Rui Arimateia: «O riso como construção social nos provérbios populares»

Os provérbios sobre o riso revelam toda a complexidade deste fenómeno psicossocial, estudado por filósofos desde Aristóteles até Freud. Veículo de crítica e libertação, o riso expõe-nos perante os outros. E é na sabedoria atemporal dos provérbios que melhor se lê o espírito humano.

Rui Arimateia, etnografo (texto)

O riso liberta, afina ou revela a alma de quem o desfruta?

Através da leitura atenta dos provérbios populares da tradição oral, principalmente aqueles cujo tema é exactamente o rir ou o riso, ficamos na dúvida se o riso liberta a alma ou a aprisiona, não a deixando mostrar-se tal como ela é realmente. Como podemos ver, a título de exemplo: «Muito riso, pouco siso», «No riso é o doido conhecido», «Ora rindo, ora chorando, o que é preciso é ir escapando».

Grandes filósofos ao longo da história da Humanidade debruçaram-se sobre o fenómeno do riso para o compreenderem — Aristóteles, Platão, Cícero, Schopenhauer, Bergson e até Freud — e para melhor compreenderem o espírito humano e as suas manifestações. Todos eles se ocuparam em «filosofar» o acto de rir.

Malvisto pela Igreja Católica durante muitos séculos — e quem não se lembra do extraordinário livro de Umberto Eco, «O Nome da Rosa»? —, o acto de rir e o riso foram durante muito tempo confundidos com o prazer e com o diabo. Considerados como uma economia de esforço, são alívios para o indivíduo angustiado, mas também podem ser alienação, protesto e libertação. O riso e o rir são, sem dúvida alguma, fenómenos psicossociais complexos.

Através de eras, o riso tem sido veículo de mensagem e de crítica social — tal como o assumiam o bobo e o histrião nas cortes medievais. E principalmente durante o Carnaval, manifestação que chegou até aos nossos dias, período por excelência onde sempre imperou o riso fácil, permitido, jocoso e zombeteiro — não obstante algumas, muitas, censuras ao longo dos tempos.

Quase se justifica afirmar que, no fundo, por meio do riso, corremos o risco de viver e de apreciar comportamentos desviantes, onde o oportunista, o provocador e até o iconoclasta se sentirão à vontade para rir sem qualquer pudor.

E voltemos aos provérbios, cujas mensagens implícitas nos possibilitam um conhecimento profundo da mentalidade da nossa cultura. Poderemos «ver» e «sentir» cada provérbio como uma autêntica gargalhada — pois o rir nos põe, de certa maneira, vulneráveis, nos põe nus, perante o olhar atento dos outros.

Com os provérbios percebemos os diferentes risos que nos caracterizam enquanto humanos. Se o sorrir possui, segundo os etologistas, uma base biológica, filogenética, inata no recém-nascido, também é certo que, com o crescimento do indivíduo e ao longo da sua vida, o riso se torna numa construção social, perdendo muito da espontaneidade inata e assumindo os temperamentos casuais da personalidade.

Os provérbios são autênticas pérolas da sabedoria universal e atemporal, onde a tradição e a sabedoria popular mais autênticas andam de mãos dadas. Discorrendo sobre inúmeros assuntos com uma economia de palavras impressionante, os provérbios abordam essencialmente uma praxis do quotidiano. São, no fundo, uma síntese dos infinitos saberes do povo, reduzidos à sua ínfima expressão conceptual — paradoxalmente, poder-se-ia dizer que «um provérbio vale mil palavras».

É uma sabedoria ligada essencialmente ao calendário tradicional do amanho da terra e da criação do gado, da meteorologia popular e das festas cíclicas religiosas. São igualmente definidores de uma moral popular e uma forma eficaz de controlo dos comportamentos sociais. São os melhores indicadores e reveladores da existência de um ethos e de um habitus cujas origens se perdem no tempo, mas que ainda chegaram aos nossos dias de forma refinada. São constituídos por palavras cuja mensagem intrínseca e cuja poesia nos encantam e simultaneamente nos deslumbram.

Os provérbios são as reminiscências de um saber arcaico que corremos o risco de perder nas actuais sociedades modernas e urbanas. Se isso acontecer, ficaremos mais pobres culturalmente, perdendo no quotidiano grande parte da sua poética, do seu engenho e da sua arte de bem viver.

Encaremos, maravilhados, a pluralidade dos provérbios, paradoxalmente coincidente com a unicidade do real no contexto da cultura popular. Os provérbios estão carregados de simbologia, de experiência e de ensinamento, fazendo significar no íntimo de cada sentença «aquilo que realmente importa». Muitos deles são contos supercondensados que, com a sua enunciação e verbalização, se transformam em tratados, em parábolas, em pérolas de sabedoria perene.

