Sketchers, a arte do desenho em tempos digitais percorre as cidades

Num tempo em que a inteligência artificial fabrica imagens à velocidade de um clique, há quem prefira o gesto lento do lápis sobre o papel. Entre a ideologia escondida nos algoritmos e o silêncio cúmplice das ruas de Évora, um grupo de sketchers resiste com traços vivos, esboçando o mundo à mão livre. O futuro pode ser digital, mas a alma continua a desenhar-se no presente. Alexandre de Barahona (texto) e Cabrita Nascimento (Fotografia)

Na era da inteligência artificial (IA), em que no nosso computador, através de descrições textuais, obtemos imagens virtuais, fruto de modelos de aprendizagem de uma máquina que analisa padrões em milhões de obras existentes, para criar novas ilustrações ao sabor da nossa vontade, chamam-lhe uma ferramenta colaborativa permitindo a aceleração do processo criativo, levando à democratização da arte!

Não tenho receio da tecnologia, porém desconfio da ideologia escondida por detrás de sistemas político-sociais, profissionais e financeiros. O que é a democratização da arte? O acesso à sua absorção? O estreitar da porta de saída, aplanando o talento? Ou a aniquilação da individualidade percetual?

No extremo oposto deste admirável mundo novo da IA encontramos o grupo Évora Sketchers, uns com talento, outros adquirindo-o, mas todos com o sincero desejo de se exprimirem com um lápis afiado numa mão e um caderno de folhas brancas na outra.

Encontramo-los ao canto de uma rua, sentados sobre um muro, encostados sob uma árvore. Silenciosos, anódinos, lembrando a tímida quietude dos observadores de pássaros. Contudo, analisam as linhas oblíquas, a profundidade dos planos, as sombras nascidas da luz solar em redor de nós.

Intitulam-se, como cito, um coletivo de autores, naturais ou residentes no Alentejo, desenhando no seu dia-a-dia, registando o presente para o futuro. “Juntei-me ao grupo porque gosto de desenhar, mas sou amadora”, diz Cristina Seixas. “Adoro cores, gosto de realçar o que é mais colorido”, acrescenta, reconhecendo que, ao contrário de muitos, “a cor é a sua característica principal”.

Ao que nos passa despercebido, eles quedam-se imóveis, o único modo de olhar e ver. De seguida ganham coragem para traduzir a sua apurada visão na folha branca do caderno que trazem consigo. Desfolhando-o vemos riscos, traços mais carregados, frágeis manchas cinzento-claro, transformando-se em paisagens urbanas, da natureza criada pelo homem, segundo a sensibilidade e acuidade visual de cada desenhador.

“Desenhar em grupo é sempre uma atividade diferente, porque me obriga a sair de casa e estar ao ar livre, fazendo experiências a aprender com os outros”, explica Eduardo Miranda, arquiteto urbanista. “Recuperei o prazer de desenhar, que é uma excelente ferramenta de exercício analítico. A partir do momento em que desenho, a fotografia tornou-se pouco interessante, porque, desenhando, apreende- mos a realidade de maneira diferente”.

Antigamente, em português, dizia-se tratarem-se de esboços, ou esquissos. Depois, com a moda de Paris, chamaram-lhe croquis. Hoje, com a imposição do inglesismo, são sketchers. A definição permanece idêntica: “Um croquis costuma-se caracterizar como um desenho básico ou um esboço qualquer. Um croquis, portanto, não exige grande precisão, refinamento gráfico ou mesmo cuidados com a sua preservação; diferente de desenhos finalizados”.

João Martins, professor de Biologia, que iniciou há dois anos esta atividade lúdica, afirma que lhe serve de ocasião para conviver e de relaxamento. Um esboço pode também ser um desenho preliminar para um trabalho mais elaborado e mais detalhado, mas neste caso falar-se-á antes de rascunho.

No tempo, as escolas e academias de Belas-Artes propunham “cursos de esboço” a partir de um modelo ao vivo. A prática do esboço é um exercício indispensável ao desenhador, para preservar a precisão e a exatidão do traçado, comparável às “escalas” praticadas pelos músicos. Curiosa a comparação. O esboço pode ser feito a lápis, mas também com todas as técnicas rápidas: carvão, pedra negra, tinta (pena ou pincel), aguarela, guache, etc.

Para dizer a verdade, em segredo que os persigo, há uns tempos, espreitando as esporádicas exposições que realizam. Admirando uma das facetas sonhadas, e jamais concretizadas por mim. A par de livremente tocar jazz, num saxofone.

Ir ao encontro do grupo Évora Sketchers ultrapassou o prazer de os conhecer, pois dialogando com vários entendi o raríssimo exemplo que constituem fora do panorama do narcisismo artístico e associativo nacional.

“Eu achava que a minha capacidade de desenho estava ao nível das crianças”, reconhece Cristina Rebocho, educadora de infância. “O espírito do grupo foi decisivo, quando os conheci. Tinha muito bons desenhadores, de arquitetura e do ensino, que sem qualquer presunção me foram apoiando e ajudaram a evoluir. Hoje, é um momento de descontração e partilha do resultado com todos”.

São um grupo sem líderes e sem regras, a não ser o respeito entre todos. Sem estrelas, onde o desajeitado novato é tão aplaudido, como um dos mais experientes. Reúnem uma vez por mês, escolhendo um local para daí se espalharem ao seu bel-prazer, desenhando o que pretenderem, até à hora do reencontro.

A humildade e ausência de objetivos específicos para as suas obras são características comuns. “Quando se desenha guardamos um olhar diferente, com detalhes sobre as coisas e materiais, que normalmente não vemos”, assegura José Barreiros engenheiro eletrotécnico, de Vila Viçosa.

O que vi não foi um grupo, antes um conjunto de pessoas inteligentes e maduras, jovens no espírito e inconformadas no aperfeiçoamento do seu talento. Desenhando deva- gar, com calma e alegria interior. Comunicam nas redes sociais, o Facebook entre outros, e qualquer sketcher pode comparecer num encontro de outro grupo, longe da sua área de residência. Chega, anuncia-se e é bem recebido.

A classe etária dos membros, ronda os 40 a 50 anos. No entanto, também há exemplo de jovens, como Sara Barreto, de 14 anos, que veio experimentar pela primeira vez, e apesar de não conhecer ninguém inseriu-se bem no grupo e pensa continuar a prática. “A ideia é valorizar aquilo que olhamos, sem pretensões. Ajudando-nos uns aos outros”, afirma Elsa, professora de Educação Visual.

Por fim, deixo-vos a mais justa definição do que os sketchers fazem, caso inspire algum leitor, a experimentar, indo ao encontro deles. Um esboço é um desenho feito rapidamente, à mão livre, sem preocupação com pormenores, com o objetivo de captar a grandes traços o essencial do assunto, do motivo; frequentemente feito a partir da natureza, alimenta o caderno de viagem desenhado, chamado “de esboços” ou de viagem.

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