Surdolímpicos: Atletas alentejanos no Japão a “sonhar” com medalhas 

Estão entre os 13 atletas que vão representar Portugal nos Jogos Surdolímpicos que decorrem em Tóquio, até 26 de novembro. Os alentejanos André Soares e Francisco Laranjeira são os rostos da determinação, disciplina e paixão. Mas também da coragem, superação e ambição. Júlia Serrão (texto)

“Em cima da bicicleta somos livres”, afirmava André Soares numa das muitas entrevistas que deu no rescaldo dos Jogos Surdolímpicos de 2022, onde subiu por duas vezes ao pódio para receber as medalhas de ouro e de bronze. Agora, o atleta de 26 anos, já no Japão para participar nos Jogos Surdolímpicos de 2025, em Tóquio, diz querer “alcançar a melhor participação possível e honrar a nossa bandeira”.

André Soares nasceu em Borba, mas vive em Estremoz desde os 14 anos. Experimentou o ciclismo de competição pela primeira vez aos 15 anos, tendo a sua primeira prova sido o EstremozBike, já depois de ensaiar “todos os desportos que havia para praticar” no Alentejo. “O ciclismo foi amor às primeiras pedaladas”, conta. Começou no BTT, mudando-se mais tarde para o ciclismo de estrada, onde se mantém, integrando a equipa da Escola de Ciclismo Matos-Cheirinhos.

“Tive o privilégio de passar pelas melhores equipas de formação de ciclismo do nosso país”, comenta. Mas em 2019 deixou a competição, pois não conseguia continuar no escalão em que estava, nem ter horas para treinar, para dedicar-se aos estudos e ao trabalho. Terminava uma formação em eletromecânica e trabalhava na oficina, onde é mecânico automóvel.

Aos 19 anos, perdeu subitamente a audição, ainda que os sinais começassem um pouco antes, com perdas temporárias e sons distorcidos. De acordo com os médicos, a surdez poderá ter sido causada por um vírus. André Soares lembra que “não foi dos momentos mais fáceis” da sua vida. Foi preciso aprender leitura labial, usou aparelhos auditivos, e acabou por fazer implantes cocleares.

“Em 2021 volto a pegar no ciclismo de forma mais terapêutica e nunca mais parei”, explica. Com muitas horas de trabalho, seguiram-se várias competições em território nacional e no estrangeiro. “Os treinos de ciclismo são muito baseados em endurance, treinamos mais de quatro horas, e quando fazemos treinos mais curtos com intensidade por norma é em bidiário: de manhã e de tarde, são de 500 a 600 quilómetros por semana. Os cuidados alimentares são também fundamentais, como queimamos muitas calorias é importante repor a energia”, explica.

Mas o esforço é compensado. Em maio de 2022, participa nos Jogos Surdolímpicos em Caxias do Sul, no Brasil, onde obteve o 12.º lugar na prova de sprint, o 5.º lugar na prova em linha, foi medalha de bronze no contrarrelógio individual e ouro na corrida por pontos. Dois anos depois sagrou-se campeão do mundo de corrida por pontos no Mundial de Ciclismo de Estrada para Surdos que decorreu na Polónia, alcançando ainda o 5.º lugar no contrarrelógio, medalha de bronze na prova de sprint e medalha de prata na prova em linha.

A sonhar para este campeonato um resultado, pelo menos, análogo ao anterior, André Soares giza objetivos para a carreira: “Manter-me os anos possíveis no ativo”. Diz que o desporto de alto rendimento “cada vez é mais desgastante e o ciclismo cada vez está a evoluir mais de ano para ano”. E acrescenta:

“Ainda temos muita matéria prima para trabalhar, mas não sabemos por quanto tempo mais. Cada vez é mais frequente vermos jovens atletas abandonarem o desporto”. Para os que agora começam a sonhar com o ciclismo, aconselha a “nunca desistirem dos objetivos e não pararem de sonhar, porque com esforço e dedicação os resultados aparecem”.

Surdo de nascença, Francisco Laranjeira descobriu “a paixão” pela corrida ao 16 anos, através de um amigo que já praticava atletismo. Entrou num clube “para experimentar”, e imediatamente percebeu que correr era algo que o fazia sentir-se “verdadeiramente vivo”. Por isso, o desporto “acabou por se tornar uma forma de expressão e superação pessoal”.

Teve as primeiras experiências de atletismo no Clube Elvense de Natação, mudando-se para o Grupo Desportivo Diana ao ingressar na Universidade de Évora, em 2017. “Aí encontrei o meu treinador e colegas que acreditaram em mim e me ajudaram a evoluir”. Continua a representar o clube “com muito orgulho”.

Em 2021, Francisco Laranjeira estava entre os atletas selecionados para representar Portugal nos Jogos Surdolímpicos em Caxias do Sul, no Brasil, evento que entretanto foi prorrogado para 2022 por causa da pandemia de covid-19, quando um acidente deitou por terra as suas aspirações. Foi atropelado por um condutor que se pôs em fuga, e que nunca foi identificado.

“No dia em que ia iniciar o estágio para os jogos, fui atropelado e parti a perna. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida ver o sonho adiado”. Ainda assim, nunca perdeu a vontade de voltar. “Fiz uma recuperação longa e exigente, tanto física como mentalmente. Quando voltei a competir senti que estava mais forte do que antes, mais maduro e determinado”.

Participar agora nos Jogos Surdolímpicos de Tóquio tem, por isso, um valor ainda maior. “Têm um significado muito especial, depois de tudo o que aconteceu”, diz. “Vou competir nos 5.000 e nos 10.000 metros, e o meu sonho é lutar pelas melhores posições possíveis. Quero representar Portugal com orgulho e mostrar que é possível transformar a dor em disciplina, que o obstáculo não impede de chegar, faz-nos mais fortes. Basta acreditar e lutar.”

A sua mensagem para os jovens atletas que agora começam vai no mesmo sentido, sublinhando a importância de “acreditar” nas suas próprias capacidades, mesmo quando as coisas parecem difíceis. “No desporto” – assegura – “nada acontece por acaso. É preciso paciência, disciplina e paixão. Cada treino é uma oportunidade de ser melhor do que ontem. O segredo está em nunca desistir”.

Entretanto, Francisco Laranjeira tem vindo a conquistar vários títulos nacionais e regionais e pódios em provas de pista, corta-mato e estrada. Em 2023, sagrou-se vice-campeão nos 10.000 metros e nos 5.000 nos Europeus de Atletismo de Surdos, que teve lugar na Polónia, arrecadando assim duas medalhas de prata.

Aos 26 anos, quer “continuar a evoluir, alcançar marcas”, e conquistar medalhas ao longo da sua carreira desportiva. Mas também “inspirar jovens surdos e não surdos a acreditarem em si próprios, e descobrirem no desporto uma forma de superação e realização”.

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