São palavras e frases que merecem toda a nossa atenção e uma reflexão cuidada e aturada, para que possamos ser mais e melhores homens e mulheres neste mundo onde o egoísmo, o conflito e a injustiça imperam. Tentemos então deslindar o significado mais profundo dessas pequenas-grandes sentenças. Ser mais humano é fazer com que as sociedades possam, passo a passo, finalmente mudar, e que a transformação qualitativa das mentalidades possa acontecer.

Deixamos de seguida uma pequena colecção de provérbios cuja profundidade ética e filosófica é admirável, tendo em conta que se propagaram no seio dos povos através de uma espaciotemporalidade que não conseguimos medir.

Os provérbios e o acto de rir

A dois dias de fevereiro, sobe ao outeiro: se a Candelária chorar, está o inverno a chegar; se a candelária sorrir, está o inverno para vir.

Após o riso, o pranto.

Aprende chorando e rirás ganhando.

As lágrimas são, quase sempre, o último sorriso do amor.

A vantagem é sempre de quem sorri.

Bem rirá quem rir por fim.

Boca de muito riso, cabeça de pouco siso.

Com Deus, nem rindo nem zombando.

Do sorriso da mulher nasceram as flores.

É frequente o riso, na boca de quem não tem siso.

Em qualquer situação, a vantagem está do lado de quem sorri.

Fazer rir é fazer esquecer.

Há risos que dão vontade de chorar e lágrimas que dão vontade de rir.

Há sorrisos que ferem como punhais.

Lágrimas de herdeiros, risos sorrateiros.

Lágrimas e sorrisos são a condição da vida.

Lágrimas nos olhos, risos no coração.

Muito riso, pouco juízo.

Muito riso, pouco siso.

Não abras loja se não tens um sorriso nos lábios.

Não há casamento sem choro, nem funeral sem riso.

Ninguém se deve rir de uma desgraça.

Ninguém se ri que não tenha chorado.

No riso é o doido conhecido.

No riso é o homem conhecido.

Onde há muito riso, há pouco juízo.

Onde há muito riso, há pouco siso.

Onde há muito riso, sempre há pouco siso.

O que ri por último ri melhor.

O rir e o folgar não é pecado.

O rir e o zombar não há-de passar de brincar.

O riso abunda na boca do tolo.

O riso é a trombeta da loucura.

O riso é contagioso.

O riso está perto do pranto.

Ora rindo, ora chorando, o que é preciso é ir escapando.

O sorriso é o sol do lar.

O sorriso reduz as distâncias.

O último a rir é o que ri melhor.

Pelo riso se conhece o tolo.

Pranto de herdeiro é riso sorrateiro.

Quem ri pode não estar alegre.

Quem se ri dos conselhos da prudência, da sua leviandade recebe a recompensa.

Quem se ri do mal do vizinho, o seu virá a caminho.

Quem se ri sem razão ter, ou é tolo ou está para ser.

Quem se ri sem ter de quê, dos seus defeitos se lembra.

Quem se rir sem ver de quê, seus maus feitos lembra ou os de alguém.

Quem sorri em vez de praguejar é sempre o mais forte.

Ri com quem ri e chora com quem chora.

Ri e o mundo rirá contigo; chora e chorarás sozinho.

Ri e todos riem contigo; chora e choras sozinho.

Ri melhor quem ri no fim.

Ri melhor quem ri por último.

Rindo se vai fevereiro porque lhe jejuam no seu dia.

Rir antes da boca engasga.

Rir às bandeiras despregadas.

Rir com um olho e chorar com o outro.

Rir e chorar deve ser devagar porque a tristeza pode acordar.

Rir é o melhor remédio.

Rir o roto do esfarrapado.

Rir para não chorar.

Rirá mais quem rir por último.

Ri-se das cinzas o carvão.

Ri-se o Diabo quando o faminto dá ao farto.

Ri-se o nu do mal vestido.

Ri-se o roto do esfarrapado.

Ri-se o roto do esfarrapado e o sujo do mal lavado.

Rir-se de tudo e não se preocupar com nada, vida grande e descansada.

Rir-se o sujo do mal lavado.

Ri-se o sujo do mal lavado e o roto do esfarrapado.

Risinho pronto, miolo chocho.

Riso hoje, choro amanhã.

Riso pronto, miolo tonto.

Riso quitado, riso dobrado.

Ri-te agora que logo choras.

Só ri das cicatrizes quem nunca foi ferido.

Sorri à vida e a vida sorrir-te-á.

Todos rirão, mas rirá mais quem rir por último.

Um riso satisfeito vale mais que cem gemidos.

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