Rui Arimateia: «Cidade do tempo longo, Évora explica-se pelo vagar»

Existe na língua portuguesa, e mais concretamente no vocabulário vernacular alentejano, uma palavra forte que, para mim, define inteiramente o alentejano na sua relação com os outros e com o mundo: a palavra vagar! Identificada desde logo com a figura telúrica do pastor do Alentejo profundo.

Rui Arimateia (texto)

Aquando da utilização do vocábulo vagar pela equipa de missão da candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura, de imediato muitos se questionaram sobre o conceito. O que é? O que significa esta palavra para o alentejano? Porquê a sua escolha? Atrevo-me a sugerir desde já dois significados para a palavra vagar: o primeiro como sinónimo de disponibilidade; o segundo como sinónimo de contemplação. A primeira numa abordagem mais psicológica do conceito e a segunda mais mística e espiritual.

O vagar é, no fundo, um conceito tão vago e etéreo como o da palavra saudade, sem tradução corrente nas outras línguas e para os outros povos. Esta palavra, segundo os dicionários, entre muitas outras coisas, poderá significar: «espaço de tempo necessário para fazer alguma coisa à vontade…». Intuímos, subjacentes, os conceitos de liberdade e de não-tempo.

Évora foi a única candidata a Capital Europeia da Cultura que apresentou uma palavra como título da candidatura, coincidindo esta com o principal conceito da mesma: o vagar. Para o ano de 2027 serão consideradas duas Cidades Europeias da Cultura, de dois países diferentes: Évora e Liepaja, na Letónia.

Foi a candidatura eborense considerada como tendo sido construída de um modo muito filosófico e poético, porque terá sido considerado pela equipa de missão que só assim seria possível dar a conhecer o vagar do alentejano, abordando em simultâneo um Alentejo em transformação e em mudança.

Seria também preciso dar a entender à Europa que uma autêntica dimensão europeia da candidatura deveria ser tocada por valores que para o alentejano são universais, dentro da sua área cultural, e que, através das muitas «diásporas» realizadas desde os longínquos séculos XV e XVI, ele exportou, com roupagens próprias, as manifestações intangíveis do vagar (contemplação e disponibilidade total), da saudade (o vínculo imperecível da raiz materna) e do estado amoroso (que se tem manifestado através do canto a vozes e da poética).

A memória, a identidade e a partilha tornaram-se as pedras basilares em que a idiossincrasia do alentejano, da tradição milenar, do tempo longo das suas vivências e das apropriações do território, fez repousar o vagar. O vagar aparece-nos, a partir de certa altura, enquanto elemento fundamental para refletirmos sobre o que entendemos ser a nossa identidade cultural. Temática que, pela sua própria natureza, é extremamente complexa e, por isso mesmo, extraordinariamente rica em hipóteses de abordagem e de intervenção.

No nosso caso, a identidade cultural prende-se fundamentalmente com o «ser alentejano», pois é caracterizada essencialmente pela língua, pelas tradições, pelos costumes, por toda uma idiossincrasia cuja existência só reconhecemos quando nos afastamos fisicamente do território de origem. Se o património cultural se pode caracterizar fisicamente, a identidade cultural pertence mais aos domínios psicológicos, mesmo espirituais, da relação do Homem com a Terra. É importante refletir em conceitos tais como pátria/mátria, religião (na perspetiva etimológica de re-ligare) e mitologia (os mitos de origem, o eterno presente, a saudade, a mãe, a Terra, a tellus-mater).

De facto, a identidade cultural não possui existência física palpável. Poderão identificar-se pontes culturais e vivenciais comuns, de comportamento, de «estar» e de «ser», entre indivíduos que vivem a mesma Terra, os mesmos ritmos. É importante considerarmos os ritos/ritmos humanos na construção harmoniosa de um viver em comum, assim como procurarmos em conjunto alguns daqueles «pontos em comum» que nos auxiliam a ver o alentejano enquanto alentejano: a cal, os grandes espaços, o silêncio, o canto a vozes, a contemplação e a solidão do Homem perante a natureza; os gestos e as linguagens seculares das artes e dos ofícios… No fundo, constituem-se como prática do estar e, principalmente, do ser que tão bem foi cantado pelos literatos e poetas, tal como Miguel Torga o fez:

«Évora, 14 de Fevereiro de 1942 – Rendo-me. Diante de uma realidade assim, rendo-me, e digo mais: que vale a pena, afinal, haver história, haver arquitectura, e haver respeito por quantos souberam ser antes de nós bichos e poetas do seu casulo. E por isto: porque até hoje, em Portugal, só esta terra me deu a justa medida e a justa prova da séria e humana pegada que deixaram no seu caminho nossos pais. Para que me surja vivo e sagrado aos olhos o que os meus antepassados fizeram, é preciso que a lição recebida seja ao mesmo tempo testemunho e destino. Ora nenhuma cidade nossa, salvo Évora, foi capaz de me dizer com pureza e beleza que eu sou latino, que eu sou árabe, que eu sou cristão, que eu sou peninsular, que eu sou português, – que eu sou a trágica mistura de sangue místico e pagão que fez de mim o homem desgraçado que sabemos».
(in «Diário II»)

Sendo Évora uma cidade em permanente construção, será pela diversidade de testemunhos que poderemos medir a importância relativa da cidade nas terras lusas. Desde muito antes do período da (re)conquista cristã existem escritos a descrever e/ou a cantar Évora: romanos, árabes, judeus e cristãos, todos eles deixaram o seu testemunho literário, poético ou em forma de crónica sobre a evolução da cidade e sobre as populações que por aqui residiram e passaram, deixando as suas pegadas culturais, as suas marcas, por mais indeléveis que se tivessem tornado.

