Santa Vitória e Horta da Torre ajudam a escrever história romana do Alentejo

Duas campanhas arqueológicas dirigidas pela Universidade de Évora trouxeram novidades este verão. Em Santa Vitória do Ameixial, numa área que não era escavada desde 1916, os muros revelaram duas fases de ocupação e um fragmento paleocristão inédito. Já na Horta da Torre, em Fronteira, onde se encontra o stibadium «mais bem preservado» do país, uma lixeira devolveu os restos dos banquetes romanos.

Na villa romana de Santa Vitória do Ameixial, classificada como monumento nacional, a campanha de 2026 permitiu recuperar informação inédita sobre um sítio que não era alvo de escavações documentadas desde o início do século XX — mais precisamente, desde 1916. «O objetivo essencial passa por recuperar informação, de modo a conseguirmos uma leitura clara da presença humana antiga no local. Os dados existentes são soltos e dispersos, sendo necessário construir um discurso sólido e coerente», explica André Carneiro, professor do Departamento de História da Universidade de Évora (UE).

Os trabalhos concentraram-se na zona mais elevada da villa, onde se acredita localizar-se a zona nobre da casa, conforme o registo das escavações de 1914-1916. A equipa identificou «um pavimento e muros que se encontram em bom estado de conservação», revela o professor, acrescentando que também foram intensificados «os referenciais de formação para os alunos, pois realizaram numerosas tarefas de registo em campo e organização da informação que, em geral, não são abordadas nas escavações arqueológicas no território português».

Entre as descobertas mais relevantes encontra-se a identificação de duas fases distintas de ocupação da villa. «A grande surpresa consistiu no facto de os muros revelarem duas fases de ocupação. Até ao momento, em Santa Vitória do Ameixial apenas se registavam estruturas consideradas como de um momento homogéneo — a grande residência de prestígio do século III/IV. Contudo, os muros identificados na campanha de 2026 revelam duas fases, pois um claramente sobrepõe-se a outro. Poderemos estar perante uma casa mais antiga, talvez do século I d.C., que mais tarde é reformulada para se construir um novo ambiente doméstico», acrescenta André Carneiro. Outro dos aspetos inovadores da campanha foi a identificação de um fragmento arquitetónico de época paleocristã, correspondente a um período «para o qual nunca foi noticiada qualquer evidência».

Escavações em Santa Vitória do Ameixial. © Município de Estremoz

O facto de os mais notáveis elementos deste sítio arqueológico se encontrarem no Museu Nacional de Arqueologia é apontado como o maior desafio desta escavação. «A UE tem um papel estruturante que não se limita à escavação em Santa Vitória do Ameixial: a colaboração insere-se num quadro mais amplo, pois a universidade tem a codireção dos trabalhos para a Carta Arqueológica de Estremoz. Ou seja, não estudamos o sítio isoladamente, mas todo o território envolvente. Além do mais, vários estudantes de doutoramento em Arqueologia encontram-se a trabalhar sobre conteúdos de Santa Vitória do Ameixial», sublinha.

Entretanto, o projeto vai entrar no novo ciclo de quatro anos, que se prevê possa reforçar as componentes de escavação, conservação e restauro e ainda a valorização do local.

HORTA DA TORRE, UM «EXCECIONAL»
CONJUNTO ARQUEOLÓGICO

Se Santa Vitória procura recuperar a história de um sítio emblemático, a Horta da Torre, no concelho de Fronteira, continua a surpreender pelo «nível de conservação muito relevante e conteúdos únicos para o território português», destaca André Carneiro.

As escavações decorrem desde 2012 e permitiram revelar progressivamente uma «imponente villa romana», da qual apenas uma pequena parte é atualmente conhecida. «O que conhecemos é um fragmento do que existiu: temos uma área aberta com pouco mais de 500 metros quadrados para uma área estimada de mais de 30 mil metros quadrados de extensão de vestígios», explica o professor da UE.

«A Horta da Torre — revela — é uma casa com soluções únicas e especiais dentro do quadro do povoamento romano no território português: temos uma sala de banquete com um stibadium, o móvel onde se reclinavam os convidados, dominando uma sala onde entrava água para criar soluções decorativas únicas e diferenciadas». O trabalho arqueológico já permitiu «colocar à vista e estudar os espaços contíguos à sala: dois grandes peristilos [pátios rodeados por colunas] e os seus compartimentos em muito bom estado de preservação».

A campanha deste ano incidiu na ala norte do peristilo de maiores dimensões, com vários compartimentos muito bem preservados. «Estamos também a intervencionar uma das lixeiras de época romana, com elementos ainda muito bem conservados dos banquetes da sala do stibadium: muitos elementos osteológicos, ou seja, ossos de bovinos e caça, que seriam consumidos grelhados a altas temperaturas, mas também muitas conchas de moluscos, pois ostras e berbigão vinham do litoral para serem consumidos neste sítio do interior alentejano. Temos ainda os recipientes cerâmicos usados na iluminação da sala, bem como na amesendação das refeições», prossegue André Carneiro.

