Em 1886, o compositor francês Camille Saint-Saëns apresentou, num círculo restrito de amigos, “O Carnaval dos Animais”, uma suíte para um ensemble que reúne 14 andamentos breves, cada um centrado numa figura do bestiário.
A peça revela uma sequência de situações musicais, do leão em marcha às tartarugas, onde um célebre cancan do compositor Jacques Offenbach surge desacelerado até ao limite. Impõe-se, nesta obra-prima, uma dimensão menos evidente: a de uma sátira subtil ao universo musical, visível nos pianistas reduzidos a exercícios mecânicos ou nos fósseis, entendidos como um cemitério de músicas conhecidas.
O carácter universal desta suíte do compositor – nascido em 1835, em Paris, e falecido em Argel, em 1921 – marca a produção que sobe ao palco a 18 de abril (21h30), num espaço invulgar, o Lagar do Marmelo, junto a Figueira dos Cavaleiros, no concelho de Ferreira do Alentejo, em mais um fim de semana do Festival Terras sem Sombra (TSS).
Segundo a organização, “O Carnaval dos Animais – Peça para Dois Pianos e Orquestra, de Camille Saint-Saëns” convoca «uma dimensão cénica que envolve músicos experientes, crianças e jovens de diferentes origens e as suas famílias, a comunidade sénior, assim como elementos da Universidade Popular, chamados a participar na construção e na fruição do espetáculo».
A este quadro junta-se a singularidade do edifício onde decorre o concerto. Projetado pelo arquiteto português Ricardo Bak Gordon, o Lagar do Marmelo afirma-se «como uma intervenção de grande clareza formal, onde a horizontalidade, o uso do betão e a relação com a luz estruturam um espaço pensado em continuidade com o olival envolvente».
O concerto conta com direção musical da pianista belga Eliane Reyes que, ao lado da portuguesa Luísa Tender, assume igualmente o piano. A formação integra ainda Alexandra Mendes e Luís Santos (violinos), António José Pereira (viola), Irene Lima (violoncelo) e Adriano Aguiar (contrabaixo), aos quais se juntam Katharine Rawdon (flauta), Carlos Alves (clarinete) e André Dias (percussão), num conjunto que cruza experiência solística e trabalho de câmara.
Nos últimos meses, crianças e jovens das escolas locais, com origens diversas, estudaram os animais e desenharam-nos, contribuindo para o universo visual do espetáculo; algumas participam em cena e dão corpo a essas figuras. Liga-os um território comum: o da música, onde as diferenças se esbatem. A presença em palco de executantes desta obra oitocentista e a participação do Grupo de Teatro Ritété – responsável pela narração do texto de Francis Blanche – completam um projeto que reúne música, teatro e comunidade.
Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: D.R.
Na fotografia, a pianista belga Eliane Reyes












