Sines: onde o português une aos domingos 20 imigrantes de sete países

Vinte imigrantes de sete países diferentes encontram-se todos os domingos numa sala do Sines Tecnopolo com um objetivo comum: aprender português. Entre verbos conjugados e histórias de vida, a formadora Paula Valadares transforma a aula numa ponte entre culturas — e numa segunda casa para quem recomeçou do zero.

Helga Nobre/Lusa (texto)

Mahidul, Fátima e Arcádio são de países diferentes, falam línguas distintas, mas todos os domingos sentam-se lado a lado, em Sines, com o objetivo comum de aprender português.

O encontro acontece, desde março, numa sala do Sines Tecnopolo, onde 20 formandos oriundos de sete países — Roménia, Senegal, Colômbia, Paquistão, Índia, Marrocos e Bangladesh — aprendem a conjugar verbos, a lidar com diferenças culturais e a construir frases em português.

«Quem fez o trabalho de casa?», questiona a formadora, Paula Valadares, mediadora linguística e cultural no Agrupamento de Escolas de Colos, em Odemira.

Os poucos que respondem partilham com o resto do grupo o seu quotidiano: «Durante a semana vou trabalhar e, quando saio do trabalho, vou à piscina ou ao ginásio. Aos domingos venho à aula de português», relata um dos formandos do Senegal, sem tirar os olhos do trabalho escrito no papel.

«Esta multiculturalidade para mim é fascinante e se há coisa de que gosto é trabalhar [com estas pessoas]», confessa Paula Valadares, valorizando «a partilha da cultura e da história».

Entre os formandos está Mahidul (Bangladesh), de 29 anos, que não vê a família há quatro anos e aguarda a emissão do visto para poder casar com a namorada de longa data. «Vou casar este ano, mas ainda não recebi o cartão de residência. Espero que em breve», conta o jovem, que insiste na importância da qualificação.

«No início» – diz – «tive muita dificuldade, mas já percebo bem a língua, falo com os meus colegas, que também me ensinam quando erro, e vejo filmes portugueses com legendas em português».

No outro lado da sala, o colombiano Arcádio Garcia, 51 anos, ouve com atenção o colega e recorda que deixou para trás uma empresa e uma vida estável devido a ameaças e tentativas de extorsão, que o levaram a pedir asilo político em Portugal.

«Foi difícil porque tinha uma empresa com 20 anos. Tive de vender tudo e começar do zero. Em janeiro de 2024 vim para Portugal, apenas com a mala. Solicitei asilo político na Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) e acabei por arranjar trabalho na minha área». Para isso, reconhece que precisa de aprender a falar português: «As duas línguas têm muitas semelhanças, mas há diferenças em alguns significados.»

Nas horas livres, Arcádio, já com visto de residência, partilha a paixão pela música nas redes sociais, mas mantém o sonho de voltar a criar uma empresa na área da engenharia civil.

A meio da aula, quando a formadora questiona o grupo sobre «saudades de casa», a palavra fica suspensa e sem resposta dos formandos. «Saudade é uma palavra portuguesa, significa sentir falta», explica, arrancando sorrisos e acenos de cabeça que dispensam tradução.

Outra novidade surge durante a pausa, já na cafetaria, quando Paula partilha com os formandos pão podre, uma especialidade de Marco de Canaveses, no distrito do Porto, de onde é natural. Mais do que «a gramática e o vocabulário», a formadora considera ser importante transmitir «a cultura e as tradições» do país, introduzindo os conteúdos de «forma mais prática».

No grupo, há também uma formanda marroquina, que tenta aprender a língua para comunicar no trabalho, enquanto sonha trazer o filho de 12 anos para junto de si.

«Estou em Portugal há dois anos, mas gosto de aqui estar porque as pessoas ajudam, mesmo não sabendo falar português. Agora que já tenho visto de residência, já tenho trabalho, só falta trazer o meu filho que ficou em Marrocos com os meus pais e irmãos», diz a jovem, que trabalha numa superfície comercial e tem de aprender a identificar os produtos para ajudar os clientes no trabalho.

Na pausa para o almoço, já com a sala vazia, Paula sublinha a importância da integração e diz querer «ser parte da solução e não parte do problema», ajudando os formandos a sentirem-se mais integrados.

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