O encontro decorre entre as 11h00 e as 19h00, ao ar livre, entre vinhas, nogueiral e sobreiros, e afirma um conceito ainda pouco vulgarizado fora dos círculos especializados: o de «vigneron». Mais do que produtor ou marca, o vigneron» é o vitivinicultor-engarrafador que trabalha a partir das suas próprias uvas e assume a ligação entre solo, planta, adega e garrafa.
Nas adegas dos Vignerons de Portugal não entram uvas compradas a terceiros; cada vinho transporta, por isso, uma garantia de origem e de responsabilidade direta. É uma ideia simples, mas exigente: o vinho começa muito antes da vindima e não se separa do lugar que o gerou.
Fundado em 2024, o coletivo reúne Quinta das Bágeiras, Vale dos Ares, Casas Altas, Casa da Passarella, Quinta da Alameda, Quinta do Perdigão, Quinta de Chocapalha, Quinta da Atela, Rui Reguinga e Tapada de Coelheiros. A edição deste ano tem particular significado para o Alentejo, não apenas por decorrer em Arraiolos, mas por escolher como anfitriã uma herdade que traduz uma das linhas mais interessantes da região: a passagem da afirmação dos grandes vinhos alentejanos para modelos agrícolas mais atentos à biodiversidade, à água e à saúde dos solos.
A história da Tapada de Coelheiros vem de longe. As fontes históricas conhecidas indicam que a propriedade foi oferecida em 1467 como dote de casamento a D. Branca de Vilhena e a Rui de Sousa, figura ligada ao Tratado de Tordesilhas. Em 1863 foi adquirida por Isadora Calhau, considerada a primeira proprietária a habitar e explorar diretamente a Tapada. Já em 1887 surgem referências documentais à existência de vinha na Herdade de Coelheiros, sinal de uma vocação agrícola antiga, mais tarde renovada em moldes contemporâneos.
O ciclo moderno abriu-se em 1981, quando Joaquim e Leonilde Silveira compraram a herdade e plantaram vinha e pomar de nogueiras. As castas então escolhidas — Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Arinto, Roupeiro e Trincadeira — foram inovadoras para a época e ajudaram a construir um perfil diferenciado. Em 1991 nasceu o primeiro Tapada de Coelheiros tinto, sob a orientação do enólogo António Saramago, com rótulo inspirado na tapeçaria de Arraiolos. Cinco anos depois, o Garrafeira 1996 projetou a marca para o topo dos vinhos alentejanos e portugueses.
Com cerca de 800 hectares, a Tapada de Coelheiros é hoje um mosaico de vinha, montado, nogueiral, olival, linhas de água, prados e vida selvagem. Depois da aquisição por Alberto Weisser, em 2015, e da entrada de Luís Patrão na enologia e viticultura, em 2016, a casa aprofundou uma orientação assente na agricultura biológica e regenerativa. Em 2022 obteve a certificação biológica e, no ano seguinte, lançou o projeto Bio Montado, destinado a reforçar a resiliência do montado e da vinha. O objetivo é claro: produzir grandes vinhos sem simplificar a paisagem que lhes dá origem, antes enriquecendo a complexidade ecológica da herdade.
Essa opção vê-se no terreno: cobertos vegetais espontâneos e semeados, pastoreio, abrigos para aves e morcegos, gestão criteriosa da água, energia fotovoltaica e preparados de base natural. O objetivo é restaurar a fertilidade do solo, favorecer a vida microbiana e integrar a vinha no ecossistema do montado, em vez de a tratar como uma cultura isolada. No Alentejo seco e quente, esta visão tem valor económico, ambiental e simbólico: mostra que a qualidade pode nascer de uma agricultura menos extrativa e mais paciente.
O acolhimento do Vigneron 2026 na Tapada de Coelheiros tem, por isso, forte simbolismo. Com cerca de 500 anos de história, a herdade é hoje uma referência em agricultura regenerativa e biológica, onde vinha, montado, nogueiral, olival e múltiplas espécies arbustivas coexistem num mesmo ecossistema. «Aprendemos que o vinho não se faz contra a natureza, faz-se com ela. Receber o Vigneron 2026 é abrir as portas a um modo de estar que cuida da terra hoje, para que ela possa cuidar de nós amanhã», afirma Luís Patrão, responsável pela enologia e viticultura da Tapada de Coelheiros.
A dimensão gastronómica do evento terá também assinatura alentejana. O chef José Júlio Vintém assina o almoço, preparado a partir de produtos da Tapada de Coelheiros e da região, num diálogo direto com os vinhos em prova. O programa inclui ainda lanche, prova livre e duas masterclasses comentadas por Luís Lopes, cada uma limitada a 20 participantes e centrada em referências de topo dos produtores presentes. O bilhete custa 45 euros e inclui ainda um vale de desconto para experiências de enoturismo na Tapada.
Num tempo em que o vinho português procura afirmar identidade sem cair na uniformização, o II Encontro Vignerons de Portugal propõe uma resposta clara: conhecer o vinho pela mão de quem conhece a terra. Em Coelheiros, essa ideia ganha cenário, história e substância, mostrando como o Alentejo pode responder aos desafios das alterações climáticas e da gestão sustentável dos territórios agrícolas.











Uma resposta
Belo Texto, Manuel Baiôa !
Parabéns !!!!