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Turismo. Há um circuito florbeliano a nascer em Vila Viçosa

Vila Viçosa quer “resgatar” a vida e obra de Florbela Espanca num Circuito dedicado à escritora que estará a funcionar lá para final do ano. No antigo estúdio fotográfico de João Maria Espanca nascerá um núcleo museológico, e haverá um jardim com 15 pontos de interesse associados a Florbela. Ana Luísa Delgado (texto)

O projeto, revela Tiago Salgueiro, vice-presidente da Câmara de Vila Viçosa, decorre de uma candidatura feita ao Turismo de Portugal para “valorizar” o legado de Florbela Espanca, convidando à revisitação de 15 locais associados à escritora e à promoção dos seus lugares de memória.

“A ideia do jardim é criar um espaço de fruição que seja um complemento relativamente ao espaço museológico, ao espaço multimédia e à integração e valorização dos monumentos que estão identificados, nomeadamente o busto que se encontra na Praça da República, obra de Raul Xavier. Tudo isto integrará o Circuito Florbela Espanca”, acrescenta Tiago Salgueiro.

O espaço museológico ficará instalado na Rua Gomes Jardim, no antigo estúdio fotográfico de João Maria Espanca, pai de Florbela, que teve uma “influência decisiva” na vida cultural de Vila Viçosa, na transição do século XIX para o século XX.

“O próprio João Maria Espanca enquanto patriarca desta grande família foi um grande inspirador para a própria Florbela e para a sua obra. Neste espaço museológico iremos reunir um conjunto de testemunhos que permitam conhecer melhor a obra literária de Florbela e também do seu entorno familiar. É importante frisar esta questão, porque a família Espanca teve realmente uma forte influência aqui em Vila Viçosa”, refere o autarca e também historiador.

Além do Município, o projeto envolve o Grupo Amigos de Vila Viçosa, uma instituição cultural local “que recebeu um legado importante de Florbela Espanca, doado por Mário Lage”, o médico com quem a escritora casou em outubro de 1925, depois de se ter divorciado de António Guimarães, o seu segundo marido, e que inclui manuscritos e edições literárias.

“Florbela é uma figura incontornável e, nesse sentido, quisemos criar aqui um circuito específico que permita conhecer de forma muito mais detalhada a sua obra e perceber como é que olhou para Vila Viçosa e como é que Vila Viçosa olhou para ela, sendo ela uma mulher arrojada, que teve um percurso pessoal muito complexo, o que se refletiu bastante na sua obra”, diz Tiago Salgueiro.

Segundo o vice-presidente da Câmara, foi constituída uma equipa pluridisciplinar que “está a tratar da parte dos conteúdos” tendo em conta a existência de um “acervo considerável, também na posse de alguns particulares, que se disponibilizaram a colaborar no projeto”. A ideia é fazer um estudo detalhado dos documentos e das fotografias dos intervenientes, “pessoas que acompanharam Florbela Espanca ao longo da sua vida” e a a partir daí definir os conteúdos museológicos.

Lamentando que nos últimos 30 anos “o papel de Florbela e a sua relevância cultural” tenham sido “completamente esquecidos” em Vila Viçosa, o autarca lembra que a sociedade civil sempre se movimentou no sentido de criar um espaço museológico dedicado à escritora, uma ambição também do Grupo de Amigos de Vila Viçosa, que “nunca encontrou muita recetividade por parte dos poderes políticos”. Daí que só agora o projeto esteja a avançar, ainda que só lá para final do ano o Circuito Florbela Espanca esteja pronto para receber visitantes.

“Estamos a avançar estudando Florbela, dando a conhecer um pouco mais sobre a sua obra, valorizando também o seu papel na sociedade portuguesa do século XX, também em Vila Viçosa. A família Espanca teve aqui um papel fundamental naquilo que foi o desenvolvimento das artes a vários níveis e, portanto, é todo esse conjunto de informações que nós queremos trabalhar e disponibilizar ao público interessado sobre estas matérias”, explica.

Tiago Salgueiro aponta a existência de “um número crescente de investigadores e turistas, sobretudo brasileiros”, que se deslocam a Vila Viçosa interessados em conhecer um pouco mais sobre a vida e obra da escritora. “Recordo que, no contexto brasileiro, são produzidas anualmente inúmeras teses de mestrado e de doutoramento sobre a obra literária de Florbela Espanca e, portanto, decidimos avançar com este projeto e também para dar resposta a esse segmento turístico e de investigação”, conclui.

Na vila há dois edifícios intimamente associados a Florbela Espanca. Um é o do estúdio fotográfico de João Maria Espanca, adquirido pelo Município em 2018, no qual será instalado o espaço museológico. O outro, situado na Rua Florbela Espanca, a casa onde a escritora viveu, foi adquirido por uma entidade privada apostada igualmente em valorizar, estudar e divulgar a vida e obra da poetisa.

VILA VIÇOSA E FLORBELA

Filha de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, Florbela Espanca nasceu fora do casamento do pai com Mariana Toscano, no dia 8 de dezembro de 1894. O reconhecimento paterno como filha legítima só aconteceria em junho de 1949, 18 anos após a morte da escritora, o que não impediu que tenha tido “uma infância feliz” passada na casa do pai, no número 59 da atual Rua Florbela Espanca. “Vila Viçosa nunca esteve indiferente à vida de Florbela e acompanhou, por vezes dura e criticamente, a história da sua vida, os seus amores e desamores, os seus casamentos e as suas separações”, escreve a historiadora Noémia Serrano, vice-presidente do Grupo de Amigos de Vila Viçosa no “Dicionário de Florbela Espanca”, recentemente publicado.

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