“Temos reais necessidades de contar com os imigrantes para superar a escassez de mão de obra, não só na construção civil, nas ferrovias ou nas rodovias, mas também no turismo e nos serviços básicos da própria saúde e do cuidado dos idosos e de pessoas com deficiência”, afirmou, numa entrevista publicada na página de internet da Arquidiocese de Évora.
O prelado lembra que “efetivamente, a Europa, por várias circunstâncias, chegou ao momento presente, concretamente, em Portugal, que é um dos países mais envelhecidos do mundo, porque houve opções políticas e sociais que se tomaram sem ter em conta o problema do despovoamento populacional e da desertificação, sobretudo no interior do país”.
Para D. Francisco Senra Coelho, o acolhimento tem de ser preparado com responsabilidade: “Temos de ter, de facto, um acolhimento de qualidade. Não vamos trazer pessoas para depois fazer favelas à volta das cidades do nosso país. Temos de nos preparar para acolher o número que necessitamos. O acolhimento tem de ser planificado e cuidado. Não tenho dúvidas disso. Senão, seremos irresponsáveis. Ou seja, estamos a gerar pobreza sobre pobreza e provavelmente violência sobre violência”.
Reconhecendo que a integração leva tempo, alerta que “vivemos um período onde ainda não aconteceu a enculturação sadia dos povos que chegaram, mas que ainda não se integraram. Esta adaptação começa a acontecer quando os filhos vão à escola, quando os filhos já são amigos dos nossos filhos, quando os netos já são amigos dos nossos netos, ou seja, quando há interação cultural e geracional”.
Segundo o Arcebispo de Évora, a dificuldade maior está em quem cresceu em contextos de exclusão: “A dificuldade maior que temos hoje não é com os imigrantes que chegam, é com a segunda geração dos imigrantes que chegaram, porque não foram, de facto, inseridos, não foram formados, não houve para eles uma preocupação de instrução e de promoção humana integral. Muitos deles ficaram entregues a si próprios em situações de discriminação e em contextos desumanos”.
Por isso, considera que “aquilo que temos de viver, é cuidar do acolhimento, saber integrar e apostar no sentido de investir em quem chega, para que, sobretudo, as novas gerações dos que chegam não repitam alguns erros sociais que acabámos de abordar”.
O Arcebispo de Évora defende ainda que a sociedade deve encarar a diversidade como riqueza: “Sem alheamentos, indiferenças e preconceitos devemos viver tranquilamente, porque a multiculturalidade e a multirracialidade são a realidade de muitas sociedades. Vejamos nesta circunstância a oportunidade de crescermos na multiculturalidade e na multirracialidade, fazendo a experiência da paz e do convívio próprio dos valores cristãos”.
E recorda experiências pessoais positivas de integração: “Posso dizer que há experiências maravilhosas que eu conheci muito de perto na minha vida de presbítero, quando acompanhei comunidades imigrantes, nomeadamente nos Estados Unidos da América, em menor escala na Alemanha e como Diretor Espiritual Mundial dos Cursilhos de Cristandade nos cinco continentes. Devo testemunhar que encontrei os portugueses integrados e felizes na quase totalidade das comunidades multiculturais, raciais e religiosas”.
Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: Gonçalo Figueiredo/Arquivo