«Tratando-se de um sítio arqueológico excecional, é difícil isolar uma única descoberta», confessa o professor da UE, acrescentando existir «um imenso volume de dados que permite perceber como decorriam os banquetes em época romana, mas também sobre a ocupação do espaço em etapa pós-abandono. Após o seu uso opulento em época romana, o local é abandonado, mas depois frequentado por pastores em etapa pós-romana (século VI/VII)».

«Por exemplo, na imponente sala do stibadium, onde a água fluía pelo pavimento, instala-se uma cabana que deixou buracos de poste no chão da sala, demonstrando uma forma totalmente distinta de ocupar e viver naquele ambiente», exemplifica o investigador, afiançando que a Horta da Torre «constitui um sítio ímpar» para entendermos os processos de ocupação e reocupação nos fins do Império Romano. Contudo, frisa, também merece destaque o estudo das soluções decorativas no sítio, desde logo pela existência de «muitos elementos» que permitem «entender como eram usados os mosaicos, estuques ou objetos que preenchiam os ambientes do local».

Por outro lado, o stibadium constitui um dos elementos mais singulares deste sítio romano. «É o mais bem preservado exemplar conhecido no território português», conclui André Carneiro.


Ciência, tecnologia e formação de novos arqueólogos

Apesar das especificidades de cada projeto, as duas campanhas partilham metodologias científicas avançadas e uma forte componente pedagógica. Segundo a Universidade de Évora, os levantamentos com drones, a prospeção geofísica por georradar, os modelos digitais do terreno e as análises laboratoriais «permitem hoje orientar as escavações com elevado rigor científico antes mesmo da abertura das áreas de intervenção».

Fonte da UE refere ainda que ambos os projetos «assumem um papel determinante na formação prática dos estudantes». Em Santa Vitória participaram 10 estudantes distribuídos por dois turnos, enquanto a campanha da Horta da Torre reúne 22 alunos de sete nacionalidades e de 10 universidades nacionais e estrangeiras, «vários deles em formação de mestrado e doutoramento», acrescenta a mesma fonte.

Para o coordenador dos trabalhos, este tipo de experiência de escavação é «fundamental» na formação de futuros arqueólogos, pois permite «a aquisição de competências em trabalho de campo, que se encontra devidamente credenciado como uma das unidades curriculares da licenciatura». André Carneiro sublinha, contudo, que a participação dos estudantes vai muito para além da formação científica: «estando em permanência, trabalhando e convivendo em grupo, os alunos desenvolvem competências sociais, de trabalho em equipa e de solidariedade».


Conhecimento ao serviço dos territórios

Um centro interpretativo em Estremoz e biscoitos romanos em Fronteira: as duas escavações querem transformar conhecimento em ganhos para os territórios.

Para além da investigação científica, ambos os projetos procuram gerar impacto nas comunidades onde se desenvolvem. Em Santa Vitória do Ameixial, a investigação deverá apoiar a criação de um centro interpretativo e de um percurso de visita, promovidos pelo município de Estremoz. «A Câmara de Estremoz está disposta a criar um centro interpretativo com uma exposição e um circuito de visita ao público. Trata-se de um projeto-âncora para uma freguesia periférica no espaço do concelho, que tem poucos recursos próprios e está afastada dos pontos de maior interesse turístico em Estremoz», revela André Carneiro, afiançando que «o projeto pretende ter também impacto social e uma mais-valia económica para a localidade, fazendo ainda com que a população local volte a encarar a villa romana como um elemento estruturante na sua identidade. Trata-se de um projeto vital para este espaço geográfico».

Já na Horta da Torre, o projeto tem vindo a consolidar uma ligação à comunidade local, com ações de divulgação, formação e iniciativas com agentes económicos, incluindo o desenvolvimento de produtos inspirados na gastronomia romana. «Por exemplo, vamos lançar uma marca de biscoitos em colaboração com uma doçaria local — sendo que estes biscoitos têm a originalidade de se inspirarem nas receitas de época romana e serem lançados no mercado com o logótipo do nosso projeto. É um exemplo de como na arqueologia procuramos construir pontes com a identidade local e com parceiros económicos», exemplifica o professor da UE.

«O maior desafio que temos na arqueologia consiste em transformar o conhecimento em discurso para o público em geral», afirma André Carneiro, concluindo que «precisamos de perceber melhor os sítios para criarmos discursos que permitam a todo o público entendê-los».

Segundo a Universidade de Évora, ao combinarem investigação científica, inovação tecnológica, formação avançada e ligação às comunidades, os dois projetos contribuem «para aprofundar o conhecimento sobre o passado romano da região e para valorizar o património como recurso científico, cultural e social». Mais do que revelar novos vestígios arqueológicos, acrescenta a mesma fonte, as campanhas demonstram como a investigação da UE «continua a construir novas interpretações sobre a história do território e a aproximar esse conhecimento da sociedade».

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