«Vamos apostar numa reitoria de combate, orientada por objetivos»

O novo reitor da Universidade de Évora, António Candeias, que toma posse a 11 de maio, defende uma «reitoria de combate», centrada na execução, na captação de financiamento e no reforço da ligação ao território, assumindo como prioridades o aumento do impacto da investigação e a reorganização da oferta formativa.

Ana Luísa Delgado (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Na sua primeira grande entrevista, o novo reitor da Universidade de Évora defende uma mudança de ritmo na instituição, assente na execução, na desburocratização e numa maior capacidade de captação de financiamento. António Candeias assume como prioridades o reforço do impacto da investigação, a reorganização da oferta formativa e uma ligação mais estreita ao território, nomeadamente às empresas e às autarquias.

O curso de Medicina voltou a ser chumbado. O que falhou?

Houve um conjunto de condições que a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior definiu para que o curso possa ser novamente submetido e avaliado. E é isso que vamos fazer. Ou seja, garantir que a Universidade de Évora reúne todas as condições para que uma futura proposta possa ter sucesso. Isso implicará uma estratégia de contratação docente, que já estava prevista, mas que poderá ter de ser mais estruturada. A relação com o futuro Hospital Central do Alentejo é um dos fatores mais críticos e terá de ser devidamente fundamentada, demonstrando uma ligação forte entre a Universidade de Évora, as Unidades Locais de Saúde e o hospital. Pretendemos criar um polo de saúde e desenvolvimento humano junto do novo hospital. Esse é, de facto, um dos nossos desígnios e será fundamental para garantir a sustentabilidade do curso. Esta é uma das prioridades do mandato.

Enquanto candidato a reitor, afirmou que a Universidade precisava de mais ambição. Como é que isso se traduzirá, na prática, nestes primeiros meses de mandato?

O que proponho é prestar contas à academia e à sociedade após os primeiros 120 dias. A minha ideia é que esse período marque o ritmo e a orientação de todo o mandato. A execução é fundamental: temos de agilizar o funcionamento da Universidade. Temos de dar tempo aos nossos docentes, investigadores e trabalhadores para se focarem na sua missão. Há uma questão central, que é a desburocratização. Temos de tornar mais ágeis os processos internos, mas também posicionar a Universidade no território e nas redes nacionais e internacionais. E isso implica execução. Vamos apostar muito numa reitoria de combate, de ação, orientada por objetivos, capaz de demonstrar que a Universidade pode dar um salto e ter maior impacto na sociedade e na região.

Impondo objetivos dentro da UE?

O que queremos é criar condições. Quero que as pessoas que trabalham na Universidade se sintam motivadas, porque isso é meio caminho para conseguir fazer mais e melhor. Se houver uma visão clara e um caminho definido, estou convicto de que todos darão o seu máximo pela Universidade. Temos de nos focar na nossa missão e evitar dispersões. Esta reitoria tem de afirmar um rumo: a Universidade deve oferecer ensinos mais alinhados com as necessidades do futuro e com as expectativas dos estudantes, formando profissionais críticos e socialmente comprometidos. Por outro lado, a investigação tem de ter maior impacto na sociedade.

A propósito da investigação, que medidas concretas vai tomar para reforçar a capacidade científica da Universidade, frequentemente apontada como insuficiente?

Não diria que a investigação na Universidade de Évora é insuficiente, até porque somos referência em várias áreas. Isso é visível, por exemplo, no facto de termos um docente que integra o Conselho de Estado, o que demonstra o reconhecimento da qualidade da instituição. Ainda assim, queremos aumentar o impacto da nossa investigação. Há um ponto essencial: neste momento, falta maior capacidade de projeção externa dos nossos docentes e investigadores. Por isso, vamos avançar com um programa de capacitação, centrado na liderança e na escrita de projetos internacionais. A ideia é contratar gestores de ciência e um consultor que nos ajudem a mudar a forma como pensamos. Porque, repare, já somos bastante competitivos. A Universidade de Évora tem muitos projetos financiados por diferentes mecanismos. Mas acredito que podemos ir mais longe e investir mais do que temos feito até agora. A nossa investigação é de excelência, mas pode ganhar outra escala e outro impacto.

Com as tais ferramentas certas de que falou?

