O Alentejo é a região com menos médicos: 1,42 por mil habitantes, segundo o estudo “Os Profissionais de Saúde do SNS – Retrato e Evolução”, agora divulgado.
O ensaio revela que entre 2017 e 2023, o número de médicos internos no Alentejo diminuiu de 284 para 279, depois de uma ligeira subida nos anos 2018 e 2019. No que respeita aos médicos de família a redução é ainda maior, com o número a passar de 253 para 220, o que representa quebra de 14%, sendo a única região do país a perder médicos.
O problema do Serviço Nacional de Saúde (SNS) “é a falta de recursos humanos e, acima de tudo, a falta de investimento”, afirma Joana Bordalo de Sá, presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), vindo ao encontro dos relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que apontam frequentemente “o subfinanciamento crónico do SNS em relação à média europeia”.
A líder sindical fala na necessidade de um investimento em termos orçamentais, mas também destes profissionais, que inclui não só os médicos, mas também enfermeiros, assistentes operacionais e administrativos, entre outros, ainda que o grande problema “seja a falta de médicos” no SNS, neste momento. “É isso que faz encerrar serviços, sobretudo em áreas muito específicas como a ginecologia e a obstetrícia”.
De acordo com a presidente da FNAM, estão a sair quatro médicos do SNS por dia. “Uns por motivo de reforma. Outros porque rescindem contrato e vão para o sector privado, para a prestação de serviço ou para o estrangeiro”. Em 2024 quase mil emigraram. Logo, os médicos “são poucos” e têm uma “carga assistencial brutal”, sendo que trabalham com “equipas extremamente desfalcadas, às vezes não estando reunidas as condições todas para se conseguir fazer um ato médico em segurança”.
A falta de médicos no sector público é ainda mais grave no interior do país, resultando também da incapacidade para os atrair e fixar, nomeadamente no Alentejo. Em fevereiro de 2025, com apenas dois médicos durante a semana, a população de Barrancos procurava alternativas recorrendo a Espanha. Com o Centro de Saúde fechado aos fins de semana, a Câmara Municipal viu-se na contingência de ter de pagar a um clínico espanhol para prestar serviço em regime de consulta aberta. Para resolver o problema, em 2023 a autarquia de Reguengos de Monsaraz criou um incentivo de mil euros mensais para atrair profissionais e resolveu o problema da falta de médicos de família.
Joana Bordalo Sá refere que os médicos “tendem” a fixar-se “nas zonas geográficas onde nasceram, viveram e cresceram”, sendo que outros tomam a iniciativa de “emigrar”, pois sabem que vão ter equipas de trabalho completas, “condições bastante melhores e salários que entendem mais justos”.
A presidente da FNAM defende que a atração de médicos para o Alentejo “não deveria ser baseada em incentivos pecuniários, podendo haver alguns apoios, como à habitação entre outros”. Nota que a grande questão é “transversal” a todo o país, pois os salários pagos pelo SNS “são baixos, os mais baixos a nível europeu, e as condições de trabalho também muito difíceis”. Perante este cenário, entre escolher fixar-se no Alentejo ou no estrangeiro, o primeiro estará sempre em desvantagem.
Muito focada na questão dos recursos humanos, Joana Bordalo de Sá aponta também o problema das infraestruturas, com “hospitais subdimensionados, instalações antigas e às vezes gabinetes de consulta em centros de saúde onde chove”, entre outros. “Entendemos que isto também é uma escolha de manter o SNS assim porque alguém vai faturar”, frisa, lembrando que dois grupos de saúde privada já anunciaram investimentos na ordem dos dois milhões de euros desde o início do ano, porque “sabem que vão ter retorno”.
“Vimo-nos de mãos atadas”
José Silva, especialista em Medicina Geral e Familiar, está integrado na Unidade Local de Saúde (ULS) do Alentejo Central. Exerce quatro dias em Montemor-o-Novo e um em Cabrela, que é a sua extensão rural, desde maio de 2025. Está no Alentejo desde 2021, quando veio tirar a especialidade em Évora. Refere que dos dez médicos de família que terminaram nesse ano, só três ficaram no Alentejo, “o que não são números animadores”. Os restantes “optaram por voltar para a região de origem”.
Nascido e criado em Évora, o médico diz ter regressado a casa. Vê “com bastante preocupação” o Alentejo não estar a conseguir “atrair outros colegas para exercer”. Mas compreende: “Falta muito desenvolvimento, além das estruturas de saúde”. Lembra que a maior parte dos médicos, quando termina a especialidade, por volta dos 28 a 30 anos, já tem “a vida encaminhada”, uma relação estável e por vezes filhos, sendo que no Alentejo a oferta de ensino continua a ser deficitária.
“Há listas de espera para colégios e para Atividades de Tempos Livres (ATL), e a crise habitacional na região é pior [que no resto do país] porque não se constrói”. Também falha a parte cultural, aponta, não só em matéria de entretenimento, mas em “termos de formação pós-graduada”, apesar de existir a Universidade de Évora.
Tudo isto acaba por “ter impacto” na hora de decidir, e ainda mais “quando há filhos e não existe um suporte extrafamiliar”. Acaba-se por ficar no sítio onde “já se tem a vida orientada quando se tira a especialidade, ou onde se tem algum tipo de suporte”, observa.
Para José Silva, os incentivos têm de “ir além do monetário”. E exemplifica com o caso de Reguengos de Monsaraz, que só este ano conseguiu ter o quadro completo, ainda que desde 2023 venha a dar um “extra” salarial aos médicos, como medida de atração e fixação ao concelho. Esses apoios, defende, têm de passar pela resolução de problemas como a insuficiência de escolas e colégios, crise habitacional e a oferta de emprego para os cônjuges dos profissionais de saúde. “Isso é que tem impacto, porque hoje ninguém vai para médico para ser rico”, desabava.
O excesso de trabalho é outro problema. “O sistema de saúde é igual em todo o lado. Estamos sobrecarregados, pois somos bastante solicitados”, sendo que o envelhecimento populacional no Alentejo coloca desafios suplementares. “A falta de médicos em meio hospitalar condiciona-nos a prestar os serviços primários, porque o facto de se esperar meses, ou até anos, por uma consulta hospitalar faz com que os utentes fiquem com mais dor e desesperem. E nós, que estamos aqui para ajudar, vimo-nos de mãos atadas”.
José Silva lembra que na região “vivem pessoas muito envelhecidas, distantes umas das outras e sem transportes – daí a necessidade de existirem extensões rurais –, e não há investimento para atrair pessoas. Depois falamos de desertificação do interior. As pessoas vão para onde existem as oportunidades”.
Fotografia: Nuno Veiga/Lusa/Arquivo












