Há expressões que se repetem há 70 anos, altura em que o Estado Novo anunciou um grandioso projeto para o distrito de Portalegre: a barragem do Pisão. Hoje, quando toda a região é substancialmente diferente, com todas as infraestruturas básicas concluídas, mas também muito mais desertificada, o prometido empreendimento — que será capaz de produzir energia elétrica, alimentar a agricultura, colmatar a crónica falta de água e até desenvolver o turismo e criar novas oportunidades de trabalho à comunidade académica — ainda se escutam os desabafos de sempre: «só quando vir», «será desta?», «talvez».
Percorremos as ruas pacatas da pequena aldeia do Pisão, freguesia do concelho do Crato. Ali, plantada desde tempos imemoriais junto à ribeira de Seda, não é fácil, sobretudo quando o calor começa a apertar, encontrar um dos 70 habitantes. Damos umas quantas voltas, contemplando o casario condenado a ser submerso mas, ainda assim, bem limpo, com muitas casas caiadas, à espera das festividades que sempre se realizam pelo verão.
João Conceição, de 62 anos e desempregado desde 2012, simboliza o olhar desconfiado da restante população. «Só acredito quando vir. Passados tantos anos de promessas, de avanços e recuos, faz-nos pensar sempre duas vezes. Agora dizem que vai para a frente, mas isso também já o disseram noutras ocasiões. Sempre que começam a fazer alguma coisa, lá vem o tribunal mandar parar as obras. Umas vezes por causa das azinheiras e dos sobreiros, outras por causa dos bichos… Ninguém sabe… Só acredito quando vir.»
Uma desconfiança que se justifica, tantas foram as vezes que a obra já foi dada como certa e depois suspensa. No início deste século (21 de abril de 2001), por exemplo, foi o primeiro-ministro António Guterres que, em visita à aldeia, anunciou com pompa e circunstância que a mesma iria dar lugar ao famigerado empreendimento de fins múltiplos.
Uma medida que, de resto, também fora anunciada anos antes por Mário Soares. Só que o socialista Guterres não ficou muito mais tempo no Governo. Veio um executivo do PSD e com ele uma inversão nas prioridades relacionadas com este projeto. A barragem parou, apesar da vontade manifestada por Durão Barroso em levar a obra por diante. Foi preciso esperar por 2019 para que o então ministro da Agricultura, Capoulas Santos, voltasse a classificar o empreendimento como projeto fundamental.
Desde então, mesmo com financiamento europeu garantido — inicialmente através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) — muitos têm sido os entraves ao projeto, todos assentes em decisões judiciais fundamentadas em providências cautelares. A verdade é que o Governo português acabou por reconhecer a impossibilidade de concretizar o projeto no período previsto no PRR e o financiamento de mais de 222 milhões de euros acabou por ser transferido para o programa Sustentável 2030.
Para o povo do Pisão, terra que já não tem ninguém em idade de frequentar as escolas do concelho, nem sequer é relevante de qual programa virá o dinheiro para fazer a obra. Agora o que interessa é que a mesma saia do papel e a nova aldeia comece a ser construída nas imediações do Monte da Velha, pequeno casario antigo que, por se encontrar a uma cota superior, irá sobreviver à subida das águas.

«Já há muito dinheiro investido»
A Câmara Municipal do Crato e a Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Alentejo têm vindo a multiplicar esforços. Querem evitar mais atrasos e começar já no próximo ano a construir a nova aldeia. Para prepararem os residentes para um eventual choque, trataram mesmo de levar quem quis a conhecer a nova aldeia da Luz, no concelho de Mourão, cujo povoado original também acabou, há anos, engolido pelas águas — neste caso, da barragem de Alqueva.
«Eu não fui. Que ia eu lá fazer? Já lá tinha ido há uns anos. Que ia eu lá fazer, se não sei ler? A família que trate do que tiver de ser, pois por mim está bem», diz Leopoldina Bonito, de 84 anos. «A mim o que agora me dá ralações é saber o sítio onde a nova aldeia será feita e quando é que vamos para lá. Eu gostava de ver a barragem feita, que já ouço falar dela há tanto tempo. E também quero saber como estão as coisas. Que se aviem, porque vem aí a nossa festa e ainda não fiz as pinturas da casa.»
Ao lado, Rita Chambel, de 68 anos, tranquiliza a amiga e dá conta de mais um possível contratempo. «Pois claro que vão fazer a barragem. Pois se já há muito dinheiro investido e até já pagaram a algumas pessoas… não era agora que iriam voltar para trás, mas também ainda há por aí gente que não chegou a acordo», relembra, apontando para a herdade que fica na margem contrária da ribeira de Seda.

