Tribunal ouve testemunhas do naufrágio de Tróia que matou quatro pessoas

Testemunhas de acusação defenderam ontem, no Tribunal de Setúbal, no julgamento do único arguido do naufrágio de uma embarcação ao largo de Tróia, em 2024, que a zona do acidente era perigosa face às condições de mar daquele dia.

Na primeira sessão do julgamento, realizada segunda-feira, Manuel Coelho, timoneiro da embarcação, remeteu-se ao silêncio, mas na audiência de hoje várias testemunhas de acusação corroboraram a ideia defendida pelo Ministério Público de que as condições de mar desaconselhavam a saída da embarcação para a pesca do choco, na zona da Restinga, uma zona com bancos de areia particularmente perigosos com condições de mar adversas e a maré baixa.

O acidente, ocorrido no dia 7 de abril de 2024, provocou a morte de quatro pessoas, três homens e uma criança, de 11 anos.

Manuel Coelho, de 64 anos, natural de Alcácer do Sal, único arguido e sobrevivente do naufrágio, é acusado pelo Ministério Público de quatro crimes de homicídio negligente, por ter decidido fazer a viagem recreativa, apesar de saber que a mesma não era segura com as condições de mar que se verificavam naquele dia, com uma «ondulação superior a três metros».

«Não era de todo aconselhável navegar naquela zona onde ocorreu o acidente», afirmou em audiência o empresário do setor marítimo-turístico Márcio Joel, que só se apercebeu do naufrágio à distância, ao ver passar as embarcações de socorro da Polícia Marítima.

«Estávamos no mar e vimos que estavam a fazer buscas», acrescentou o empresário, depois de garantir ao tribunal que «nunca iria para aquele local» com aquelas condições de mar e com a maré baixa.

«Era um dia em que não poderíamos atravessar os baixios», corroborou pouco depois Mário Batista, que exerce funções no ancoradouro de Troia, onde o arguido tinha a embarcação Lingrinhas, dedicada à pesca recreativa mediante o pagamento de 25 a 50 euros por cada participante.

O naufrágio terá ocorrido cerca das 07h30, quando o timoneiro, depois de sair com a embarcação para a zona chamada Cambalhão, a norte da Restinga, ao largo de Troia, tentou inverter a marcha e voltar para a marina, tendo sido atingido por uma onda de 3,5 metros de altura.

Segundo revelou na altura a Capitania do Porto de Setúbal, que só foi alertada três horas depois do naufrágio, na embarcação naufragada seguiam, além do timoneiro, mais três adultos do sexo masculino, de 21, 23 e 45 anos, e um rapaz de 11 anos, filho de uma das outras três vítimas mortais, todos da zona de Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal.

O timoneiro foi salvo pela embarcação onde seguia Luís Leão, um ex-bombeiro e mergulhador profissional, também arrolado como testemunha, segundo o qual a zona onde ocorreu o naufrágio é particularmente perigosa com forte ondulação e com a maré vazante.

Fotografia da Autoridade Marítima Nacional documenta as operações de socorro em Tróia

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