Há muito que me disseram para nunca trazer à discussão o futebol, a política e a religião. Com o tempo descobri que a tauromaquia também não releva tolerâncias de discurso ou compadecimentos. Ou gosta-se ou não se gosta, e de nada vale a discussão, pois as duas partes encontrarão argumentos, mesmo que paleolíticos, para levar a sua avante.
Acontece que, no que se refere às três primeiras, o tempo nunca me levou a concordar com a sua não discussão. Era o que mais faltava não discutir a presença de um Ronaldo no «11», a palermice de um populista ou, no que a esta crónica concerne, a sordidez de um ser que empossaram como representante de Deus na terra, entre verdadeiros fiéis.
Eu, confesso céptico, logo ateu, só me falta bradar ao vento suão a frustração de não crer em Algo ou Alguém que me atenue as dores de quem aqui anda por baixo a dar ao chinelo. Mas nunca resultou, e assim me mantenho longe da crença que me salvasse desta dormência ateia. Não posso, porém, pactuar com o despropósito de alguns crentes que surgem ao rebanho armados de uma normalizada arrogância eclesiástica a ditar leis, no mínimo questionáveis, e a ocupar a igreja como se fosse a sua sala de estar. E, atenção, Cristo está fora disto.
Ora, eu como sou bom moço respeitador, acompanho regularmente a minha mulher aos seus locais de culto, nomeadamente à mística Igreja dos Mártires, no Chiado, em Lisboa, bairro onde me pariram já lá vão uns anos. Desta vez, um pobre-diabo que deve ser uma espécie de «faz tudo» na igreja andou a apagar as velas que os devotos acenderam um minuto antes (repito, um minuto), enquanto enxotava sem vassoura as mesmas pessoas para fora do santuário alegando a sua hora de fecho — mais parecia um organismo público de enfastiados.
O pequeno diabo nem sequer contemplou fechar primeiro as portas e apagar as velas depois, como faria um sensato. Até aqui tudo mal. Mas piorou: não quis ouvir ninguém e respondeu mal à minha mulher, que o chamara educadamente à atenção, e dei por mim em vias de facto para lhe ofertar um par de divinas galhetas com vista para o altar.
São Judas Tadeu é o «santo das causas impossíveis», desígnio que leva à fé de quem o procura, como a minha mulher. Mas ao «faz tudo» não lhe ensinaram os pergaminhos de Cristo. Preferiu refinar o seu comportamento mais imbecil. Furibunda, a minha mulher enviou um mail a dar conta do sucedido ao padre da paróquia e ao Patriarcado. Eis a resposta do padre: «Como o email que me endereçou o reencaminhou para o Patriarcado — o que considero uma falta de consideração por mim, que sou o responsável da paróquia — dispenso-me de lhe responder.»
Portanto, o problema, no teclar deste ínfimo ser, deixou de ser a forma desprezível com que o seu «amigo» tratou a fé dos seus «clientes», por serem horas de fecho do «negócio» (ironia maior: as velas acesas são pagas por quem precisa do colo da igreja). Logo o problema passou a ser o mail ter ido também para o Patriarcado.
A frouxidão deste alegado representante de Deus esbarra, uma vez mais, em tudo o que a «sua» igreja se apoia para chegar às pessoas e para as aproximar de si. O problema não é o mail nem o seu esmerado «faz tudo»; o problema é o de sempre: a falta de sensibilidade para entender a sua própria finitude em relação ao templo que não lhes pertence; eles apenas «trabalham» lá, com a conivência de quem ainda lá vai. E trabalham mal, e não veem notícias, e não têm noção, quanto mais não fosse da sua parca popularidade.
São uma espécie de pastores desempregados a ver dos rebanhos que já não compram a banha da cobra. E por este andar, estes proselitistas amnésicos de batas santas e terço ao peito farão homilias para a plateia vazia, como neste final de tarde em que a missa foi rezada por sete pessoas (!). Tende noção, alminhas de Cristo!
Pobre São Judas Tadeu, talvez esta seja mesmo uma causa impossível. Eu, como bom ateu, dou a outra face. Deus sabe que dou.











Uma resposta
Nada do que refere me surpreende!
Inquisição,pedofilia e forma como foi encarada, conivência com a ditadura…
Poderemos esperar algo diferente desta escumalha?