Com o título «Respondo por mim», o estudo biográfico de 342 páginas é da autoria do jornalista Rui Bondoso, tem a chancela das Edições Esgotadas e prefácio de António Cândido Franco, escritor, investigador e ex-professor da Universidade de Évora.
Orlando Neves nasceu em Portalegre a 11 de setembro de 1935 e morreu no Porto a 24 de janeiro de 2005. A autarquia descreve-o como poeta, ficcionista, dramaturgo, jornalista, tradutor, diretor literário, programador e animador cultural, cineclubista e «dono de um sem-fim de outras facetas culturais».
Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa em 1958, «optou por seguir o rumo das letras e do jornalismo cultural», tendo publicado 107 livros de todos os géneros literários e traduzido mais de 150.
«Figura central da resistência cultural durante a ditadura, marcou o espaço público pela sua intervenção cívica», refere o município.
Assinou críticas literárias e teatrais «em jornais de referência» como República, A Capital, Expresso, Diário de Notícias e A Luta. Foi vice-presidente do Clube de Jornalistas e da Casa da Imprensa, diretor literário do Círculo de Leitores e da Portugália Editora, e criou a editora DiAbril e as livrarias Divulgação, no Porto, e Opinião, em Lisboa.
Na televisão, foi autor e apresentador de vários programas, entre eles «Manta de Retalhos», da RTP. Na rádio, cofundou na Rádio Comercial o «Pão com Manteiga», que a câmara classifica como «um dos programas mais célebres da história da rádio em Portugal, que mudou de modo radical a forma de fazer humor no país». No teatro, assumiu a encenação em «palcos consagrados» como o Teatro Nacional D. Maria II e a Fundação Calouste Gulbenkian, e foi também diretor do Teatro Experimental do Porto.
Como poeta, foi galardoado dez vezes e, segundo a autarquia, «muito elogiado por escritores e críticos literários renomados», como João Gaspar Simões, Fernando Namora, Lídia Jorge, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Natália Correia e Mário Cláudio.
Carlos Garcia de Castro defende mesmo que «seria já tempo de se fazer um estudo aprofundado e abrangente deste escritor, ou em ensaio de especialista, de académicos, ou em seminário dos cursos de Português nas faculdades, ou tese para outras provas de conclusão universitária».
No livro, Rui Bondoso lamenta, segundo o município, que quase toda a obra de Orlando Neves «viva atualmente numa névoa difícil de explicar nos tempos que atravessamos».
«Hoje, a força que submerge a criação já não usa o lápis azul da ditadura, mas sim o manto invisível da indiferença mercantil. Se a ponta visível do icebergue de Orlando Neves ainda flutua através dos seus admiráveis dicionários e obras de consulta, a sua densa produção ficcional, poética e teatral permanece injustamente submersa», escreve o autor, alertando que «esta amnésia cultural priva as novas gerações de um olhar satírico, humanista e profundamente livre sobre a nossa história contemporânea».
E conclui: «Resgatar a sua genialidade multifacetada não é, por isso, um mero exercício de nostalgia; é um ato de resistência contra a homogeneização do pensamento.»
«Respondo por mim» é a segunda biografia assinada por Rui Bondoso, que em abril de 2024 publicou «O editor esquecido: Eduardo Salgueiro e a Editorial Inquérito», obra «muito aclamada pela crítica e pelos leitores», segundo a câmara, que chegou recentemente à quinta edição.











Uma resposta
Texto de NS a ofertar aos assistentes da Sessão no final da intervenção do autor – um dos poemas dele de que Orlando Neves mais gostava.
“PORTALEGRE
A cidade, com o tamanho que lhe é próprio, cresce na noite até ao alvorecer. Os sonhos dos habitantes das casas imersas na escuridão que pouco a pouco se desvanece, vão apanhar o dia pela sua cabeleira de claridade. As cidades têm nome. Secreto ou simbólico, ele é contudo o nome que as caracteriza, dado pelos séculos ou pela inspiração do Mundo.
