No próximo dia 16 de maio, o Regenerative Wine Fest regressa à Herdade das Servas, consolidando-se como um dos mais relevantes espaços de reflexão em Portugal sobre a agricultura e a viticultura regenerativa. Nesta edição, o encontro amplia o número de produtores envolvidos e aprofunda um debate que já extravasa o domínio técnico, convocando questões ambientais, económicas e culturais em torno do futuro do vinho.
Reunindo 15 produtores de diferentes regiões vitivinícolas, o encontro espelha a progressiva afirmação de um modelo agrícola que se apresenta como alternativa à viticultura intensiva. Em causa não está apenas a mitigação dos impactos das alterações climáticas, mas uma revisão mais estrutural da relação entre produção agrícola e ecossistemas, num contexto de degradação acelerada dos solos.
«Esta é uma iniciativa coletiva, porque a transição para a agricultura regenerativa tem de ser um projeto unificador ao longo de toda a cadeia de valor», afirma Luís Serrano Mira, anfitrião do evento. A formulação é reveladora de uma mudança de paradigma, onde produção, distribuição e consumo são pensados como partes interdependentes de um mesmo sistema. «O objetivo é esclarecer, inspirar e promover soluções que possam colocar Portugal na linha da frente da viticultura regenerativa», acrescenta.
Ao longo do dia, o programa articula diferentes formatos, cruzando conhecimento científico, prática agrícola e experiência sensorial. Entre as 10h00 e as 18h00, decorrem provas de vinho contínuas, complementadas por sessões temáticas como «Regenerativa, prática real ou narrativa?» ou «Quem paga a transição regenerativa?», que evidenciam a maturidade crítica do debate. As chamadas «conversas no campo» transportam os participantes para a vinha, permitindo observar no terreno práticas concretas e os seus impactos na estrutura do solo e na biodiversidade.
A componente gastronómica reforça a ideia de sistema integrado. Ao almoço, propostas informais baseadas em produtos de origem regenerativa procuram traduzir, no prato, os princípios discutidos na vinha. Já ao jantar, o restaurante da herdade recebe um menu de degustação assinado pelo chef Ricardo Gonçalves, num exercício de coerência entre agricultura e cozinha.
Do ponto de vista técnico, Renato Neves, diretor de viticultura e enologia da Herdade das Servas, sublinha que a agricultura regenerativa «tem como pilar a regeneração dos solos e dos ecossistemas circundantes». A sua leitura insiste na centralidade do solo enquanto sistema vivo, onde a interação entre microrganismos, matéria orgânica e plantas determina a saúde da vinha.
«Um solo nutrido e naturalmente equilibrado produz plantas e animais saudáveis», afirma, acrescentando que este equilíbrio reduz a necessidade de insumos externos e potencia a resiliência das culturas. A questão estende-se ao próprio vinho. Embora rejeite a ideia de um perfil organolético específico associado à viticultura regenerativa, o responsável admite que a maior diversidade microbiológica das vinhas pode traduzir-se em uvas mais ricas em compostos secundários, contribuindo para vinhos com maior expressão territorial.
O Regenerative Wine Fest posiciona-se, assim, como um espaço de interseção entre ciência, prática e cultura. Num território como o Alentejo, onde a viticultura tem sido marcada por processos de intensificação produtiva nas últimas décadas, a emergência deste movimento sugere uma inflexão significativa. A regeneração deixa de ser apenas um conceito técnico e passa a configurar-se como uma proposta de reorganização do sistema agrícola e alimentar.
Resta, contudo, uma questão decisiva: saber se a adesão crescente à agricultura regenerativa se traduzirá numa transformação estrutural do setor ou se ficará circunscrita a um nicho de produtores. Parte da resposta começará a desenhar-se em Estremoz.









