A área semeada com cereais de outono/inverno deverá registar uma quebra acentuada na atual campanha agrícola, refletindo um conjunto de fatores meteorológicos e económicos que condicionaram a instalação das culturas.
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), «as previsões apontam para uma redução muito acentuada da área semeada com cereais de outono/inverno para grão, estimando-se um decréscimo próximo de 50% face à campanha anterior, para a generalidade das espécies».
No caso do trigo, a contração é particularmente expressiva. A superfície cultivada não deverá ultrapassar os 10 mil hectares, o que representa uma redução para metade face às campanhas de 2024 e 2025 e um recuo ainda mais significativo quando comparado com 2021, ano em que atingiu os 24 mil hectares.
O INE explica que «esta forte retração da superfície cerealífera resulta, sobretudo, da conjugação de condições meteorológicas desfavoráveis durante o período de sementeira, marcadas por precipitação persistente e solos saturados, que limitaram as janelas de instalação das culturas, com fatores de natureza económica, nomeadamente os elevados custos de produção e a reduzida rentabilidade da cultura dos cereais, que continuam a desincentivar a sua instalação em muitas explorações».
Para além da redução da área instalada, também o desenvolvimento das culturas já semeadas está comprometido. Segundo o INE, «as searas apresentam, de um modo geral, um desenvolvimento vegetativo inferior ao normal para a época».
O instituto acrescenta que «o excesso de humidade no solo, associado às baixas temperaturas e à reduzida radiação solar, originou situações de stress fisiológico, com impactos muito negativos, impedindo ainda a realização de operações culturais essenciais, nomeadamente as adubações de cobertura e o controlo de infestantes».
A evolução da campanha permanece incerta e dependerá das condições meteorológicas nas próximas semanas. O INE sublinha que «a evolução da campanha dependerá da regularização das condições meteorológicas nas próximas semanas, sendo determinante a ocorrência de períodos mais secos que permitam assegurar a realização das intervenções culturais necessárias à recuperação do potencial produtivo das searas».
Num contexto já marcado por dificuldades estruturais no setor cerealífero, estes dados reforçam a tendência de redução da produção nacional, num cenário em que os custos elevados e a baixa rentabilidade continuam a afastar os produtores destas culturas.
Também as principais associações do setor alertam para o risco de uma quebra significativa na produção de cereais em Portugal, apontando o impacto das intempéries e dos custos elevados. Num comunicado conjunto, a Associação Nacional de Produtores de Cereais, a Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo e a Associação de Orizicultores de Portugal alertam para «a situação extremamente preocupante que o setor dos cereais atravessa atualmente em Portugal», num contexto marcado por condições meteorológicas adversas e pelo agravamento dos custos de produção.
Segundo as três associações, «as condições meteorológicas registadas nos últimos meses, marcadas por precipitação intensa e persistente, dificultaram e continuam a dificultar de forma significativa as operações de sementeira e maneio em várias regiões do país». Em muitos casos, acrescentam, «os produtores viram-se impossibilitados de entrar nos terrenos em tempo útil, comprometendo o calendário agrícola e, consequentemente, o potencial produtivo das culturas».
A sucessão de tempestades agravou ainda mais o cenário no terreno. De acordo com o comunicado, «provocou danos severos em diversas explorações agrícolas, incluindo destruição de infraestruturas, erosão dos solos e perdas generalizadas de áreas semeadas».
Também as culturas já instaladas enfrentam dificuldades acrescidas. As associações referem que «têm sofrido perdas consideráveis devido ao excesso de água no solo, provocando encharcamentos, asfixia radicular e, em muitos casos, a destruição total das searas», situação que «agrava ainda mais a já frágil sustentabilidade económica das explorações agrícolas».
A este quadro soma-se o aumento dos custos de produção, fortemente influenciado pelo contexto geopolítico internacional, nomeadamente pela guerra no Médio Oriente, tendo «os preços dos fertilizantes registado subidas históricas, assim como os combustíveis», o que está a exercer «uma pressão adicional insustentável sobre os agricultores».
Perante este cenário, as três entidades consideram existir «um risco real de quebra significativa de produção, com impactos diretos na segurança alimentar e no aumento da dependência externa do país».
As associações apelam, por isso, «à adoção urgente de medidas de apoio extraordinário aos produtores nacionais», defendendo, entre outras medidas, a compensação pelas perdas de produção, o apoio à recuperação de infraestruturas e o reforço dos instrumentos de gestão de risco. Reivindicam ainda «o reforço imediato da dotação financeira» da Política Agrícola Comum e a criação de mecanismos específicos para apoiar as organizações de produtores face à redução do volume comercializado.
PAÍS IMPORTA 90% DO TRIGO QUE CONSOME
Portugal é fortemente dependente das importações de cereais, com níveis de autoaprovisionamento reduzidos. Segundo o Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, o país produz apenas cerca de 20% a 25% dos cereais que consome. No caso do trigo, a dependência externa é ainda mais acentuada, ultrapassando 90%. Esta insuficiência estrutural da produção nacional torna Portugal vulnerável às oscilações dos mercados internacionais e reforça a necessidade de políticas que incentivem o aumento da produção interna.












