«Vagar à Mesa»: Cozinha de autor, com ‘terroir’ alentejano na Quinta do Quetzal

Em Vila de Frades, a Quinta do Quetzal foi prenda de casamento antes de ser vinha e, mais tarde, mesa. Ali, o chef João Mourato transforma o receituário tradicional — borrego, queijo de Serpa, enchidos — numa cozinha contemporânea de terroir alentejano.

Luís Godinho (texto)

Chegamos à Quinta do Quetzal por uma estrada estreita ladeada de vinha, e é fácil perceber porque é que este lugar, perto de Vila de Frades, no concelho da Vidigueira, se tornou mais do que um destino de enoturismo. Há aqui uma história de família, de arte e, sobretudo, de mesa — e é a essa mesa que nos sentamos, no restaurante panorâmico com vista sobre as vinhas.

Quem comanda a cozinha é João Mourato, um jovem chef nascido em Portalegre, onde cresceu a cuidar da horta e a ajudar as vizinhas. Foi aí, com apenas 15 anos, que começou a cozinhar. Fazia o pão lá em casa, entretinha-se com pudins, foi-lhe tomando o gosto. «Nunca gostei muito de estudar as disciplinas tradicionais», recorda. «Como já tinha o gosto pela cozinha, decidi inscrever-me na Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre.»

Seguiram-se estágios no Grande Real Santa Eulália e no Vila Vita Parc Resort, e depois um hotel de cinco estrelas em Vila Viçosa, o Alentejo Marmoris, onde conheceu Pedro Mendes — o chef consultor que desenhou a primeira ementa do Quetzal e que o convidou para o projeto. «Cheguei aqui com 20 anos, pensei que vinha apenas cortar tábuas de queijos e enchidos, foi difícil quando vi a casa cheia de gente», recorda.

A carta muda a cada três meses, para acompanhar os produtos da época. Na deste verão, e para «abrir as hostilidades», há peixinhos da horta com mostarda de pimento (9€), gaspacho de cereja com gelado de queijo de cabra e carapaus fritos (12€) e os lagostins do rio à Bulhão Pato (19€).

Nos principais, sobressaem as raças autóctones do Baixo Alentejo: borrego campaniço com puré de cenoura e espinafres (26€), vaca garvonesa grelhada ou estufada (27€ e 58€), porco alentejano com arroz de cogumelos (25€) e cabrito charnequeiro (49€). Nas sobremesas, o «Delírio de Vila de Frades», assim batizado pelo crítico Fernando Melo, é um clássico da casa e faz jus ao nome de batismo, com uma espuma leve de abóbora, gelado de requeijão, amêndoa tostada e crumble de canela. Há ainda um menu de degustação, com sete ou nove momentos (60€ e 75€), harmonizado com vinhos da casa.

«Fazemos uma cozinha de matriz tradicional com uma apresentação moderna», explica João Mourato, sublinhando a inspiração no receituário regional e a utilização de produtos locais, «como o borrego comprado no talho do senhor João Alegria, em Vila de Frades, ou o tradicional queijo de Serpa, que trabalhamos de uma forma mais contemporânea.»

À mesa, porém, também se prova a história do lugar. A Quinta do Quetzal nasceu como prenda de casamento: os 22 hectares de vinha na região da Vidigueira foram uma oferta de Caes e Inge de Bruin, empresários e colecionadores de arte holandeses, à filha mais velha. O casal, ligado ao sul do país desde o pós-25 de Abril, quando fez de Silves o seu refúgio de férias, quis criar um projeto onde pudesse «expressar a sua paixão pela cultura, natureza, gastronomia e vinhos portugueses». As vinhas cresceram, chegou a adega, plantaram-se mais 30 hectares e, em 2016, nasceu o enoturismo. Quem gere hoje a quinta é Reto Jorg, suíço nascido na Holanda, com décadas de experiência agrícola em vários países antes de se fixar em Portugal, em 1986.

No rés-do-chão, entre a adega e o restaurante, fica o Centro de Arte, onde é exposta parte da coleção «de Bruin» — mais de cinco mil peças de 500 artistas, entre pintura, escultura e instalação, algumas delas emprestadas a museus como o MoMA, de Nova Iorque. «O vinho é o coração da Quinta do Quetzal, mas aquilo que queremos proporcionar é muito mais do que uma prova», afirma Reto Jorg. «Cada experiência foi desenhada para mostrar a ligação entre o território, a vinha, a gastronomia, a arte e as pessoas que dão vida ao projeto.»

É essa a sensação que fica depois do almoço: a de que, na Quinta do Quetzal, a cozinha de João Mourato não é um acrescento ao enoturismo, mas antes o centro para onde tudo o resto converge — a vinha, a arte, a paisagem da serra do Mendro. Em tempo de vindimas, há a possibilidade de um workshop com o chef, no qual João Mourato abre as portas da cozinha para partilhar técnicas, receitas e histórias da gastronomia alentejana, numa sessão prática que culmina com a degustação do prato preparado pelos participantes, harmonizado com vinhos da quinta pelo sommelier João Santos.

QUINTA DO QUETZAL
Estrada das Sesmarias, Vila de Frades
Tel.: 284 441 618
Encerra às segundas e terças-feiras

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