Cresceu respirando o perfume das tábuas em madeira nos palcos de teatro. Aos sete anos estreou-se no Cine-Teatro da Covilhã, e não mais quis delas descer. “É um mal de família, que não passa”, ironiza o seu filho, João de Carvalho, 66 anos, ator e encenador, que sempre o acompanha, ajudando os 98 anos do pai, a relatar, a esmiuçar a vasta memória e experiência, que traz em si. Do cinema, televisão ou teatro, é indubitável a preferência pela arte cénica. “É onde se sente o calor do público e não existem paragens, temos de ser verdadeiros”, afirmou Ruy de Carvalho numa entrevista publicada na edição n.º 21 Alentejo Ilustrado (junho/2025).
Fazendo as contas, são 91 anos de carreira, sendo provavelmente o ator mais decano em atividade no mundo. Mas Ruy de Carvalho é, sobretudo, um poço de talento, de humanidade e de sabedoria, disposto a partilhar com todos, dando, sem querer, grandes lições de humildade a dezenas de estrelinhas artificiais, que hoje fingem brilhar na impostura televisiva portuguesa.
Questionei-o sobre Ribeirinho. “O Mestre Ribeirinho!”, corrigiu-me, “foi quem me ensinou e do tempo do Ribeirinho, de quando ele ensinava, só estou eu vivo”. Eu que sou fã do ator do “Pátio das Cantigas” e do “Pai Tirano”, filmes ícones do cinema luso, quis saber mais. “Era um homem muito exigen- te no trabalho que fazia, com ele e com os outros”, continua.
“Mas perto da sua hora de partir, pouco antes de falecer, disse-me: olha, desculpa a minha exigência Ruy, mas valeu a pena, não valeu?” – a voz do ator torna-se subitamente trémula, pela recordação do mestre e amigo. O seu filho vem secundá-lo: “Nesta arte, para ser conseguida, temos de ir ao fundo de nós. Um bom mestre leva-nos a esgotar os recursos que temos em palco, mesmo que nos meta a chorar, em desespero, perto da desistência… o mestre sabe, só se pede esse esforço a quem tem capacidade”.
Continuando: “Uma vez, durante os ensaios de uma peça, o Ribeirinho, que a encenava, estava há horas a dar cabo da cabeça ao meu pai. Então, a dado momento, vendo o Ruy enervado, pelos cabelos, vira-se para a minha mãe que assistia e diz: agora, é que ele está a ficar como eu gosto”. Apesar daquele ar frágil, inseguro, que interpreta em vários papéis da idade ouro do cinema português, Ribeirinho era um profissional implacável, um professor de arte dramática muito duro.
“Mas essa é que é a exigência! Hoje faz-se tudo com pouca exigência”. Pergunto sobre o que é feito dos dramaturgos portugueses. “Não sei. Não valorizamos aquilo que de bom, temos”, responde. “Vou contar-lhe uma história”, prossegue: “Havia uma escritora, Mary Love, e o público comprava e apreciava os seus livros. Quando passou a assinar com o seu nome português, Alice Ogando, as pessoas já não compravam”.
Pergunto se existe vergonha na cultura portuguesa? “Nós temos muita qualidade, mas temos uma sensação de inferioridade que eu não percebo”, concorda. “Vou dizer-lhe: tenho muita esperança nesta nova geração, que se interessa pela cultura e vai ao teatro. Cada um quer pensar por si”. Ao que João de Carvalho completa a resposta: “E temos bons atores, o que provoca essa ideia de vergonha é a má qualidade do que passa nas televisões. Felizmente as novas gerações não vêem TV. E isso liberta-os”.
Ruy interrompe o filho, cheio de energia na voz: “Há um que aprecio muito, o Renato Godinho, que é um ator espantoso”. “Mas há mais”, completa João, “o Diogo Morgado, por exemplo, que é fantástico. O nosso dever é aprender com eles, mas também de passar o nosso conhecimento”. Ruy ressalva também a qualidade do seu neto, como ator, e claro o seu filho João.
Relembro tempos antes de mim, quando as companhias de teatro vinham de Lisboa até à província, espalhando talento e dramaturgia pelo país fora. “Sim, é verdade”, afirma Ruy de Carvalho, lembrando que um dos grandes promotores desse movimento foi Vasco Morgado.
Outra razão para o empobrecimento na divulgação cultural prende-se com a estrutura das novas salas de espetáculo, muitas propriedades de Câmaras Municipais, que não se informaram junto dos profissionais do sector, e as construíram com uma lotação mínima para o publico. “Uma sala para ser rentável deve ter 350 lugares”, confirma João de Carvalho.