Escritores e cronistas como Fernão Lopes e Garcia de Resende dão-nos a dimensão real da importância de Évora para a cultura e para a historiografia portuguesa. A tradição de escrever sobre a cidade e os seus habitantes desenvolveu-se até aos dias de hoje, com grandes figuras locais e/ou nacionais a deixarem o seu legado literário para as gerações vindouras. Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Antunes da Silva, Fernando Namora, Luís Carmelo, para só citar alguns, transmitiram-nos a visão, a experiência vivencial que tiveram com a cidade. Olharam-na, viveram-na, interpretaram-na e disseram-nos:

– Tomem, aceitem, esta é a «nossa» cidade, a cidade que nós próprios construímos no nosso íntimo, a partir das sensações e do conhecimento que nos transmitiram as pessoas, as pedras, as ruas, os edifícios e os monumentos que connosco interagiram durante um certo tempo da nossa vida. Fomos vulneráveis perante uma cidade em evolução e nós próprios, com toda a certeza, incorporámos um pouco da nossa experiência de vida a esta urbe, contribuindo para a sua coloração psicológica, que tem sido aglomerada e corresponde a esta realidade que hoje conhecemos.

A cidade de Évora de hoje é e não é, simultaneamente, a cidade de Évora de amanhã. Eis o paradoxo com que temos de viver e que nos dá a certeza de que nunca conseguiremos «dominar» a cidade. É ela que se nos impõe! Talvez através da «práxis» de uma filosofia do vagar consigamos compreender-nos e compreender Évora! Talvez.

Évora possui uma centralidade descentralizada. Como cidade, é uma realidade complexa e merecedora de uma atenção aprofundada e continuada. Encare-se a cidade não só sob a vertente do consumo e do consumismo, mas como possuidora de um espírito do lugar que é transformante, é apaziguador para quem a visita e nela pernoita! A noite e o silêncio são mágicos em Évora. É um desafio descobrir o olhar de um alentejano – o olhar onde transparece o vagar, a tranquilidade, a disponibilidade.

Por outro lado, o falar e o soar do alentejano apresentam-se como uma entoação poética, por vezes com uma musicalidade tal que encanta quem escuta! A vertente linguística, enquanto elemento caracterizador da área cultural do Alentejo, não deverá ser ignorada e muito menos esquecida. É urgente atentarmos e, se possível, darmos a palavra aos «operários da língua e da escrita», espalhados um pouco por todo o Alentejo. Nas associações, nos grupos informais, a escreverem nos jornais, a falarem nas rádios locais, ou tão-só no anonimato das suas casas.

O vagar, para o bem compreendermos, deverá ser sempre encarado sob uma perspetiva holística, significando totalidade, sacralidade, abertura, aceitação. Também o vagar se encontra muito identificado com disponibilidade, harmonia, poética… É um conceito/realidade recorrente e muito importante quando trabalhamos Évora e o Alentejo sob diferentes perspetivas e domínios de intervenção.

Paralelamente, deveremos ter em atenção o conceito do tempo longo, que marca indelevelmente a cidade de Évora e o seu território e paisagem, desde a sua fundação mítica até à contemporaneidade dos séculos XX e XXI. O vagar está para o microcosmos, para o homem alentejano, como o tempo longo está para o macrocosmos, para a urbe e o seu desenvolvimento neste território durante milénios.

Por outro lado, a cultura popular poderá e deverá constituir-se como uma autêntica autoestrada da comunicação interculturas, interpovos, intercivilizações. Numa intervenção sobre as culturas populares, nomeadamente as intangíveis, deveremos trabalhar com e dar a palavra aos detentores das manifestações – as comunidades, os grupos e os indivíduos.

Tenhamos em conta o exemplo singular das Brincas do Carnaval de Évora, em que, numa mesma manifestação, vamos encontrar a poesia e as décimas, a coreografia e a dramatização, a música e o teatro, as artes visuais e a declamação. Tudo isto se transforma numa performance cujo simbolismo mais profundo remete para um telurismo arquetípico de ritos solares arcaicos que tão bem caracterizam o Entrudo.

A uma globalização anónima e indiferente às especificidades e às riquezas intrínsecas de cada região, proponhamos conscientemente uma perspetiva de intervenção, de transformação e de desenvolvimento localizada, regionalizada, à medida das nossas necessidades e capacidades de evolução e de transformação em equilíbrio. Lembro-me de uma expressão significativa, muito utilizada há alguns anos e que hoje se encontra completamente atual, que importará recuperar: Small is beautiful.

O autor é etnógrafo e ex-diretor do Centro de Recursos do Património Cultural Imaterial de Évora

A imagem que ilustra este artigo é a fotografia de um quadro do pintor arraiolense Dordio Gomes

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 30,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar