Universidade de Évora traça atlas dos mártires das catacumbas de Roma

Um projeto de investigação liderado pela Universidade de Évora está a identificar, estudar e mapear os chamados corpi santi, relicários antropomórficos que contêm ossos atribuídos a mártires das catacumbas de Roma. Através de uma abordagem interdisciplinar, a equipa procura devolver contexto histórico, artístico e material a um património religioso pouco conhecido e, em muitos casos, esquecido.

Júlia Serrão (texto) e Beatriz Nunes (fotografia)

O projeto tem como objetivo criar um mapa dos corpi santi – ossos de presumíveis mártires das catacumbas de Roma, consideradas relíquias pela Igreja Católica – na versão simulacra, ou seja, relicários antropomórficos que contêm e onde são expostas essas relíquias, explica a investigadora principal, Teresa Ferreira, do Departamento de Química e Bioquímica da Universidade de Évora e do Laboratório Hercules.

O percurso do projeto “Holy Bodies/Santos Corpos”, iniciado em março de 2023, começa, na verdade, em 2015 no âmbito de uma dissertação de mestrado de uma das investigadoras que integra a equipa, Joana Palmeirão, com a chegada de “duas urnas” à Universidade Católica do Porto vindas da Sé da cidade. Pretendia-se examinar o seu conteúdo, que era impercetível, “mas sobretudo recuperar as urnas”. Ao perceberem que “continham restos humanos”, a abordagem mudou. Nasceu assim “o primeiro contacto com estes relicários a que demos o nome de simulacra [palavra latina que poderá ser traduzida como simulacros]”, comenta a investigadora principal.

Santo Aurélio foi investigado com detalhe nessa dissertação de mestrado, e a equipa que se começou a formar à volta desse estudo apercebeu-se que este património carecia de um estudo mais aprofundado e integrado. “O trabalho era interessantíssimo, ficámos muito animadas com as possibilidades, e a partir daí nasceu um projeto de doutoramento financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)”.

A investigadora Margarida Nunes, do Laboratório Hercules da Universidade de Évora, que também integra a equipa, explica que assim que começaram a percorrer “mais finamente o Norte” do país, pois o trabalho partia do Porto, “foi-se descobrindo que a presença dos simulacra em Portugal era bastante mais marcada do que inicialmente” se pensava.

“Fizemos campanhas de trabalho a nível nacional, e pela quantidade de simulacros que encontrámos percebemos haver dimensão para fazer um projeto muito mais abrangente sobre estes relicários”, completa Teresa Ferreira, que reuniu uma equipa interdisciplinar com cerca de 20 investigadores.

A história dos corpi santi remonta à segunda metade do século XVI, após a descoberta de ossos humanos na Roma subterrânea, que se identificou como sendo dos mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Durante este período, os corpi santi, termo italiano “para os restos ósseos dos presumíveis mártires das catacumbas romanas”, foram enviados em caixas para o mundo cristão católico e, portanto, também para Portugal. Destinavam-se, sobretudo, a fomentar e reforçar a religiosidade em igrejas e conventos.

Durante os primeiros séculos, a “enorme devoção da comunidade cristã” aos que morriam “sendo coerentes na sua vida e fiéis a Cristo e à Igreja na sua morte, sofrendo martírio”, levou muitos dos seus membros a quererem ser enterrados a seu lado.

“A identificação dos mártires nos anos subsequentes à descoberta das catacumbas seguiu procedimentos rigorosos estabelecidos pela própria Igreja, mas baseando-se em pressupostos que, mais tarde, se vieram a identificar pouco sólidos, em alguns casos”, comenta a investigadora principal.

Teresa Ferreira acrescenta que nos finais do século XIX e inícios do XX, a própria Igreja, “com base nos estudos científicos possíveis daquela altura, que lançavam dúvidas sobre algumas questões relacionadas com o processo de identificação dos mártires, começou a admitir que estes, de facto, poderiam não o ser”. A partir de 1695, e “sem se saber o motivo”, sublinha, “mas possivelmente seguindo o diálogo das artes decorativas do Barroco, os ossos passam a ser montados em relicários com a forma de uma figura humana”.

Margarida Nunes explica que eram ligados por finos arames e colocados numa posição anatómica já com algum rigor. “Eram montados em estruturas metálicas e depois ricamente vestidos, apresentando vários adornos. Havia aqui um lado artístico, mas talvez também de ostentação”. A investigadora diz que embora não haja informação sobre o contributo de profissionais da área médica, os ossos nestas figuras “seguem, por vezes, tal rigor anatómico que tinha de haver uma passagem de conhecimento que ia além do que uma freira ou uma pessoa comum sabe sobre anatomia”.

O mais antigo que a equipa conseguiu identificar é S. Peregrino, que chegou a Portugal em 1703 para o Convento dos Cardaes, em Lisboa. O último é S. Benedito, chegado em 1870 para o Mosteiro do Varatojo, em Torres Vedras. Até ao momento estão localizados 59 no país. “No Arquivo do Vicariato e na Biblioteca Apostólica Vaticana descobrimos o envio de alguns que já não conseguimos encontrar, e falta-nos documentação para outros que estão localizados. Portanto, estamos aqui numa tentativa de fazer ‘match’ entre a documentação e os simulacra ainda existentes”, sublinha a investigadora principal.

O seu significado e importância, em alguns casos, diminui ou desaparece no final do século XIX princípio do século XX, “e cada país tem as suas circunstâncias próprias”, observa Teresa Ferreira. Em Portugal, durante as Invasões Francesas, a Revolução Liberal e a implantação da República “foram infligidos alguns maus-tratos a estes relicários”.

“No entanto” – prossegue – “este perder de significado, que levou em alguns casos a retirá-los dos locais de culto onde se encontravam, pode ser associado à perda da prática religiosa e alteração nas devoções em voga. Em muitos casos, a informação de que se trata de relicários contendo ossos das catacumbas de Roma foi totalmente perdida”.

O trabalho da equipa é “documentar as peças, estudá-las do ponto de vista artístico, histórico e material e, com isso, recolher e cruzar todos os dados para que as instituições – igrejas e entidades particulares – possam utilizar esse conhecimento para que cada simulacra volte a ganhar luz e ter vida”, diz Margarida Nunes.

NADA ABAIXO DE ALMADA

As investigadoras dão conta que, até ao momento, não se registou a localização de qualquer destas peças “abaixo de Almada”. Para a equipa, a ausência destes relicários no Alentejo “constitui um enorme mistério”, tanto mais que pouco depois de se descobrirem as catacumbas, no início do século XVII, “D. José de Melo, que era emissário em Roma e mais tarde foi Arcebispo de Évora, trouxe corpi santi para a Casa de Bragança em Vila Viçosa”, diz Teresa Ferreira. Acredita, por isso, que acabarão por ser encontrados. “Espero que consigamos ter alguma resposta ou encontrar algum até ao fim do projeto. É por pistas que nós chegamos a muitos deles”, frisa.

Também poderão estar “escondidos ou esquecidos” atrás de altares, à semelhança de “outros objetos de devoção anteriores que foram encontrados”, observa Margarida Nunes. Era uma prática comum, “pois houve momentos na história da Igreja em que determinadas devoções pareceram já não angariar novos crentes e, portanto, acabaram por ser afastadas”, acrescenta Teresa Ferreira, afirmando que “a quantidade que chegou a Portugal, que ainda hoje subsiste e além dos que se perderam em momentos de conflito ou catástrofe natural, mostra que esta era uma devoção bastante transversal no país, embora ainda não consigamos explicar a sua ausência no Alentejo e no Algarve”.

Símbolos de devoção, revelam também algum poder, “pois não era qualquer pessoa que podia ter um corpo destes”. Ainda que não fossem comercializados, por tratar-se de uma relíquia, havia os custos associados à montagem e ao transporte a partir do porto de Génova. “Tudo isso tinha de ser custeado, o que mostra o poder económico de irmandades, paróquias ou particulares que os recebiam”.

A devoção aos corpi santi teve uma enorme expressão por todo o mundo cristão católico, da Europa ao continente americano e India, entre o final do século XVII e a última metade do século XIX, quando a prática da exumação das catacumbas e a sua distribuição foi proibida pela própria Igreja,

O projeto “Holy Bodies, Santos Corpos” é liderado pela Universidade de Évora através do Laboratório Hercules e tem como entidades parceiras a Universidade Católica Portuguesa – polo do Porto, a Universidade Nova de Lisboa e a Museus e Monumentos de Portugal, através do Laboratório José de Figueiredo. São ainda parceiros, na Universidade de Évora, o Cidehus e o Vista Lab.

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