Exatamente, e sabendo posicionar-nos nesses contextos mais exigentes. É precisamente aí que este programa de capacitação pode fazer a diferença, ajudando a projetar investigadores e docentes que já têm capacidade para competir a níveis muito elevados, sobretudo no acesso a financiamentos europeus e internacionais. Ao mesmo tempo, vamos lançar um programa de projetos exploratórios, dirigido a jovens investigadores e a iniciativas transdisciplinares. Esse é outro ponto fundamental: hoje, os grandes desafios da sociedade não são herméticos e não se resolvem dentro de uma única área científica. São transversais e exigem o contributo de várias disciplinas. Por isso, é essencial pôr pessoas das humanidades, das artes e das ciências a trabalhar em conjunto. É isso que permitirá dar respostas mais completas aos problemas atuais. Estes projetos vão precisamente criar essas ligações dentro da Universidade de Évora, permitindo começar num plano exploratório e, depois, evoluir para iniciativas de maior dimensão.

Tem também insistido na importância da ligação ao tecido empresarial.

É outra dimensão decisiva: a relação com instituições e empresas. Hoje, a investigação está muito condicionada por ciclos curtos — projetos de dois, três ou, no máximo, cinco anos. Mas há áreas que exigem uma visão de longo prazo. Por isso, quero desenvolver, em conjunto com diferentes parceiros, projetos mais estruturantes, de maior duração, verdadeiros projetos âncora, com impacto transversal. Isso exigirá um trabalho intenso com essas instituições, mas é essencial para criar bases sólidas e duradouras.

Às vezes perpassa a sensação de perda de relevância da Universidade de Évora no contexto nacional…

Bom, diria que a resposta está neste conjunto de medidas. Desde logo, medidas internas: reestruturar serviços, simplificar processos, libertar tempo para a nossa missão central. Depois, investir na capacitação dos nossos docentes, investigadores e de toda a academia, criando condições para que possam ir mais longe. E há uma dimensão que não podemos ignorar: a ligação à sociedade. A Universidade tem de reforçar a sua presença na cidade e na região, trabalhar de forma próxima com autarquias, instituições e tecido económico. Pode haver essa perceção de perda de relevância — não sei até que ponto corresponde totalmente à realidade —, mas estou convicto de que a Universidade de Évora tem, e continuará a ter, um papel muito relevante, não apenas para a região, mas para o país.

Que compromissos concretos assume com a ligação da Universidade ao território?

Defendo uma Universidade de Évora para o mundo. Mas isso não significa uma universidade fechada ou provinciana — pelo contrário. Quero uma Universidade fortemente ligada a redes internacionais e globais, porque é aí que se decide o futuro do ensino e da investigação. Temos de estar nesses contextos, aprender com eles e participar ativamente. Mas, ao mesmo tempo, a Universidade tem de ter um papel muito relevante na região. Desde logo, no apoio ao tecido empresarial e às instituições. Somos um polo de conhecimento muito significativo — temos cerca de 700 doutorados — e isso representa uma enorme capacidade de produção científica. O que quero é intensificar essa capacidade e colocá-la ainda mais ao serviço das empresas. Estar mais próximos, cocriar conhecimento, ajudar as empresas a desenvolverem-se e a tornarem-se mais competitivas.

O mesmo com as autarquias?

No que diz respeito às autarquias, há também um caminho claro a fazer. Podemos desenvolver programas que respondam a problemas concretos — e a região enfrenta desafios muito exigentes, desde logo demográficos, energéticos e ligados às alterações climáticas. Mas podemos ir mais longe: contribuir para o desenho de políticas públicas e para o desenvolvimento de projetos culturais em conjunto com os municípios. O objetivo é simples: aproximar a Universidade da sociedade. Sair dos muros, estar no terreno, ser mais ativa. Essa será uma marca do meu mandato — uma Universidade mais aberta, mais presente e mais útil.

O financiamento do ensino superior continua a ser um problema estrutural. Que estratégia vai seguir para reforçar as receitas próprias?

De facto, o financiamento é um dos grandes problemas. No caso da Universidade de Évora, o financiamento do Orçamento do Estado cobre apenas cerca de 75% da massa salarial — e nem sequer estamos a falar dos restantes custos de funcionamento. Isso cria um défice estrutural que obriga a Universidade a ter uma estratégia clara de captação de financiamento. Uma parte vem das propinas, naturalmente. Mas o essencial tem de vir de projetos e da prestação de serviços. E aqui voltamos ao ponto central: temos de ser mais competitivos e aumentar a nossa capacidade de captar financiamento através de projetos.