Um excelente exemplo desta vergonhosa realidade é o Salão Central de Évora. Um antigo e enorme cinema da cidade, com plateia e balcão, que décadas depois de fechar devido a um malogrado incêndio, reabriu recentemente como sala de espetáculo com uns miseráveis 180 lugares! Ou seja, sem qualquer viabilidade económica. Os contribuintes eborenses que paguem a fatura. Ou, uma vez mais, ficará às moscas, sem receber trabalhos de qualidade. É a continuação da política cultural de terra queimada, onde quem tem um olho e amigos no poder autárquico é rei, recebendo subsídios.
Alguma vez o Ruy de Carvalho veio representar ao Teatro Garcia de Resende (TGR)? Arrisquei perguntar. “Sim, uma vez. Com a peça ́Les Dindons, uma comédia de origem francesa”. Palavra a João de Carvalho: “É um teatro fabuloso, há poucos iguais em Portugal. Na estreia tivemos sete pessoas a assistirem na sala, depois os eborenses perceberam que aquilo era mesmo teatro a sério, e não um texto de doutrina política, e encheram o teatro nos dias seguintes”. O que confirma a minha opinião sobre a má programação do TGR.
Aquela magnífica obra, erguida por particulares e doada aos eborenses, merece receber atores, músicos, cantores de qualidade, e de abrigar no seu palco a comunidade alentejana. Merece, no fundo, ter a sala cheia de público, e não faz sentido continuar refém de meia dúzia de pessoas, as mesmas há décadas, misturando interesses pessoais, económicos e políticos na sua utilização pseudo elitista.
Adolfo Coelho da Rocha, um médico otorrino de Coimbra, foi o autor da única peça de teatro que Ruy de Carvalho encenou. Foi no Teatro Experimental do Porto (TEP) em 1963, com o nome Terra Firme, e assinada pelo pseudónimo que o escritor utilizava: Miguel Torga. “Um Prémio Nobel da Literatura, que eu lhe dou, já que não teve oportunidade de o receber”, homenageia-o Ruy. Foi a única encenação que fez? “Sim, sabe, eu adoro ser ator. Mantive-me assim”.
Outro nome grande da cultura portuguesa, com quem trabalhou no cinema, foi o realizador Manoel de Oliveira. “Gostava muito dele, embora não concordássemos muito nas ideias da representação. Ele dizia-me: tens razão Ruy, tens razão, mas depois quando filmarmos, fazes como eu quero. Mas ele era muito competente, e sabia muito bem o que estava a fazer.” Concordei.
Há muitos anos, cruzei-me na apresentação de um filme dele em Paris, era eu jovem jornalista. E num anfiteatro repleto, pedi para lhe fazer uma pergunta que me ia no coração. Passaram-me o microfone e questionei sobre a sua peculiar forma de dirigir os atores, procurando saber se alguma vez pensara em levar uma peça de teatro a palco, em vez de realizar um filme?
Ele hesitou na resposta, enquanto no público surgiam breves exclamações, contestando a audaciosa pergunta. Finalmente, respondeu, e de forma declarativa: “Pensei. Mas nunca o fiz, nem farei. Porque a boca de cena me mete medo. E outra coisa, quando sobe o pano no teatro, eu perco o controlo dos atores. E tenho receio disso”. Os meus entrevistados corroboram, que foi uma resposta fidedigna da personalidade de Manoel de Oliveira. “Ele tinha o gosto por um cinema francês com muita imagem e introspeção. Menos texto”, confirma João.
“Vou contar-lhe uma história”, segreda-me Ruy de Carvalho, “Uma vez, num dos seus filmes, havia uma cena comigo e uma atriz que fazia de morta. E discordei com o Manoel, sobre a forma de abordar o texto. Ele lá me deixou fazer como eu queria. No fim, quando vimos o filme terminado, nessa cena apenas aparece uma vela acesa. Nem eu nem a morta aparecemos” (risos).
Ruy é um senhor no trato e generosidade, que nos ensina a olharmos a vida de frente e com coragem. Ao longo da entrevista, quando abordava temas e nomes de relevo para o ator, a idade parecia evaporar-se tal é o espírito jovem, positivo, traduzindo-se na desenvolta linguagem de Ruy de Carvalho. Aos 98 anos continua a decorar textos, demonstrando o que deseja: “Enquanto cá estiver, faço questão de viver intensamente”.
Desejo-lhe que no futuro ouça por repetidas vezes o contra-regra batendo as pancadas de Molière, anunciando consigo em palco o início de muitos espetáculos.











