«Vamos continuar a ter ondas de calor cada vez mais frequentes e mais intensas, com temperaturas mais altas — máximos de temperatura mais elevados —, que é uma coisa que está a verificar-se em todo o mundo, enquanto não resolvermos o problema que determina este aumento da temperatura média global à superfície», diz o climatologista, que é também presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável.
A temperatura média global da atmosfera à superfície tem aumentado e está próxima de 1,5 graus Celsius acima dos valores do período pré-industrial. Por definição, uma onda de calor é um período de seis dias consecutivos em que a temperatura está acima da média para aquele período do ano, num determinado local.
De acordo com Filipe Duarte Santos, este ano haverá ondas de calor e no próximo também, embora exista uma variabilidade interanual: «Há anos em que a temperatura média global é um bocadinho mais elevada. Nem todos os anos têm a mesma temperatura média.» Quanto ao El Niño, o climatologista considera que atribuir-lhe esta vaga de calor que está na Europa «não me parece que seja muito elucidativo».
O especialista recorda os recordes que se verificaram em vários locais do centro da Europa e das Ilhas Britânicas, antevendo que em Portugal esta onda de calor provavelmente não trará novos máximos.
«Mas mais tarde ou mais cedo, provavelmente daqui a um ou dois anos, vamos bater novamente recordes, porque o problema não está resolvido», sublinhou. Até agora, o recorde registado em Portugal é de 47,3 graus, em 2003, na Amareleja.
«Isto é um problema que só se resolve quando a temperatura média da atmosfera começar a descer», defende Filipe Duarte Santos, para quem as medidas de mitigação das alterações climáticas são «muito importantes», especialmente na União Europeia, mas à escala global não têm efeito, uma vez que as emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar em todo o mundo.
«Bateram-se recordes das emissões, sobretudo de dióxido de carbono (CO2), que resulta da combustão do carvão, do petróleo e do gás natural. Cerca de 80% das fontes primárias de energia no mundo são combustíveis fósseis e é assim há 50 anos», lamenta, indicando que a situação se mantém passados dez anos da assinatura do Acordo de Paris, em 2015.
A exceção é a União Europeia, que classifica como líder no processo de transição energética. «A UE a 27 reduziu a dependência de combustíveis fósseis de 84%, em 1990, para 68% em 2025. Não há mais nenhuma região no mundo que tenha conseguido isto», indica, acrescentando que a nível mundial a dependência dos combustíveis fósseis era de 87% em 1970 e foi de cerca de 82% no ano passado.
O climatologista alerta ainda para o crescimento do consumo energético: «O consumo da energia, sobretudo sob a forma de eletricidade, está a aumentar de uma forma brutal.» Segundo Filipe Duarte Santos, o consumo de energia no mundo aumentou 54% desde o início do século, no ano 2000, até 2025.









