
Enquanto jovem e autarca neste distrito, sinto que não podemos continuar a falar dos jovens apenas quando queremos falar de futuro, demografia ou sucessão geracional. Temos de ter a coragem de olhar para a realidade que existe hoje, com as suas oportunidades, mas também com os seus problemas.
Em abril de 2024, foi divulgado o relatório final da Comissão de Análise Integrada da Delinquência Juvenil e da Criminalidade Violenta, criada pelo Ministério da Administração Interna. O relatório, com dados relativos a 2023, colocava Beja entre os distritos com valores mais elevados de delinquência juvenil e entre aqueles com maior expressão de criminalidade grupal.
Pode parecer que estamos a falar de algo distante, mas não. Estamos a falar de 2024! Estamos a falar de uma realidade política e social extremamente recente.
Não escrevo isto para condenar uma geração. Muito pelo contrário. Escrevo-o porque não podemos desistir de uma geração antes de perceber aquilo que lhe está a acontecer.
Uma criança que entra num percurso de delinquência não nasceu destinada a isso. Um aluno que abandona a escola não é apenas um número. Um jovem que não encontra oportunidades não é simplesmente alguém que «não quis trabalhar». Existem contextos familiares, sociais, económicos e escolares que não podemos ignorar.
Quando falamos de juventude, não podemos falar apenas dos jovens que têm boas notas, entram na faculdade, participam em associações, praticam desporto ou conseguem construir um percurso de sucesso. Temos também de falar daqueles que estão a ficar para trás, que não encontram uma oportunidade, uma referência ou alguém que os ouça.
E é também aqui que as juventudes partidárias têm um papel a desempenhar. Não podem existir apenas para discutir política. Têm de existir para fazer política. E fazer política significa olhar para o território, conhecer os seus problemas e levar essas preocupações a quem decide.
Claro que é importante estar nos grandes momentos nacionais, participar em congressos, encontros e debates. Mas, depois deles, fica uma pergunta: o que estamos a fazer pelo território a que pertencemos?
Um jovem de Almodôvar não vive num congresso. Um jovem de Moura, Odemira, Alvito, Aljustrel, Ferreira do Alentejo, Ourique e Cuba não vive num mero encontro político. Um jovem de Beja, Serpa, Mértola, Castro Verde, Barrancos e Vidigueira não vive numa simples reunião.
Vive no seu concelho, onde estuda, trabalha e constrói a sua vida. Pode estar fora, mas pode querer voltar. E é aí que a política tem de estar. Um jovem dificilmente se sentirá mobilizado por uma política reduzida a cargos, lugares ou progressões individuais.
Não precisamos de prometer que conseguimos resolver tudo. Existe, porém, uma diferença enorme entre não conseguir resolver um problema e não fazer nada perante ele. Se não podemos resolver, podemos alertar. Se não podemos decidir, podemos exigir.
Participar na política não pode ser apenas procurar um cargo ou publicar fotografias de congressos. É reconhecer que ocupar uma posição política significa não estar confortável no lugar que se ocupa. Significa estar diariamente desconfortável perante aquilo que ainda está por fazer.
Por isso, talvez devêssemos deixar de perguntar apenas porque é que os jovens não entram nas juventudes partidárias. Talvez devêssemos começar por perguntar: o que estamos a fazer para que eles queiram entrar?
No distrito de Beja, estas perguntas não podem esperar.
Porque enquanto discutimos estruturas, cargos e lugares, há uma geração a decidir onde vai estudar, onde vai trabalhar e onde vai viver.
É nisso que devemos estar focados. Falta coragem a quem lidera.