Encontrando outras fontes de receita?

Temos de reforçar as receitas próprias através de serviços que a Universidade pode prestar. A relação com o território e com as empresas é fundamental nesse domínio — seja através da prestação de serviços, seja através de projetos de copromoção, que também contribuem para aumentar a competitividade das empresas.

Há ainda outra via que queremos desenvolver: o mecenato. O mecenato científico e cultural está cada vez mais presente e acredito que a Universidade pode tornar-se mais atrativa para mecenas interessados em investir no desenvolvimento da região e na produção de conhecimento.

Há quem aponte a dispersão dos cursos e a falta de massa crítica em algumas áreas. Vai avançar para uma reorganização da oferta formativa?

Sim, esse é um ponto previsto no meu programa. A reorganização da oferta formativa tem de ser feita com critério. É um processo que exige reflexão e que será conduzido com cuidado. Aliás, a criação de uma vice-reitoria para a área dos ensinos e da modernização curricular aponta precisamente nesse sentido. Queremos repensar a oferta formativa e ajustá-la às necessidades do país, mas também às expectativas dos estudantes. O objetivo é garantir maior coerência, maior massa crítica e uma formação mais alinhada com os desafios atuais.

Qual é o papel da Universidade na fixação de jovens qualificados no Alentejo?

É um papel absolutamente fundamental. A Universidade e o ensino mudam vidas — qualificam pessoas e criam oportunidades. E, nesse sentido, a Universidade de Évora tem uma responsabilidade muito clara: formar jovens, mas também contribuir para que possam ficar na região. Por um lado, temos de continuar a qualificar. Por outro, temos de ser capazes de atrair talento para o Alentejo e criar condições para que esse talento se desenvolva cá. Mas isso não chega. É preciso pensar estas questões de forma mais estruturada.

Uma das ideias que queremos desenvolver passa pela criação de laboratórios de políticas públicas, que ajudem a estudar e a responder a desafios como o da fixação de jovens. Porque é necessário criar condições concretas. Desde logo, a habitação — que é um problema grave. A mobilidade é outro, e não apenas dentro das cidades, mas também entre cidades. A rede de transportes na região é frágil e isso tem de ser pensado.

Também com a Universidade?

A Universidade pode e deve contribuir para esse esforço, trabalhando em conjunto com autarquias e comunidades intermunicipais. E há uma dimensão que não pode ser ignorada: a cultural. As pessoas não vivem só do trabalho. É preciso garantir uma oferta cultural que vá ao encontro das expectativas dos jovens e dos profissionais. Não é possível fixar empresas de grande dimensão — em Évora ou no Alentejo — sem assegurar estas condições. Não basta criar emprego. É necessário criar um contexto social e cultural onde as pessoas se sintam bem. Este é um trabalho exigente e coletivo. Mas há um nível acima, que é o do Governo, que tem de assumir políticas para o território. E isso nem sempre tem acontecido. Precisamos de uma visão para o país como um todo, e não apenas centrada em duas grandes áreas urbanas.

Como avalia a atual relação da Universidade com os politécnicos da região? Admite aprofundar modelos de cooperação?

Temos a Universidade de Évora como principal polo de ensino superior no Alentejo, mas temos também os Institutos Politécnicos de Beja, de Portalegre, de Santarém e de Setúbal. Este ecossistema, no sul do país, tem um enorme potencial. A minha visão é clara: não faz sentido competir entre nós. Faz sentido cooperar. Trabalhar em conjunto permite desenvolver projetos com outra escala e maior impacto. Já temos exemplos disso. Com o Politécnico de Portalegre, há trabalho nas áreas da energia e da economia circular que pode e deve ser aprofundado. Com o de Beja, há um caminho evidente nas áreas da água e da agricultura sustentável, onde também o CEBAL — Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo — pode ter um papel importante. Com o Politécnico de Setúbal, há potencial nas áreas tecnológicas e ligadas ao mar. O essencial é criar um verdadeiro ecossistema de cooperação, focado nos desafios do território. E é nisso que estou empenhado: numa cooperação real, efetiva, que vá além das intenções e produza resultados concretos.

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