A nova aldeia terá, ao que se diz, 114 habitações e haverá ainda espaço para crescer. Tenta ser uma réplica da atual e — todas as entidades o garantem — irá contemplar todos os serviços que a atual já possui, nomeadamente o posto de saúde, o parque infantil, os lavadouros públicos, as fontes, a capela, a junta de freguesia e os «negócios» — não mais de uma mercearia, um salão de estética e um café/restaurante, onde neste dia se serve uma galinha do campo assada em tabuleiro de barro.
São os proprietários do café/restaurante, Adelaide Felizardo e António João, que explicam que na nova urbanização, com casas de tipologia T1 a T4, as áreas serão sensivelmente as mesmas que as atuais, embora os novos materiais e técnicas de construção possam aportar maior comodidade. «Só não haverá cemitério novo, nem igreja. O que temos agora fica tudo em Mártires [local que pertence à freguesia] e por lá continuará», diz a comerciante.
Adelaide Felizardo acredita que o novo espaço lhe permitirá manter a qualidade do negócio. «Nós chegámos aqui há quase 36 anos. Esta casa era uma taberna e uma padaria, com um posto de venda de pão. Agora é um café e um restaurante e assim será no futuro. Acredito que vamos continuar a fazer a nossa vida, até porque tudo será mais moderno e funcional. O negócio vai continuar a funcionar, até porque vem sempre muita gente de fora. Agora, nestes últimos tempos, até têm aparecido pessoas que nunca ninguém viu. Querem saber coisas sobre a aldeia e o que será no futuro. Explicamos o que sabemos. Explicamos, por exemplo, que até as segundas habitações que aqui existem terão lugar na nova aldeia», diz.
«Voltar atrás? Não acredito, mesmo que nem tudo esteja ainda resolvido. Então já houve expropriações e escrituras feitas, como é que agora se parava novamente a obra?» — interroga-se António João, lembrando que ainda há tempo para quem, tendo dúvidas sobre as habitações e quintais que lhes competem, poder reclamar.
«O projeto parece-me bem feito», sublinha João Conceição, referindo que para os habitantes do Pisão a obra poderá trazer «mais conhecimento e socialização» numa comunidade que, à semelhança de boa parte do interior, tem vindo a perder população de forma sistemática.
«Para o país será, de certeza, uma obra boa. Pode criar empregos e trazer mais gente para cá», lembra o homem que regressou à terra já com 60 anos, depois de ter trabalhado como vigilante em Lisboa. «Eu? Estou a fazer uma formação de cozinheiro», diz quem, no futuro imediato, não pensa deixar o Alentejo.
O tempo das incertezas parece ultrapassado. Essa é a convicção do presidente da Câmara Municipal do Crato e da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo. Joaquim Diogo está convicto de que em 2029 a barragem já estará a funcionar. Em relação à construção da nova aldeia, diz que em meados de 2027 já deverá haver obra. «O projeto final terá de estar concebido até ao final deste ano, para que se possa lançar o concurso público», conclui.










Uma resposta
Alentejo ilustrado
Li a vossa reportagem e só queria dizer que na aldeia do Pisão há 5 crianças a frequentar a escola do Crato e 3 adolescentes na escola de Portalegre o que contradiz a vossa notícia quando dizem que não há ninguém nas escolas do concelho. Atenciosamente