Romaria Moita-Viana do Alentejo de regresso com 150 quilómetros de fé e tradição

Está de regresso a Romaria a Cavalo Moita-Viana do Alentejo, levando centenas de romeiros a refazer, ao longo de cinco dias, um percurso de cerca de 150 quilómetros marcado pela fé, pela tradição e pela memória coletiva. Mais do que um evento, é um reencontro com raízes antigas que continuam a unir gerações vindas de diferentes pontos do país.

Júlia Serrão (texto)

Até ao próximo domingo, centenas de romeiros voltam a percorrer cerca de 150 quilómetros de caminhos de terra batida, a cavalo ou de carroça, numa romaria que se diz remontar ao início do século passado, quando os agricultores da Moita se deslocavam a cavalo ao Santuário de Nossa Senhora d’Aires, em Viana do Alentejo, para benzer os seus animais e pedir proteção e boas colheitas.

Não se conhecem fontes documentadas sobre a tradicional romaria a cavalo, que não se terá realizado durante mais de 70 anos, tendo sido recuperada em 2001. Luís Baltazar, presidente da Associação Equestre de Viana do Alentejo, que começou a participar na romaria «ainda muito novo, logo desde a terceira edição», diz que, quando se retomou esta tradição, «as pessoas mais velhas ainda se lembravam de acontecer» há muitos anos «e contavam histórias sobre a romaria religiosa» que juntava os lavradores dos concelhos de Viana do Alentejo e da Moita no Santuário de Nossa Senhora d’Aires.

«Hoje, continua a ser um evento religioso, com a bênção dos animais, mas com moldes um pouco diferentes», havendo também uma componente de convívio entre centenas de romeiros.

O percurso da romaria teve início na Moita, com a bênção da imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, que acompanha os romeiros na jornada, e termina com a chegada a Viana do Alentejo e a celebração religiosa de acolhimento, seguida de uma procissão em honra de Nossa Senhora d’Aires. Este cortejo é feito a pé e acompanha as imagens de Nossa Senhora da Boa Viagem e de Nossa Senhora d’Aires, sendo que alguns participantes também se deslocam a cavalo.

A Romaria a Cavalo Moita-Viana do Alentejo, agora na sua 24.ª edição, é organizada pelas autarquias de Viana do Alentejo e da Moita, pela Associação Equestre de Viana do Alentejo e pela Associação de Romeiros da Tradição Moitense.

«O ano passado éramos 70», comenta Luís Baltazar, referindo-se aos elementos que compuseram o grupo da Associação Equestre de Viana do Alentejo, ao qual pessoas de outras freguesias se têm vindo a juntar. Já chegaram «a ser mais de uma centena», nota, para explicar que no passado havia menos grupos, mas com mais elementos cada um. «Hoje em dia, fazem-se grupos mais pequenos que vão em família. A esposa leva a carroça e o esposo vai a cavalo, ou vice-versa.»

A chegada a Viana do Alentejo é sempre vivida com «grande emoção», observa o presidente da Câmara, um «profundo conhecedor» desse momento, mas «não tanto» do percurso da romaria. Este é o primeiro mandato de Luís Metrogos à frente da autarquia. «É um dos eventos mais exigentes em termos de organização, tanto pela mobilização de pessoas como pelos acordos que é preciso fazer com os proprietários para a passagem dos romeiros e pela preparação dos caminhos. Há um vasto conjunto de problemas que é necessário tratar num curto espaço de tempo.»

Vista de fora, nem sempre a complexidade da organização da Romaria a Cavalo é percecionada por todos. Enquanto autarca, Luís Metrogos diz ser «um gosto receber a romaria pela primeira vez» e contribuir para que a festa aconteça, sublinhando que «a promoção do património religioso é essencial» para o município.

O autarca fala na importância de manter viva esta tradição, que diz ter «muito a ver com resiliência» e com a capacidade de mostrar «que a parceria entre as quatro entidades se mantém». Depois de um inverno «com intempéries muito acentuadas», realizar a romaria é «uma prova da resiliência destes dois municípios e destas duas associações, que têm de preparar tudo, eu diria que com mais exigência do que nos anos anteriores».

Evoluir e otimizar o evento ao longo dos anos é uma preocupação da comissão organizadora, constituída pelas quatro entidades. «Temos tentado trazer melhores condições aos romeiros, aos participantes» e a toda a logística necessária, observa Luís Baltazar, referindo-se aos grupos de pessoas que levam viaturas de apoio e que, a cada paragem, recebem os romeiros montando tendas e servindo água e refeições.

O percurso de 150 quilómetros em caminhos de terra batida, que já apresenta os seus próprios desafios e constrangimentos, exige cuidados redobrados depois de um inverno rigoroso. «Apesar de a organização estar empenhada em fazer o máximo de reparações possíveis com a ajuda dos proprietários», as dificuldades deverão ser maiores. Com esta certeza, na apresentação oficial do evento foi pedido aos romeiros uma «maior atenção com a preparação dos cavalos e para se adequarem com os veículos que vão trazer para a logística, para tentarmos que tudo corra bem».

O presidente do município lembra ser «tradição» embelezar as ruas da vila para acolher a festa, enfeitando as janelas com flores e objetos relacionados com a romaria. «Depois há um concurso feito por um júri independente que atribui um prémio à melhor decoração. Cria-se um bom ambiente, que é vivido nas ruas e, espero, mais do que nos anos transatos, no Santuário de Nossa Senhora d’Aires», uma vez que este ano «a festa e receção passa» para a capela da padroeira — sendo esta a única alteração relativamente às edições anteriores.

A duração da romaria mantém-se nos cinco dias, tal como o percurso, «com paragens nos mesmos sítios, se o tempo permitir», num evento apadrinhado pelo apresentador de televisão José Figueiras.

Segundo Luís Metrogos, a chegada dos romeiros a Alcáçovas, uma das três freguesias do concelho, precisamente no dia 24 de abril, será aproveitada para «fazer uma festa dedicada ao 25 de Abril e, ao mesmo tempo, de receção a todos os participantes». Os festejos repetem-se «no sábado durante a tarde e à noite no Santuário».

A Romaria a Cavalo Moita-Viana do Alentejo constitui um importante acontecimento para promover o turismo religioso e cultural do concelho e da região, contribuindo para a sua dinamização económica. «É bom para o comércio, para a restauração e para os alojamentos, pois nesses dias tudo fica cheio. Viana fica cheia de gente», comenta Luís Baltazar, dando conta de que os alojamentos já estão completamente esgotados e que, nos restaurantes, as marcações não param de subir.

2 Responses

  1. É uma festa muito bonita, religiosa, marcada pela fé, a chegada dos romeiros é realmente um acontecimento digno de se ver. Gosto muito, é maravilhoso.

  2. Sem dúvida um evento digno de ser vivido e acompanhado.
    Um grande bem haja a todos os participantes, que fazem deste evento uma verdadeira festa equestre, durante o percurso. Á partida , e á chegada.
    Bem hajam .
    Parabéns á organização, por me proporcionarem , dos dias mais felizes do ano.
    Obrigado até pro ano.

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