«Em Bizango de Bizangongo», de Manuel Geraldo, «reflete sobre o manifesto descontentamento das tropas deslocadas nos conflitos do Ultramar, revelando o cansaço da guerra e o desejo de regressar a casa», refere uma nota da Tinta-da-China.
Segundo a editora, «através dos diálogos, construídos como um grande coro, questionam-se as mudanças promovidas pela revolução», sobretudo «no modo como demoraram a chegar ao povo ou a produzir os efeitos desejados».
A nota acrescenta que, «a par da violência no cenário de guerra, referem-se as condições da partida de muitos dos soldados, estabelecendo-se, desse modo, as bases para o aproveitamento político durante o regime do Estado Novo, e a ausência de alternativas para os jovens».
Nascido em Salvada, no distrito de Beja, Manuel Geraldo destacou-se como jornalista no Diário de Lisboa, tendo passado por publicações como o Tal & Qual, a revista espanhola Cambio 16, Revista Alentejana, Bola Magazine, Gazeta de Lisboa, Diário do Alentejo e Almanaque Alentejano.
Como escritor, é autor de obras sobre o Alentejo, a guerra colonial e a área jurídico-policial, de onde se destacam títulos como «A Segunda Morte do General Delgado», «Um Juiz no Alto do Parque», «Emigrados e Ofendidos», «Em Bizango de Bizangongo» e «SOS! – Será que Estou a Ficar Racista?».
O mesmo volume da Tinta da China inclui ainda «A Como Estão Os Cravos Hoje?», de Orlando da Costa, peça que a editora descreve como «um manifesto antibelicista», elaborada a partir da experiência do próprio autor e de relatos de soldados.
O texto observa também as «condições de trabalho e de segurança dos operacionais no campo de combate, promovendo o fim da guerra».
Segundo a Tinta-da-China, os cravos do título «servem de metáfora para o número de jovens convocados para o combate», mas também para uma reflexão sobre «a defesa dos valores da revolução, e os riscos da sua rápida erosão, face à resignação promovida pelo regime deposto».
A par deste volume, a Tinta-da-China lança ainda este mês «Fábulas Teatrais Sobre a Revolução Portuguesa», de Richard Demarcy e Teresa Mota, que reúne quatro textos — «A Noite do 28 de Setembro», «A História do Quatro Soldados», «As Vacas de Cujancas» e «Barracas, Ocupação» —, que, segundo a editora, «usam a história de Portugal como teatro-documento e são exemplo de um teatro de intervenção e social, propondo uma motivação nas classes populares através da consciência política e artística».
«A Noite do 28 de Setembro» foi, frisa ainda a Tinta-da-China, a peça fundadora do Centro Dramático de Évora, estreada em 1975 no Teatro Garcia de Resende.
As duas obras integram a coleção «Liberdade! Liberdade!», a editar ao longo deste ano, num total de 10 volumes, numa edição conjunta da Tinta-da-China e do Museu Nacional do Teatro e da Dança. A coleção é coordenada por Tiago Bartolomeu Costa e conta com o apoio da Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril.
Os textos que a integram foram escritos, encenados ou publicados entre o final da década de 1960 e os anos pós-revolução e «são atos de resistência e foram quase todos censurados», sublinha a editora, acrescentando que, «do teatro de revista a novas experiências teatrais, dos sindicatos às companhias, não são o teatro todo feito em Portugal neste período — mas são parte da história dos vencidos».
«Lê-los hoje» – enfatiza – «é reconhecer-lhes a marca do tempo e, com ela, contrariar a efemeridade da própria disciplina. É abrir o pano e deixar que nos seja contada uma história que se tentou conter ou controlar. ‘Liberdade! Liberdade!’ transforma o teatro em documento histórico».

«Em Bizango de Bizangongo / A Como Estão Os Cravos Hoje?»
Manuel Geraldo e Orlando da Costa
Editora: Tinta da China
96 página
PVP: 14,90 euros
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: Entrevista à RTP/1975










