, a família Graham, proprietária da Birchall Tea, e assistia ao anúncio dos vinhos premiados longe de imaginar que o melhor estava guardado mesmo para o final. «Achávamos que podíamos fazer a diferença e ter um vinho medalhado, com algum destaque, mas nunca pensámos que iríamos ganhar um grande ouro, e ser o melhor de 2025, desde logo porque somos uma marca nova, foi a primeira vez que fizemos vinho branco».

Para aqui chegar, conta Nuno Rodrigues, foram necessários 10 anos «de bom planeamento, de dedicação a conhecer a região, o potencial das castas neste terroir, plantar as vinhas e trabalhar os detalhes. Isso acabou por fazer a diferença e deu-nos uma responsabilidade acrescida». Agora é necessário demonstrar que «não se tratou de sorte de principiante, mas da afirmação de um projeto consistente, com a fasquia colocada a nível elevado».

O projeto arranca em 2014, quando a família Graham começou a procurar terrenos, no Alentejo, onde pudesse instalar uma vinha. «Aproveitando aquilo que a região já estava a fazer, queriam montar um projeto de vinhos numa dessas oito sub-regiões para puxar pela marca Alentejo». Tratava-se de saber onde, até que a Herdade dos Toucinhos, em Almodôvar, encostada à serra do Caldeirão, se revelou como hipótese a ter em conta. «Não havia qualquer vinha, e então os investidores pediram a colaboração da Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo (ATEVA) para estudar se haveria condições edafoclimáticas favoráveis à produção de vinho, o que foi validado. A partir daí investiram na diferenciação para produzir algo único dentro do Alentejo».

A compra da propriedade ocorre em outubro de 2014. Os 82 hectares de vinha começam a ser plantados em 2016, em solos xistosos, muito pobres, a uma altitude entre os 350 e os 400 metros, numa zona — como já se contou — de brisas suaves, mesmo no pico do verão. «As questões de pormenor mais técnico foram descobertas à posterior, mas tudo isto permite uma diferenciação do produto. Os solos muito pobres, de pouca produtividade, são uma vantagem para os vinhos de grande qualidade, a exposição atlântica foi descoberta depois», conta o enólogo, sublinhando que o índice Winkler, um indicador que mede a acumulação de temperaturas durante o ciclo vegetativo da videira, permite delinear uma mancha no concelho de Almodôvar, «muito mais fresca em relação ao Alentejo interior».

Aqui, não conta tanto a temperatura extrema do verão, mas sim o acumulado de temperaturas durante o ciclo da videira. «E Almodôvar — garante — tem uma temperatura mais baixa do que no resto da região, uma diferença de microclima que tivemos em conta para adequar as castas e o encepamento». Além das condições de terroir, foi igualmente decisivo um estudo para projetar as perspetivas de consumo das várias faixas etárias, antecipando a procura por «vinhos mais delicados, com mais elegância e menos álcool».

Nos 82 hectares de vinha predominam, nos tintos, as castas Alicante Bouschet, Aragonês, Touriga Nacional e Touriga Franca. Nos brancos, Sauvignon Blanc, Verdelho, Arinto e Alvarinho que, «não sendo consensual, é uma das mais plantadas». Segundo Nuno Rodrigues, a década de amadurecimento da vinha permitiu-lhe «ganhar maturidade» e deu tempo «para perceber qual era o perfil de vinhos» produzidos. «Fizemos trabalho em adegas externas, vendemos uva para vários parceiros e fomos fazendo microvinificações para perceber a maturação e evolução dos vinhos. Até chegarmos a 2022, quando fizemos os primeiros tintos, e a 2023, quando fizemos os brancos. De 2018, quando se fez a primeira vindima, até 2022, tivemos quatro anos de ensaios para validar se aquilo que tínhamos planeado se vinha a concretizar».

O portefólio inicia-se pelos colheita (tinto, branco e rosé), vinhos que «representam anualmente o que temos presente na herdade», seguindo-se os reservas branco (2023) e tinto (2022), que, segundo o enólogo, resultam da «aposta, desde a poda, para que alguns talhões possam produzir uma qualidade superior». Quanto a perfis, a aposta vai para «vinhos com frescura, com profundidade, mas não enjoativos, com um álcool mais moderado, com taninos mais maduros, para que não haja a sensação de um vinho muito encorpado, mas sim de um mais delicado e elegante».

A «elegância» e a «complexidade» resultam igualmente da grande diversidade de castas — 12 para brancos, 14 para tintos —, cada uma delas instalada em várias parcelas da vinha, com diferentes altitudes e exposições, colhidas em momentos e com maturações distintas. Lembra Nuno Rodrigues que «uma mesma casta vindimada uma semana depois já apresenta perfis aromáticos diferentes» e que «cada um dos terroirs acrescenta características específicas ao vinho», surpreendendo o consumidor.

Para já, a produção ainda é pequena, tendo chegado ao mercado as primeiras 14 mil garrafas, num potencial de 600 mil. O investimento foi de 11 milhões de euros. E a dimensão da vinha coloca já a Herdade dos Toucinhos entre os 20 maiores produtores da região.

«É uma marca que se pretende que seja das importantes no Alentejo», refere o enólogo, reconhecendo o «arrojo» de um projeto com «custos de produção mais elevados, em solos de baixa produtividade e um posicionamento numa gama superior», numa altura em que o consumo tem vindo a cair.

«Enquanto outros procuram baixar preço, nós procuramos aumentar valor. Não é aumentar preço sem mais nada, é levar valor ao consumidor. O nosso preço resulta das camadas de valor que damos ao vinho. Estamos numa zona de baixa produção, com diferenciação, com castas limitadas na sua produtividade. Acreditamos que o consumidor mais exigente estará disposto a pagar por isso, porque também acreditamos que o consumo de vinhos massificados pode vir a diminuir», refere, não deixando de recordar que os vinhos do Alentejo são também «um referencial nacional de sustentabilidade».

Pirr Colheita Branco 2023

Verdelho, Sauvignon Blanc, Alvarinho e Arinto

Notas de prova | Apresenta excelente concentração aromática. Tem cor amarela com tonalidades esverdeadas e aspeto cristalino. O aroma é expressivo e complexo, com notas frescas de citrinos, elegantemente complementadas por nuances de pêssego e alperce. No paladar, é muito fresco, com bom equilíbrio e persistência. Notas minerais subtis acrescentam-lhe caráter distintivo.

Uma resposta

  1. Penso que sim em tudo o que é descrito, nas falta a adega para o vinho ser totalmente genuinamente de Almodôvar, parabéns pela resiliência demonstrada.

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