Pintor, desenhador, gravador, muralista e ilustrador, construiu uma obra marcada pela atenção à condição humana, ao trabalho e às tensões sociais do seu tempo, integrando-se num movimento que procurou dar expressão artística às realidades vividas pelas classes populares.
A sua formação artística iniciou-se na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, prosseguindo depois estudos na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Este percurso académico decorreu num contexto de forte efervescência cultural e política, em que o neorrealismo se afirmava como uma corrente estética e ideológica, influenciada por valores de inter- venção social e por uma clara oposição ao regime do Estado Novo.
Rogério Ribeiro integrou esse universo artístico, convivendo com nomes centrais do neorrealismo plástico, como Júlio Pomar, e participando numa geração que procurou romper com uma arte desligada da realidade social. A sua obra evidencia essa preocupação, através de composições que exploram o quotidiano, o trabalho e a dignidade humana, frequentemen- te com uma linguagem figurativa depurada e uma forte componente simbólica.
Ao longo da sua carreira, desenvolveu uma produção diversificada, que abrange não apenas a pintura de cavalete, mas também a gravura, a ilustração e a azulejaria. Esta multiplicidade de suportes revela uma preocupação em levar a arte a diferentes contextos e públicos, mantendo uma coerência temática centrada na experiência humana e social. A sua intervenção no espaço público, através de obras murais e projetos de integração artística, reforça essa dimensão de proximidade entre arte e comunidade.
Para além da atividade artística, Rogério Ribeiro teve também um papel relevante no ensino e na dinamização cultural. Foi professor e esteve ligado a projetos museológicos e educativos, contribuindo para a formação de novas gerações de artistas e para a valorização das artes visuais em Portugal. A sua intervenção cívica e cultural inscreve-se na tradição neorrealista de compromisso com a sociedade, onde a arte é entendida como instrumento de reflexão e transformação.
É também nesta dimensão que a crítica de arte tem sublinhado a singularidade do seu percurso. Num texto publicado na Artecapital, Catarina Rosendo observa que a obra de Rogério Ribeiro «abre-se a uma relação intensa com o texto e com a palavra, numa articulação entre imagem e pensamento que ultrapassa a leitura imediata». A autora acrescenta que «não se trata apenas de representar o real, mas de o interrogar, de o proble- matizar através de uma linguagem plástica exigente».
A mesma análise destaca ainda que «Rogério Ribeiro constrói uma pintura onde a figura humana surge como território de tensão, de memória e de inscrição histórica», sublinhando a forma como o artista se afasta de um realismo meramente descritivo. Nesse sentido, «a sua obra evolui de um neorrealismo mais ortodoxo para uma linguagem mais complexa, onde o simbólico e o conceptual ganham crescente importância».

Esta evolução é visível na forma como o artista incorpora elementos de experimentação formal, sem nunca abandonar a preocupação com o humano. Como refere ainda Catarina Rosendo, «há uma persistência ética na obra de Rogério Ribeiro, uma recusa em desligar a prática artística das questões do seu tempo», o que o coloca numa posição particular no panorama artístico português.
A sua obra não se esgota, contudo, numa leitura estritamente ideológica. Ao longo do tempo, evoluiu no plano formal e expressivo, incorporando novas abordagens e aprofundando a dimensão plástica do seu trabalho. Essa capacidade de reinvenção permitiu-lhe afirmar uma identidade artística própria que, embora enraizada no neorrealismo, dialoga com outras correntes e linguagens da arte contemporânea.
Rogério Ribeiro faleceu em 2008, em Lisboa, deixando um percurso consolidado no panorama artístico nacional. A sua obra encontra-se representada em diversas coleções públicas e privadas, sendo objeto de estudo e de revisitação crítica no contexto da história da arte portuguesa do século XX.
Preocupação com o social
Ainda que o seu percurso se tenha desenvolvido maioritariamente em Lisboa, o contexto social e cultural do Alentejo — marcado pela ruralidade, pelo trabalho agrícola, pelas desigualdades sociais e por uma forte densidade humana — aproxima-se do universo temático que o neorrealismo procurou representar.
De acordo com o Museu do Neorrealismo, a obra do artista inscreve-se numa «preocupação com a realidade social e humana», traço distintivo do movimento. Essa dimensão encontra eco no ambiente de onde partiu, onde as relações entre trabalho, comunidade e condição social assumem particular intensidade.
A matriz alentejana, mesmo que não seja explorada de forma direta ou regionalista, contribui para uma sensibilidade artística orientada para o humano, para o coletivo e para a representação de tensões sociais, elementos centrais na construção da sua linguagem plástica.