A cidade… Como um pássaro numa árvore da aba da Serra a vejo agora, a podemos ver agora. Cidade de ruas estreitas onde os desejos e os sentimentos, as amarguras e os dias felizes, os antigos passos cadenciados de carruagens desaparecidas, hábitos desaparecidos, rostos e figuras desaparecidas, deixaram uma sombra de nostalgia. Cidade de coisas novas envolta em passado e ruídos novos, cidade de monumentos onde o espírito cruzou o espírito, onde a grandeza se fixou em pedra, em madeira, em arabescos, em cores indistintas. Cidade que roda como um rosto amado num espelho de casas e nuvens rumorosas. Cidade de torres, cidade de vistas largas onde por vezes a paisagem alarga as vistas curtas. Por estas ruas és feita de passos cadenciados, estas ruas que circundam o teu corpo cravejado de portas, de lugares fecundos, de ausências, de desejos e espantos, de naturalidade e fé, de bondade e de maldade, do sereno existir duma cidade. Povoação de telhados confusos, cruzados, de chaminés com seus fumos, com seus lutos, com seu adivinhar de varandas e ninhos de gente. Cidade das ruas velhas e sonolentas, ásperas, doces e pérfidas, ruas quotidianas sempre diferentes, sempre abertas aos ventos, ao sol, ao revoar das lembranças daqueles que te sentiram com eles dando a volta ao mundo em que existes e te perpetuas. A velha rua dos Potes, do Comércio, a Corredoura, a rua dos Canastreiros, os teus largos diversos – numa casa só se podem adivinhar. Perene regra de vida que é esta em que me é definido o teu povo anónimo e mulheril, viril e pobre, rico de semelhanças com o povo de outrora, de outras terras, da terra mãe que é a terra do homem do dia-a-dia, eterno no seu rumorejar cordial e absorto, com bocas abertas para o riso e a maledicência, para os nomes da ironia e da piedade. Cidade de árvores citadinas, civilizadas, mas que não perderam ainda o seu ar de mistério natural. Cidade de portas vermelhas, de gaiolas e engaiolados, de roupas e gente pendurada, de frutos e de tostões, de igrejas e misericórdias, de impiedade e destino certo, cidade audaz e nobre, loquaz e linguareira, cidade de nomes de gente que a gente inventou, cidade onde os quartéis se entrecruzam com a memória do passado, heroicidade e frustres vivências. Cidade de santos e cruzes para os sete reinos de santidade e perdão, cidade que ao trabalho consagra os dias da sua viagem rotineira, cidade de brazões, de motas, de carroças no mercado, de automóveis e operários, de arte e de artistas, de pessoas que comem e que procuram comer, cidade de contrastes e proibições, cidade melancólica, soturna, alegre, robusta e mercantil, de cabritos e veterinários, de coisas de barro e do barro das coisas que se multiplicam, cidade de brinhol e café, de poeira e polícias, de legumes dentro do desejo incompleto dos nostálgicos do Oceano, pois a fauna do mar das cidades é inconfessável. Se dos teus monumentos me aparto à realidade os concedo: cidade de palácios e azulejos, cidade de pedra e cal onde as fontes iluminadas de figuras e estátuas, de relevos e volutas, de tradição e lenda desenham nas casas senhoriais um segmento de realidade temporal. Cidade das janelas e dos longes do além, a voz que de ti me chega é dolente como o ruído das praças por onde se expande a vida dos que te habitam e te visitam. Cidade de jardins onde o amor se acolhe e surge. Cidade de jardins suspensa no fremir dos cafés, dos cantinhos da má-língua, da gente que toda a gente conhece, da gente que não se sabe se é realidade ou hábito, gente de nomes sonoros, de tradição sabida, nomes que estalam na língua como um pregão, cidade justa e injusta, atenta e desastrada, nobre cidade onde por vezes os homens não se medem aos palmos. Cidade prenhe de velhos, vasos a caminho de outra vida cidadã, plantas que o tempo vai lançar noutra floresta, cidade de árvores e arbustos sob as estrelas e a lua, no suor dos Verões, no pó da velhice que é humana e perdura. Cidade onde à juventude se pode dizer que um lugar será diferente se o olharmos com olhos intactos, generosos. Cidade de lagos domesticados e serenos, cidade que se vê e se apalpa, se passeia e se canta, cidade sentada no jardim e sobre os seus pensamentos. Cidade onde há sempre uma flor à entrada dos sonhos dos poetas de bronze e de carne palpitante, onde as flores podem ser de ferro para as estátuas amarguradas. Cidade dos castelos entre entontecidos e maravilhados, cidade que agrada às crianças, cidade da chuva e das vielas, das serras azuladas ao crepúsculo do cantar dos campos, do casario, dos miradouros e das sombras, cidade de linhas trémulas na noite que se expande contra o seu rosto pouco a pouco diluído, pouco a pouco sumindo-se numa outra viagem para o sono dos homens, do mundo, das cidades onde a frescura corre já anoitecida, inocente e imutável, cidade que se conserva desenhada, fantástica, harmoniosa e prudente no coração das casas e dos que a habitam com o seu indistinto e saudoso aceno de despedida.”
No diaporama “Em Portalegre, cidade”
ns