Sáez Delgado quer festival literário para «pensar o mundo» a partir do Guadiana

Os países de língua portuguesa e espanhola têm «um potencial cultural, social e até económico fundamental» num mundo «cada vez mais anglo-saxónico», defende António Sáez Delgado, diretor e curador do Guadiana - Festival de Literaturas Afro-Ibero-Americanas, que decorre em Évora de 9 a 11 de outubro.

Em termos internacionais, «podemos ver, sem grande esforço, que o mundo dos países de língua portuguesa e língua espanhola, por vezes, sentem-se menorizados em relação ao mundo anglo-saxónico», admite o diretor do novo festival, escritor espanhol, professor e vice-reitor da Universidade de Évora.

O responsável, que é também curador do certame, diz que os países afro-ibero-americanos «sentem-se menorizados porque também não trabalham em rede», ao contrário dos «anglo-saxónicos, comandados pelos Estados Unidos da América, [que] inventaram uma palavra chamada lóbi, que funciona muito bem e com a qual não têm qualquer tipo de dificuldade».

Só que, para fazer a diferença, é necessário ter a «capacidade de trabalhar em rede, de trabalhar com horizontes abertos e sempre com a mentalidade de conhecer aqueles que são diferentes de nós, mas com os quais também temos muitos pontos em comum», defende.

E é para potenciar e valorizar o espaço afro-ibero-americano que surge o novo festival, com o nome simbólico do rio Guadiana, salienta, explicando tratar-se de um fórum que aproveita para «pensar o mundo» a partir destes países que têm pontes ao nível da identidade, da língua e da cultura.

«O Guadiana é um símbolo, primeiro de fronteira, atravessa os dois países ibéricos, Espanha e Portugal, sendo um rio que está à superfície, mas também, por vezes, desaparece, tem quilómetros e quilómetros submersos, é como se a fronteira desaparecesse», afirma Sáez Delgado, dizendo ser esse «o espírito que o festival quer reivindicar», transformando-se num «ponto de encontro entre pessoas que escrevem em duas línguas muito próximas, que vivem em países que têm uma série de desafios muito semelhantes no mundo atual».

«Qualquer cidadão da Península Ibérica consegue ler, sem grande investimento, três ou quatro línguas, no mínimo, considerando o castelhano, o galego, o português, o catalão», o que significa «conseguir estar em contacto com culturas simultaneamente próximas, mas completamente diferentes, com um espaço marcado pela pluralidade», argumenta.

Juntando a essa pluralidade,«a criação de “pontes” com o continente americano de língua espanhola e com os países de língua portuguesa em África, estamos perante um potencial cultural de uma dimensão extraordinária», conclui o diretor do Guadiana, integrado na programação de Évora_27 – Capital Europeia da Cultura.

Fotografia: © Maj Lindström

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