Tozé Bexiga: “A viola campaniça furou-me a pele e ficou por cá”

O título deste artigo resume a relação visceral de Tozé Bexiga com o instrumento que marca o seu percurso artístico e a redescoberta de uma tradição musical profundamente enraizada no Alentejo. No novo disco, “Uádi”, o músico explora a raia como território sonoro e emocional, cruzando memória, experimentação e pertença num trabalho que amplia os limites da campaniça e reafirma a sua identidade criativa.

Maria Luísa Ferrão (texto)

Tozé Bexiga, músico e compositor alentejano, criou o projeto Raia que já levou a viola campaniça aos quatro cantos do mundo. A procura pelo som que ainda não ouviu esteve na génese da alquimia do seu novo disco, “Uádi”, que lançou em setembro, inspirado nos ciclos da natureza e no Guadiana, rio que sempre olhou como caminho e não como fronteira. 

Como surgiu a música na tua vida? 

Foi com a minha mãe que tinha alguma formação em música, a minha primeira “professora” de música. Cantava sempre para mim. Lembro-me de me ensinar a escala dó de uma maneira muito especial, em rima, que eu acabei por utilizar também quando ensinei música a miúdos. Ofereceu-me um órgão a pilhas castanho com um botão cor-de-laranja que ainda hoje existe e foi aí que comecei a tocar. Sempre fui muito atento aos sons e às narrativas sonoras que nos rodeiam. Não me lembro exatamente como é que a música surgiu na minha vida, mas acho que sempre esteve cá. Começamos a sentir as vibrações na barriga da mãe e depois isto continua. Cresci no Alentejo, junto à raia, numa aldeia chamada Ferreira de Capelins, com o Rio Guadiana logo ali. Frequentei aulas de música em Alandroal e em Vila Viçosa e, mais tarde, vim para a Academia dos Amadores de Música, em Évora. Fazia uns quantos quilómetros para ter aulas de música nas tardes livres.

E tiveste a tua primeira banda com que idade? 

Devo ter tido a primeira banda com 13 ou 14 anos, com o meu primo, e tocava teclados. Comecei no piano, depois inscrevi-me na guitarra clássica, estive numa escola de jazz, e, em paralelo, ia tendo as minhas bandas de rock… como os Swamp. Fizemos vários concertos em Espanha e no norte do país. Só bem depois descobri a campaniça. 

Tocavam músicas originais? 

Sim, lembro-me de compor desde pequeno. Fazia música e letras. As narrativas sonoras transportam-nos para vários universos, provocam-nos emoções, ou seja, a música instrumental também conta histórias. Agora reconheço que a voz é um instrumento espetacular que produz sons, com palavras ou não. A palavra tem sempre associada uma musicalidade. Quando era miúdo, lembro-me de compor num ZX Spectrum 48K algumas animações com música. Demorava imenso tempo a programar para fazer uma melodia, mas essa parte da alquimia sempre me fascinou. 

Onde vais buscar a inspiração? 

À vida, ao quotidiano, sair de casa, ter experiências. Penso que somos do tamanho daquilo que vivemos, daquilo que experimentamos. Digo muitas vezes aos meus filhos para se deixarem deslumbrar com aquilo que lhes acontece, com sentido crítico. Penso que é importante que os nossos sentidos se deixem contaminar com aquilo que se vai revelando no nosso quotidiano. Estamos aqui neste jardim, com sombra, com árvores bonitas com pavões a debicarem os bichinhos que vão aparecendo entre a relva e isso vai fazer com que sejamos sempre um pouco mais daquilo que éramos antes de estarmos aqui. Mesmo as experiências menos boas também nos transformam, fazem de nós aquilo que vamos sendo. A música é uma expressão desta dinâmica da vida. Por um lado, analisa aquilo que é o real e, por outro, apresenta uma proposta de atuar sobre ele. Creio que é esta combinação que lhe dá um propósito maior. 

Tens um projeto a solo desde 2019 chamado Raia. Fala-nos um pouco dele. 

Raia foi um pouco impulsionado por amigos músicos que me sugeriram fazer um projeto a solo. Sempre fui uma pessoa do coletivo e confesso que demorei algum tempo a avançar porque nunca me vi enquanto músico a solo. Após alguma reflexão percebi que se tivesse um projeto meu teria uma liberdade imensa de convidar pessoas e de me deixar contaminar por elas. E foi isso que aconteceu e que está refletido neste novo disco, que lancei em setembro, “Uádi”. Há algumas músicas onde entra apenas a viola campaniça e há outras onde toco com músicos convidados. De repente, foi possível agregar de uma forma fluída. Raia funciona um pouco como um isco que permite ir dialogando com outros músicos e este diálogo permite-lhe crescer, ganhar corpo. Os outros acrescentam-nos sempre. 

A viola campaniça dá corpo a Raia. Qual foi a razão desta escolha? 

Comecei a tocar viola campaniça porque sempre me interessou a questão das tradições e da música popular, embora a minha educação formal tenha sido outra. Foi algo que veio muito depois, no sentido de tentar compreender porque é que estes instrumentos mexiam comigo. Depois houve uma série de eventos que me puseram em contacto com a campaniça, como, por exemplo, uma oficina que fiz com o Pedro Mestre no Festival Andanças. Mais tarde trabalhei num concerto da Naifa e o João Aguardela disse-me, depois de uma grande conversa, que eu devia tocar viola campaniça e que quando voltasse a Évora me trazia o material que tinha recolhido. Isto foi aquela conversa ao jantar que pensei ser circunstancial, mas depois aconteceu mesmo. Passados cerca de seis meses, quando ele voltou a Évora, ligou-me para me dar três CDs com mp3 e outro material que tinha em casa. Comecei a ouvir aquilo e descobri o Jorge Montes Caranova e acho que foi aquela sonoridade que me fez perceber que a viola campaniça é mais que um instrumento. A sua sonoridade e a daquele homem, em particular.

Porquê?

Esta viola é uma espécie de um instrumento síntese que soa a árabe, a judeu, a cristão. Funde um conjunto de culturas e isso sempre me agradou muito porque acho que estamos cá todos e que é importante que consigamos viver uns com os outros. Foi aquilo que quis ver na viola campaniça, foi essa fusão que me agradou. Costumo dizer que me furou a pele e que, depois, ficou por cá. 

Lançaste um novo disco, Uádi”, que significa rio seco que enche com a chuva. É um voltar a esse lugar onde cresceste? 

As minhas fundações são profundamente raianas. Cresci à beira de um rio que sempre vi como caminho e não como fronteira. Creio que esta interpretação da paisagem pode ajudar-nos a encontrar algumas respostas para o período extremado que o mundo atravessa. Pessoas que falam línguas diferentes podem viver num ambiente de paz, de solidariedade, com trocas e acho que isso é inspirador. Raia é mais um caminho do que uma fronteira. Este disco é um primeiro LP [Long Play] composto por dez músicas, e é uma expressão dos ciclos da natureza muito presentes na minha infância. Ribeiros secos que enchem no inverno, a vida morre para renascer outra vez. As músicas têm a ver com essa ideia dos ciclos e de olharmos para os eventos da natureza como maiores do que nós. Esta ideia toca na filosofia do pensador britânico, Timothy Morton, de que há uma ideia romântica de natureza e que, de facto, a natureza é feita daquilo que são os seus ciclos com as suas cicatrizes e com aquilo que o próprio homem lá vai inscrevendo. A música “O Golpe” foi inspirada nesta ideia de movimento humano, neste gesto que transforma a paisagem. “Saias de Cinza” é outra música a que regresso de olhos fechados, inspirada nas danças tradicionais portuguesas. 

Um lugar teu? 

A ilha de cinza era um lugar no meio do Guadiana onde os miúdos se encontravam e que agora está submerso. Propus ao Omiri, um dos músicos convidados, criarmos um diálogo juntando a viola braguesa com a campaniça, de modo a criarmos aqui uma paisagem sonora que inclui gravações de campo com vozes de pastores, tocadores de bombo e ferrinhos, uma cantadeira e até o som do corte de peixe num mercado. O “Suão” é outro tema presente neste disco e ilustra o ciclo da natureza assim como “Neblina”, que surgiu em Ferreira de Capelins e que começou a existir com toda aquela massa de água que mudou o clima da região. Tem outro tema chamado “Alvorada”, que se alimenta muito do improviso, tratando-se de uma narrativa sonora sobre o Alentejo, a que soa a planície. A Ideia de amanhecer está ali presente. Estes temas não têm letra, têm a voz, mas usada como instrumento. A palavra abre-nos mundo, mas também nos condiciona.

Sentes que um concerto é o culminar do trabalho de um músico? 

Sinto que um concerto é uma celebração com toda a gente. Cada vez mais procuro um lugar de intimidade e de partilha. Gosto de provocar o público e de o convidar a participar, a improvisar. Nos concertos, não toco só as músicas do disco e faço poucos alinhamentos. Interessa que aquele momento seja bom. E se for de suspensão é lindo porque o coloca no plano do amor. Um lugar em que se plana e não se dá pelo tempo passar. Um lugar de entrega, não há punk sem suor.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 30,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar